Do primeiro show à arena: como identificar e trabalhar os superfãs de um artista

Dados de Spotify e Luminate mostram o peso dos superfãs; Gabriel Lupi explica como transformar audiência em relação direta.
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Nathália Pandeló
Superfãs compram merch

Os superfãs ocupam uma parcela pequena da audiência de um artista, mas podem concentrar uma parte muito maior do consumo, da compra de ingressos e da disposição para acompanhar uma carreira por diferentes formatos. Essa diferença ajuda a explicar por que a chamada fan economy, a economia construída em torno da relação entre fãs e artistas, ganhou espaço nas estratégias da indústria musical.

No Spotify, os chamados superouvintes representam, em média, apenas 2% dos ouvintes mensais de um artista, mas são responsáveis por mais de 18% dos streams mensais. Eles também concentram 50% das vendas de ingressos realizadas dentro da plataforma e têm nove vezes mais chance de compartilhar a música com outras pessoas. Mais da metade continua ouvindo aquele artista seis meses depois de descobri-lo.

A métrica não é sinônimo de superfã em sentido amplo. O Spotify considera superouvinte quem buscou intencionalmente a música do artista por fontes ativas, como o perfil, páginas de lançamentos ou biblioteca, nos 28 dias anteriores. Fora da plataforma, a relação pode aparecer na compra de ingressos, produtos, viagens para shows, participação em comunidades e outros comportamentos.

É justamente essa visão mais ampla que este Guia MM busca percorrer: como reconhecer quem desenvolveu uma relação mais profunda com uma carreira, quais informações ajudam a enxergar esse público e o que artistas em diferentes estágios podem fazer com esse conhecimento.

A fan economy não depende apenas de uma audiência gigantesca

A Luminate, empresa de dados do setor de entretenimento, oferece outra maneira de olhar para o fenômeno. No relatório referente ao primeiro semestre de 2026, 20% dos ouvintes de música pesquisados nos Estados Unidos foram classificados como superfãs por interagir com artistas e música de cinco ou mais maneiras. Pela metodologia da empresa, 22% eram superfãs pelo comportamento de compra, 17% pelo nível de engajamento e 11% pertenciam simultaneamente aos dois grupos.

O dado ajuda a mostrar que fandom não se resume ao número de streams. Comprar um disco, assistir a um show, seguir um artista, consumir produtos e participar de uma comunidade representam níveis diferentes de envolvimento. Quanto mais formatos aparecem na relação, mais informações a equipe possui para entender como aquela pessoa acompanha a carreira.

Também não é um fenômeno restrito aos maiores nomes. Dados do Spotify e da Shopify mostram que, entre 2022 e 2024, o número de artistas com menos de 1 milhão de ouvintes mensais que venderam produtos pela integração das duas plataformas cresceu mais de três vezes. O volume total dessas vendas aumentou mais de seis vezes no mesmo período.

O Goldman Sachs também incorporou os superfãs às projeções para o negócio da música. Em seu relatório “Music in the Air”, o banco calculou uma oportunidade potencial de US$ 4,5 bilhões no streaming pago a partir de uma hipótese em que 20% dos assinantes fossem superfãs de pelo menos um artista e gastassem o dobro de um usuário médio. Trata-se de um cenário projetado, e não de uma receita já existente, mas a estimativa ajuda a mostrar o interesse econômico em modelos voltados a públicos de maior envolvimento.

No Brasil, há ainda um contexto de forte consumo da produção local. Segundo a Pró-Música Brasil, artistas brasileiros ocuparam 76% das faixas presentes no Top 1000 de streaming do país em 2024.

O superfã pode estar escondido entre milhares de seguidores

Para entender como esse público pode ser identificado fora das métricas de uma única plataforma, o Mundo da Música ouviu Gabriel Lupi, estrategista de dados de fãs e CEO da Gabriel Lupi Entertainment Services. Em seu e-book “Fãs que Você Não Conhece”, ele discute justamente a distância entre alcançar pessoas e conseguir reconhecer quem mantém uma relação recorrente com artistas e eventos.

CLIQUE AQUI para ler o e-book.

“Os superfãs quase nunca aparecem como ‘superfãs’ nos números que a equipe olha todo dia, como seguidores e ouvintes mensais. Eles aparecem quando você cruza comportamento ao longo do tempo, e isso vale tanto para para um festival quanto para um artista e seu empresário. Três informações costumam entregar quem eles são”, ele explica.

A primeira é a recompra, afirma Lupi. Na experiência do estrategista, voltar a comprar ingressos em diferentes edições de um festival ou turnês de um artista oferece um sinal mais forte de relacionamento do que uma contagem isolada de seguidores. A segunda é a geografia real de quem compra, observando de onde a pessoa veio e não apenas onde o show aconteceu. A terceira é o cruzamento de formatos, como ouvir no streaming e também comprar um vinil ou manter contato por newsletter e WhatsApp.

