Um artista diante de um microfone. Ao redor, um cenário monocromático, sem banda aparente, plateia, telões ou qualquer elemento que dispute atenção com a música. Essa imagem minimalista se tornou a assinatura do A COLORS SHOW, formato criado em Berlim, na Alemanha, em 2016, e hoje reconhecido como uma das vitrines musicais mais influentes da internet.
Ao longo de dez anos, o projeto transformou uma estética simples em um selo de curadoria. Passar pelo COLORS deixou de ser meramente uma gravação visualmente marcante e passou a funcionar como um ponto de apresentação internacional para artistas em diferentes momentos de carreira, de nomes emergentes a estrelas já consolidadas.
O Brasil conquistou uma presença recorrente ao longo dos anos. Um levantamento do Mundo da Música identifica 20 participações brasileiras no formato, sem contar a franco-brasileira Yndi, entre 2019 e agosto de 2026. A lista começa com Xênia França e hoje passa por nomes como Liniker, Emicida, Anitta, Alee e AJULIACOSTA.
O A COLORS SHOW não está sozinho. O programa integra uma leva de formatos que transformaram performances enxutas em vitrines globais para artistas. O paralelo mais óbvio aparece no Tiny Desk, criado pela NPR nos Estados Unidos, e no japonês The First Take: os três apostam em cenários reconhecíveis, poucos elementos visuais e foco na interpretação. A diferença está na linguagem de cada projeto. O Tiny Desk mantém o ambiente informal de escritório e geralmente recebe bandas ou formações completas; o The First Take trabalha com uma única tomada diante de um fundo branco; e o COLORS construiu sua identidade com cenários monocromáticos e uma música por sessão.
Em comum, os formatos funcionam como espaços de descoberta e posicionamento, capazes de apresentar um artista a públicos que podem não acompanhar sua carreira em outros canais.
Como funciona a curadoria do A COLORS SHOW
A seleção dos artistas é uma parte fundamental do projeto desde o início. Em reportagem publicada pela Time em 2019, os fundadores do COLORS contaram que, inicialmente, escolhiam eles mesmos os nomes que passariam pelo estúdio. Com o crescimento da plataforma, o movimento também passou a acontecer no sentido contrário, com artistas maiores procurando o COLORS e viajando até Berlim especificamente para participar das gravações.
A própria empresa se define como uma plataforma voltada a artistas de diferentes partes do mundo, com atenção especial a novos nomes e sonoridades consideradas distintas. Em sua descrição institucional, o COLORS afirma ainda que não cobra artistas ou equipes para que sejam considerados para um episódio do SHOW.

A estrutura atual também indica que a escolha dos artistas não está separada do planejamento dos lançamentos. Uma descrição recente de vaga para gerente de relações com artistas mostra que essa área trabalha em conjunto com os times de curadoria, plataformas, distribuição e produção, além de manter o contato com artistas, empresários e gravadoras antes e depois das sessões.
Isso significa que não há evidência pública de um processo simples de inscrição que garanta acesso ao A COLORS SHOW. O que as fontes mostram é uma combinação de curadoria interna, relacionamento com artistas e equipes e articulação do lançamento. A própria trajetória do projeto também mostra que alguns convites surgem a partir do contato direto da equipe com artistas ou seus representantes. Porém, a produção disponibiliza um formulário online para quem deseja ter seu trabalho avaliado pela curadoria.
Para os brasileiros, a logística teve um papel importante especialmente nos primeiros anos. Uma parceria entre a agência brasileira Let’s GIG e o canal alemão funcionou como uma grande operação conjunta para trazer a estrutura de gravação ao Brasil no final de 2021, driblando as restrições de viagens causadas pela pandemia. Enquanto a equipe da Alemanha mantinha a direção criativa do formato e chancelava a curadoria dos artistas, a Let’s GIG assumiu toda a linha de frente da produção artística e executiva local.
Para garantir que o padrão de excelência de Berlim fosse mantido, eles montaram o famoso estúdio monocromático dentro da Casa Natura Musical, em São Paulo, e trouxeram a startup brasileira Flow Creative Core para executar a complexa captação técnica de áudio e vídeo, viabilizando que dez artistas brasileiros ganhassem uma vitrine internacional de peso sem precisarem sair do país.
Mulheres predominam entre os brasileiros que passaram pelo COLORS
Mas antes disso, a primeira leva brasileira chegou ainda em 2019, com Xênia França, Luedji Luna, Rincon Sapiência, Liniker e Zeca Veloso. Depois de uma pausa em 2020, quatro projetos apareceram em 2021 e outros seis em 2022, justamente o período em que parte das gravações foi produzida no Brasil.
A frequência caiu nos anos seguintes. O levantamento não encontrou brasileiros em 2023, enquanto Mari Froes foi a única representante em 2024. Não houve participação identificada em 2025. Em contraste, 2026 já soma quatro nomes até agosto: Anitta, Alee, AJULIACOSTA e Maria Luiza Jobim. Esta última levou “Garota de Ipanema/Girl from Ipanema” ao programa em 13 de agosto, o episódio brasileiro mais recente.
Na divisão por perfil, são 13 participações de mulheres solo, seis de homens solo e uma de um projeto misto, o ÀVUÀ, formado por Bruna Black e Jota.pê.

