Empresários e artistas de funk estão entre os alvos de operação da PF contra lavagem de pelo menos R$ 1,6 bi; entenda o caso

Os MCs Ryan SP e Poze do Rodo, além dos empresários Rodrigo Oliveira (GR6) e “Rato” (Love Funk), estão entre os alvos.
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Nathália Pandeló
MC Ryan SP, MC Poze do Rodo, Rodrigo Oliveira e Rato são alvos de operação da PF
MC Ryan SP, MC Poze do Rodo, Rodrigo Oliveira e Rato são alvos de operação da PF (Crédito: Divulgação)

Uma operação de grande escala da Polícia Federal, deflagrada em 15 de abril, colocou artistas, empresários e influenciadores digitais entre os investigados por um esquema de lavagem de dinheiro que pode ter movimentado ao menos R$ 1,6 bilhão no Brasil e no exterior.

A ação, batizada de Operação Narco Fluxo, cumpriu dezenas de mandados de prisão e busca em diversos estados e tem como foco uma organização suspeita de usar estruturas empresariais e digitais para ocultar a origem de recursos ilícitos.

Parte dos nomes citados na investigação tem atuação no universo do funk e do entretenimento digital, incluindo artistas como MC Ryan SP e MC Poze do Rodo, além de empresários de produtoras – Rodrigo Oliveira (GR6) e “Rato” (Love Funk) – e criadores de conteúdo com grande alcance nas redes, como Raphael Sousa Oliveira, criador da Choquei

As defesas negam irregularidades e afirmam que todas as movimentações financeiras são lícitas, destacando que os processos ainda estão sob sigilo e que terão oportunidade de se manifestar ao longo das investigações. Aqui no Mundo da Música, você descobre o que já se sabe sobre o caso.

Como começou a operação e o que diz a Polícia Federal

A Operação Narco Fluxo surge como desdobramento de investigações anteriores, como as operações Narco Bet e Narco Vela, iniciadas em 2025. Segundo apuração do g1, o ponto de virada ocorreu após a análise de dados armazenados no iCloud de um dos investigados, o contador Rodrigo de Paula Morgado, que permitiu mapear a estrutura do grupo.

De acordo com a Polícia Federal, a organização atuava de forma estruturada, com divisão de funções e uso de diferentes mecanismos para ocultar a origem do dinheiro. Entre as práticas citadas estão transações com criptomoedas, transporte de dinheiro em espécie, uso de empresas de fachada e intermediação por terceiros.

“As investigações apontam que os envolvidos utilizavam um sistema estruturado para ocultação e dissimulação de valores, incluindo operações financeiras de alto valor, transporte de numerário em espécie e transações com criptoativos”, informou a Polícia Federal em nota.

Ainda segundo a corporação, cerca de 200 agentes participaram da operação, que cumpriu dezenas de mandados judiciais em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Goiás e no Distrito Federal.

Quem são os principais alvos e o que se sabe até agora

Entre os nomes mais conhecidos estão MC Ryan SP e MC Poze do Rodo, que foram presos durante a operação. Segundo as investigações, ambos estariam ligados a estruturas financeiras utilizadas para circulação de recursos provenientes de atividades como apostas ilegais e rifas digitais.

No caso de Ryan SP, a Polícia Federal aponta que ele seria um dos principais beneficiários econômicos da organização e teria utilizado empresas do setor musical e de entretenimento para misturar receitas legais com recursos ilícitos. Já Poze do Rodo aparece vinculado a empresas que fariam parte da engrenagem financeira do esquema, com participação na captação e redistribuição de valores.

Além dos artistas, influenciadores também foram citados. Entre eles está Raphael Sousa Oliveira, criador da página Choquei, apontado como operador de mídia da organização, responsável por divulgar conteúdos e promover as plataformas investigadas.

Outro nome é o de Chrys Dias, influenciador com milhões de seguidores, que também teria atuado na divulgação de rifas digitais e conteúdos ligados ao esquema .

Empresários do funk e estrutura do mercado entram no radar

A operação também atingiu diretamente empresários do setor. Entre eles está Rodrigo Inácio de Lima Oliveira, sócio da GR6, e Henrique Alexandre Barros Viana, conhecido como “Rato”, ligado à Love Funk. Ambos tiveram mandado de prisão decretados, mas ainda não há confirmação de que já foram cumpridos.

Segundo a investigação, as empresas do setor musical teriam sido utilizadas para movimentar recursos sem lastro, conectando atividades ilegais à estrutura do entretenimento digital. A apuração aponta que o esquema teria integrado elementos do tráfico de drogas, jogos de azar e rifas online à imagem pública de artistas e influenciadores.

O impacto dessa conexão fica mais evidente quando se observa o alcance dessas empresas. Um levantamento do g1 indica que oito das dez músicas mais ouvidas no país atualmente estão ligadas a produtoras citadas na operação. Além disso, os canais dessas empresas acumulam bilhões de visualizações em plataformas como YouTube, o que mostra o peso econômico e cultural do funk dentro da indústria musical brasileira.

