Alice Ruiz será homenageada com Troféu Tradições UBC 2026

Aos 80 anos, Alice Ruiz receberá homenagem da UBC em São Paulo com prêmio que reconhece mulheres fundamentais para a música brasileira.
Foto de Nathália Pandeló
Nathália Pandeló
Alice Ruiz
Alice Ruiz (Crédito: Cristhian Franz Tragni)

Alice Ruiz será a homenageada do Troféu Tradições UBC 2026, que será entregue no próximo dia 26 de agosto, na Casa de Francisca, em São Paulo. Criada pela União Brasileira de Compositores (UBC) para reconhecer mulheres fundamentais para a história da música brasileira, a honraria chega à sexta edição com foco em uma autora cuja trajetória atravessa a poesia, a composição e a canção.

Poeta, letrista, compositora e tradutora, Alice construiu uma obra em que a palavra é a matéria prima. Ao longo de mais de cinco décadas, escreveu com artistas de diferentes gerações, entre eles Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro, Chico César, Alzira Espíndola, José Miguel Wisnik e Luiz Tatit. Suas criações também foram gravadas por nomes como Gal Costa, Cássia Eller, Ney Matogrosso, Zélia Duncan e Adriana Calcanhotto.

A cerimônia contará com um pocket show concebido especialmente para a homenagem, sob direção musical de Gustavo Ruiz Chagas. O repertório reunirá músicas ligadas à trajetória de Alice, com participações de convidados ainda não anunciados. O evento também terá transmissão ao vivo pelo canal da UBC no YouTube, a partir das 19h.

Alice Ruiz chama atenção para invisibilidade de letristas

Alice Ruiz será homenageada pela UBC
Alice Ruiz (Crédito: Cristhian Franz Tragni)

Ao comentar o prêmio, Alice associou o reconhecimento a uma discussão que acompanha a sua própria atuação no mercado: o espaço dado aos letristas e, em especial, às mulheres que exercem essa função. Para a autora, as mudanças na forma de consumo de música tornaram menos visível quem escreve as letras das canções.

“Eu vou tentar espalhar o máximo possível a notícia desse reconhecimento que a UBC me oferece através desse troféu. Porque da forma que a música está sendo divulgada, principalmente depois do advento do streaming, letrista virou fantasma (…) E se for mulher a invisibilidade é ainda maior. Por isso eu, como mulher e letrista, vibro e faço festa por receber essa homenagem”, afirma Alice Ruiz.

Ela toca em um ponto recorrente no mercado digital. Nas plataformas, o público costuma ter acesso imediato ao nome do intérprete e ao título da faixa, mas os créditos de composição nem sempre aparecem com a mesma visibilidade na experiência principal de escuta. Para uma autora cuja carreira se construiu em grande parte a partir das palavras, o Troféu Tradições também funciona como uma forma de colocar a autoria no primeiro plano.

Da poesia ao repertório da música brasileira

Rosa Passos se apresenta com sua banda na Casa UBC
Rosa Passos se apresenta com sua banda na Casa UBC (Crédito: @raphaurjais)

Entre as músicas mais conhecidas de Alice estão “Milágrimas”, “Navalha na Liga” e “Sei dos Caminhos”, escritas com Itamar Assumpção. A parceria entre os dois ultrapassou 20 canções ao longo de duas décadas. Também fazem parte de sua obra “Penso e Passo”, com Alzira Espíndola; “O Amor que Merece”, com Zeca Baleiro; e “Discreto”, com Chico César.

A relação com a música se conecta diretamente à produção literária. Alice é reconhecida por sua atuação na difusão do haicai no Brasil, forma poética curta de origem japonesa baseada na síntese e na observação. Essa economia de palavras também aparece em suas letras, nas quais ritmo, imagem e escolha vocabular ganham peso na construção da canção.

“Ao homenagear a poeta Alice Ruiz em seus 80 anos, o Troféu Tradições amplia seu próprio horizonte, celebrando uma autora cuja matéria-prima é a palavra. Uma das mais importantes poetas brasileiras contemporâneas, Alice é criadora de uma obra que expande as fronteiras da literatura e desemboca na música. Seus versos estão nas vozes de Itamar Assumpção, Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Alzira Espíndola, Cássia Eller, Adriana Calcanhoto, Chico César e tantos outros. Celebrar Alice Ruiz é reafirmar a força da autoria e reconhecer uma criação que continua ativa, dialogando com os nossos tempos com muito tônus”, destaca Tulipa Ruiz, diretora da UBC, cantora e compositora.

Antes de Alice, o Troféu Tradições homenageou Anastácia, Dona Onete, Lia de Itamaracá, Alaíde Costa e Rosa Passos. Ao manter uma lista formada exclusivamente por mulheres, a premiação consolida uma linha de reconhecimento voltada a trajetórias que ajudaram a construir diferentes capítulos da música brasileira, agora com atenção especial à presença da palavra e da autoria nesse percurso.

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