Confira a lista completa:
- Xênia França (2019)
- Rincon Sapiência (2019)
- Liniker (2019)
- Luedji Luna (2019)
- Zeca Veloso (2019)
- MC Dricka (2021)
- Emicida (2021)
- Ana Olic (2021)
- ÀVUÀ, Bruna Black e Jota.pê (2021)
- Budah (2022)
- Celo Dut (2022)
- BIAB (2022)
- Bruna Mendez (2022)
- Febem (2022)
- Agnes Nunes (2022)
- Mari Froes (2024)
- Anitta (2026)
- Alee (2026)
- AJULIACOSTA (2026)
- Maria Luiza Jobim (2026)
A diversidade musical brasileira dentro do COLORS
Musicalmente, a presença nacional no COLORS escapa de uma única definição de “som brasileiro”. A lista reúne artistas ligados à MPB, ao R&B, ao rap, ao trap, ao funk, ao samba e à bossa nova, além de nomes que transitam entre mais de um desses campos. Esse recorte mostra que a plataforma não construiu uma imagem do Brasil apoiada apenas em gêneros tradicionalmente associados ao país no exterior, como samba e bossa. Ao contrário, boa parte das participações apresenta uma produção contemporânea, urbana e conectada a cenas que também dialogam com tendências internacionais.
Isso aparece, por exemplo, na convivência entre nomes como Luedji Luna, Liniker e Mari Froes, ligados a diferentes vertentes da MPB e do R&B, e artistas como Emicida, Febem, Alee e AJULIACOSTA, que aproximam o recorte brasileiro do rap e do trap. MC Dricka leva o funk para essa trajetória, enquanto Celo Dut se aproxima do samba. Em 2026, a participação de Maria Luiza Jobim adicionou ainda uma referência direta à bossa nova, repertório historicamente associado à projeção internacional da música brasileira e ao próprio sobrenome da cantora.

Essa variedade também ajuda a entender a função do COLORS como ferramenta de posicionamento. Para um artista brasileiro, aparecer na plataforma significa entrar em um ambiente de curadoria acompanhado por públicos que não necessariamente conhecem a cena local ou acompanham os mesmos veículos, festivais e plataformas do Brasil. A sessão funciona quase como um cartão de apresentação: uma faixa, uma identidade visual simples e poucos minutos para comunicar quem é aquele artista para uma audiência internacional.
Há ainda uma diferença entre participar de uma plataforma como o COLORS e simplesmente alcançar números altos nas redes ou no streaming. O valor está também no contexto em que o artista aparece. A sessão associa aquele nome a uma seleção internacional que, ao longo da última década, ganhou reputação por apresentar artistas antes ou durante momentos de expansão de carreira. Para brasileiros em busca de circulação fora do país, esse tipo de exposição pode funcionar como um elo entre lançamento, turnê, imprensa, festivais e novas audiências.
Por isso, a diversidade de gêneros entre os brasileiros que passaram pelo programa não é apenas um detalhe da lista. Ela ajuda a mostrar que o COLORS vem funcionando como uma vitrine para diferentes imagens da música produzida no Brasil, e acompanha uma geração que busca ocupar o mercado internacional sem depender de uma única ideia sobre como a música brasileira deve soar.
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