Como funcionaria o esquema, segundo as investigações

O caminho do dinheiro na operação Narco Fluxo, funk,
O caminho do dinheiro na operação Narco Fluxo, segundo da PF

De acordo com a Polícia Federal, o funcionamento do esquema envolvia três etapas principais: captação, ocultação e reinserção do dinheiro na economia formal.

A origem dos recursos estaria em apostas ilegais, rifas digitais clandestinas e outras atividades ilícitas. Esses valores eram pulverizados em diversas contas para dificultar o rastreamento e, posteriormente, passavam por operadores financeiros e empresas intermediárias.

Entre as técnicas utilizadas estariam o fracionamento de transferências, conhecido como “smurfing”, o uso de criptomoedas e a movimentação entre contas de terceiros. Também foram identificados indícios do uso de “laranjas” para ocultar os verdadeiros beneficiários dos recursos.

Na etapa final, o dinheiro era convertido em bens de alto valor, como imóveis, veículos de luxo, joias e outros ativos, que passavam a integrar o patrimônio dos investigados.

Segundo a PF, a utilização de empresas ligadas ao entretenimento ajudava a dar aparência legal a essas movimentações, já que o volume financeiro do setor pode mascarar transações atípicas.

O papel da imagem pública e dos influenciadores

Um dos pontos centrais da investigação é o uso da visibilidade dos artistas de funk e influenciadores como ferramenta dentro do esquema.

Segundo a Polícia Federal, a popularidade dos envolvidos funcionaria como uma espécie de “escudo de conformidade”, que ajudava a naturalizar grandes movimentações financeiras e reduzir suspeitas de irregularidades. Os delegados também destacaram que perfis com milhões de seguidores têm maior capacidade de movimentar recursos sem levantar alertas imediatos em sistemas de controle financeiro.

“Essas pessoas públicas com muitos seguidores conseguem movimentar grandes quantias sem chamar atenção dos sistemas de compliance das autoridades e dos bancos”, afirmou o delegado Marcelo Maceira, em declaração reproduzida pelo g1.

Além disso, influenciadores teriam sido contratados para promover plataformas de apostas e rifas, aumentando a captação de recursos e fortalecendo a estrutura investigada.

O que dizem as defesas

As defesas dos envolvidos negam qualquer irregularidade e afirmam que as atividades são legais.

No caso do empresário Rodrigo Inácio de Lima Oliveira, a equipe jurídica afirmou que todas as transações citadas pela investigação são “relações comerciais lícitas e regulares”, devidamente formalizadas e respaldadas por contratos e documentação fiscal.

“A GR6 e seu sócio reiteram que não houve a prática de qualquer ato ilícito e seguem à disposição das autoridades competentes, colaborando integralmente com a investigação.”

Já a defesa de MC Ryan SP declarou que ainda não teve acesso ao processo, que tramita sob sigilo, e que, por isso, não pode se manifestar de forma específica sobre as acusações.

“A defesa técnica de MC Ryan informa, de forma respeitosa, que até o presente momento não teve acesso ao procedimento que tramita sob sigilo, razão pela qual está impossibilitada de apresentar manifestação específica sobre os fatos.”

A defesa também afirmou que todas as transações financeiras do artista possuem origem comprovada e seguem as exigências legais.

No caso de MC Poze do Rodo, os advogados afirmaram desconhecer o teor do mandado de prisão e que irão se manifestar após ter acesso aos autos.

O que está em jogo para o mercado do funk

A operação coloca o funk no centro de um debate mais amplo sobre a relação entre indústria musical, economia digital e fiscalização financeira. O gênero, que hoje domina rankings de streaming e movimenta bilhões em receitas diretas e indiretas, passa a ser analisado também sob a ótica de governança, compliance e transparência financeira.

Ao mesmo tempo, é importante destacar que a investigação não envolve todo o setor, mas sim pessoas e empresas específicas. A própria apuração indica que diversos artistas ligados às produtoras citadas não são alvo das investigações. 

Ainda assim, o caso pode gerar efeitos práticos no mercado, especialmente em áreas como contratos, gestão de carreira, publicidade digital e parcerias comerciais. A depender dos desdobramentos, a operação pode influenciar a forma como empresas e artistas estruturam suas atividades financeiras, além de aumentar a pressão por maior rastreabilidade de receitas no ambiente digital.

Próximos passos da investigação

As investigações continuam e ainda devem avançar a partir da análise de materiais apreendidos, como documentos, celulares e equipamentos eletrônicos. Também foram determinadas medidas como bloqueio de bens, restrições societárias e sequestro de ativos, com o objetivo de preservar recursos para eventual ressarcimento e interromper atividades consideradas ilícitas.

Segundo a Polícia Federal, os investigados poderão responder por crimes como associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O caso segue sob sigilo em diversas etapas, e novas informações devem surgir conforme o andamento do processo e a manifestação das defesas.

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