Quando esses comportamentos são analisados em conjunto, Lupi trabalha com quatro critérios que aparecem nominalmente em sua resposta: recorrência, canal próprio, profundidade de formato e recência.

“Nenhum sinal isolado resolve. Seguir no Instagram não diz quase nada, um play também não. O que distingue é a combinação, e ela costuma seguir uma hierarquia, valha para os fãs de um artista ou para o público de um festival”, ele diz.

“Um contato pontual normalmente tem um sinal só, e raso: um play, um seguir, um clique. O superfã acumula sinais que se reforçam. Na minha experiência, a combinação mais reveladora junta quatro coisas: recorrência (comprou ou veio mais de uma vez), canal próprio (está na sua lista de e-mail ou no seu WhatsApp, não só numa rede social que é de outro), profundidade de formato (consome em mais de um lugar, streaming e ingresso, ou streaming e merch) e recência (interagiu há pouco, não só há três anos)”, exemplifica.

O cruzamento desses sinais, explica Lupi, permite distinguir alguém que teve contato pontual com uma música de outra pessoa que comprou ingresso, viajou para assistir ao artista e continua respondendo às comunicações da carreira.

O caso do Queremos! mostra o que pode estar escondido nos próprios arquivos

Essa diferença saiu do campo teórico em um trabalho realizado por Lupi com o Queremos!. O especialista conta que, ao longo de 15 anos e cerca de 300 shows, o projeto havia acumulado informações em quatro plataformas de venda de ingressos, um CRM antigo e arquivos do período em que utilizava financiamento coletivo para viabilizar apresentações.

A auditoria reuniu mais de 200 mil registros e identificou uma base própria de e-mails cerca de dez vezes maior do que o festival estimava possuir. O processo também recuperou contatos de fãs da fase de financiamento coletivo que já não apareciam nos sistemas de bilheteria usados naquele momento.

“Na prática, isso muda o ponto de partida de qualquer ação. Antes, cada campanha começava do zero, comprando alcance nas plataformas para falar com um público que, em boa parte, já era do festival. Depois de enxergar a base real, a lógica se inverte: você começa falando com quem já é seu, de graça, pelos seus canais, e usa a mídia paga só para uma nova audiência. Um empresário de artista vive exatamente o mesmo antes de um lançamento ou de um anúncio de turnê”, ele compara.

O trabalho também encontrou um problema de interpretação geográfica. Cidades pelas quais as turnês haviam passado estavam sendo consideradas como locais de residência dos fãs. Ou seja, os registros indicavam onde os shows ocorreram, e não necessariamente onde os compradores moravam, o que poderia direcionar publicidade para regiões inadequadas.

Ter dados não basta se a leitura estiver errada

Gabriel Lupi
Gabriel Lupi (Crédito: Divulgação)

Na entrevista ao Mundo da Música, Gabriel Lupi aponta quatro erros que encontra com frequência: confundir a cidade do show com a residência do fã, contar uma mesma pessoa diversas vezes, tratar alcance como fandom e apresentar projeções como se fossem dados reais.

O problema da duplicidade é especialmente fácil de entender. Uma mesma pessoa pode aparecer com um e-mail em uma plataforma de ingressos, outro cadastro em um segundo serviço, um registro no site e um contato no WhatsApp. Sem identificar que todos correspondem ao mesmo indivíduo, a equipe pode superestimar tanto o tamanho da base quanto sua recorrência.

“O terceiro é tratar alcance como fandom. Milhão de seguidores e milhão de fãs são coisas diferentes. Seguidor é audiência alugada: o alcance depende do algoritmo e você não é dono do contato. Viralizar capta atenção, não constrói base. Confundir os dois faz a equipe investir em vaidade, não em relação”, diferencia.

O quarto erro, segundo Lupi, aparece quando as lacunas são preenchidas com estimativas apresentadas como fatos.

“Quando falta informação, o certo é apontar a lacuna, não preencher com estimativa disfarçada de fato. Eu prefiro entregar um mapa honesto, com os buracos marcados, do que um mapa bonito e falso. Decisão boa começa em dado honesto”, assume.

Isso é especialmente relevante para artistas que começam a organizar informações de diferentes fontes. Uma planilha menor, mas formada por registros que a equipe compreende, pode ser mais útil do que uma grande base sem clareza sobre origem, consentimento, duplicidade ou significado de cada campo.

Para quem está começando, o primeiro dado é perceber quem volta

Uma carreira recente dificilmente terá centenas de milhares de registros para cruzar. Também não precisa esperar chegar a esse tamanho para observar o comportamento.

Nessa fase, a pergunta mais útil pode ser simplesmente: quem voltou? Quem apareceu em mais de um show? Quem compra ingresso quando há uma nova apresentação? Quem responde às comunicações? Quem pede uma data em outra cidade? Quem leva outras pessoas? Quem procura um produto depois de uma apresentação?

Até o Spotify mostra que o fenômeno não depende de escala. A plataforma afirma que os superouvintes representam cerca de 2% dos ouvintes mensais em média considerando artistas de todos os tamanhos.

O artista também pode começar a construir meios diretos de contato compatíveis com o tamanho da operação, como newsletter, cadastro próprio ou WhatsApp, desde que a coleta e o uso das informações respeitem as regras de proteção de dados e o consentimento do público.

O objetivo inicial não precisa ser montar uma estrutura complexa. Pode ser apenas evitar que toda relação construída durante um show, lançamento ou campanha desapareça assim que aquela ação termina.

Para carreiras em crescimento, é hora de cruzar comportamentos

Quando começam a existir lançamentos recorrentes, turnês, mais de uma plataforma de ingressos, venda de produtos e diferentes canais de comunicação, o desafio muda. A informação passa a existir, mas aparece fragmentada.

É nesse estágio que recorrência, canal próprio, profundidade de formato e recência podem começar a ser analisados em conjunto. Um fã que comprou ingressos em duas turnês, recebe os e-mails da equipe e também adquiriu um produto oferece sinais diferentes de quem ouviu uma faixa uma vez após encontrá-la em uma playlist.

Gabriel Lupi resume o risco de construir toda a estratégia sobre canais de terceiros:

“Artistas e festivais nunca tiveram tanta audiência, mas continuam dependendo de plataformas que não controlam. Uma mudança de algoritmo pode reduzir o alcance de uma campanha da noite para o dia. E, muitas vezes, quando uma turnê ou um festival termina, também se perde o contato com quem comprou ingresso, ouviu uma música ou adquiriu um produto”.

Para uma carreira em crescimento, trabalhar a base própria não significa abandonar streaming ou redes sociais. Essas plataformas continuam sendo grandes espaços de descoberta e consumo. O ganho está em não depender de uma única métrica para entender o relacionamento com o público.

Para artistas consolidados, cada ação pode ensinar algo sobre o fã

Estratégia para descobrir superfãs de música

Com uma operação maior, surgem possibilidades como pré-vendas, acesso antecipado, produtos exclusivos, testes de cidades para turnês e comunicações direcionadas a grupos específicos.

Para Lupi, porém, uma boa estratégia de superfãs não deveria servir apenas para cobrar mais de quem já consome.

“A regra que eu uso é simples: as melhores ações com superfã são as que fazem o fã revelar algo novo, não as que só tentam arrancar mais uma compra. E ela funciona igual para um artista, um empresário ou um festival.”

Um exemplo dado pelo estrategista é oferecer acesso antecipado a uma pré-venda ou pré-save por canais próprios. A resposta permite observar quem age rapidamente, quais cidades apresentam procura e quais grupos se movimentam primeiro. Outra possibilidade é oferecer uma coleção limitada de vinil ou produtos para uma base identificada. Lupi também cita uma alternativa mais simples: abrir um canal direto e fazer perguntas ao público.

“E a mais subestimada é simplesmente abrir um canal direto e perguntar. Um WhatsApp com o núcleo, uma pergunta bem feita, um teste de cidade para a próxima turnê. O fã leal quer ser ouvido, e cada resposta vira dado seu, guardado num canal que é seu.”

Essa lógica forma um ciclo no qual o dado orienta uma ação, a ação produz novas informações e essas informações ajudam a planejar a etapa seguinte.

“O ponto é esse: se a ação só serve para vender de novo para quem já compra, você gastou uma bala e não aprendeu nada. Se ela te devolve informação, cada ciclo deixa o seguinte mais preciso. É o que eu chamo de flywheel: o dado gera a ação, a ação gera dado novo, e ele fica com você, não com a plataforma.”

Superfãs são uma parte da estratégia, não toda a audiência

O interesse econômico em super fãs não significa que uma carreira deva se voltar exclusivamente para quem já demonstra maior envolvimento. Todo superfã precisou, em algum momento, descobrir aquele artista. Continuar chegando a novos ouvintes permanece essencial para renovar e fazer crescer a base.

A diferença está em não medir todo mundo da mesma maneira. Descoberta, audiência recorrente, compradores de ingressos e pessoas que acompanham diversos aspectos da carreira representam relações distintas. O Spotify consegue observar parte dessa jornada dentro de sua própria plataforma. Artistas e equipes podem enxergar outras partes a partir de ingressos, produtos, comunicação direta e histórico de relacionamento.

Para quem começa a buscar seus próprios superfãs, o trabalho pode ser perceber quem retorna. Para uma carreira em crescimento, passa pela organização de informações que já estão espalhadas. Em operações consolidadas, pode chegar à segmentação de diferentes comportamentos e a ações que também funcionam como aprendizado.

A fan economy ganha força justamente porque coloca outra pergunta ao lado dos grandes números de audiência. Além de saber quantas pessoas chegaram até uma música, um show ou uma campanha, artistas e equipes podem começar a descobrir quem decidiu ficar e de que maneira essa relação pode continuar ao longo da carreira.

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