Rio2C reúne debate sobre Tom Jobim, pagode e Jorge Drexler em dia de diálogos sobre legado, mercado e criação

Rio2C teve painéis sobre os 100 anos de Tom Jobim, a força econômica do pagode e a palavra como ponto de partida da canção
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Nathália Pandeló
Tatiana Cantinho
Tatiana Cantinho (Crédito: Igor Ventura)

O Rio2C colocou a música em três frentes diferentes nesta quinta-feira, 28 de maio: memória, mercado e processo criativo. Nos palcos musicais do evento, os debates passaram pelos 100 anos de Tom Jobim, pela força atual do samba e do pagode e pela relação entre palavra, corpo, silêncio e canção a partir da visão de Jorge Drexler.

O resultado foi um recorte amplo da música como indústria e como linguagem. Em um mesmo dia, a programação tratou da bossa nova como identidade carioca no exterior, do pagode como um dos segmentos mais fortes do país e da criação artística como um processo que começa antes da forma pronta.

Mais do que reunir nomes conhecidos, os painéis mostraram como a música brasileira segue sendo pensada em várias camadas. Há o legado que precisa ser preservado, o mercado que movimenta empregos e novas estratégias, e a criação que continua escapando de fórmulas fáceis.

Tom Jobim e a bossa nova como imagem do Brasil

Mario Adnet, Miguel Faria Jr, Joyce Moreno e Pedro Paulo Malta no Rio2C
Mario Adnet, Miguel Faria Jr, Joyce Moreno e Pedro Paulo Malta (Crédito: Nathália Pandeló)

No painel “Minha Alma Canta”: Os 100 Anos de Tom Jobim e a Bossa-Nova como uma Identidade Carioca pro Mundo, Pedro Paulo Malta, Diretor de Promoção Cultural do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, conduziu uma conversa com Joyce Moreno, Miguel Faria Jr. e Mario Cesar Gonçalves Adnet sobre a dimensão artística e simbólica de Jobim.

A fala de Joyce no Rio2C trouxe uma lembrança afetiva da convivência com Tom. Ela contou que conheceu o compositor aos 19 anos, depois de crescer ouvindo bossa nova, e destacou a abertura daquela geração para os artistas mais jovens. Em sua visão, nomes como Tom, Vinícius de Moraes e Luiz Eça recebiam os novos sem distância de estrelato, em um ambiente de troca que ajudou a formar uma ideia moderna de Brasil.

Miguel Faria Jr. apresentou ainda o olhar de seu novo documentário sobre Tom, “Este Seu Olhar”, previsto para chegar antes do centenário. Depois de filmes sobre Vinícius e Chico Buarque, o diretor vê a obra como o fechamento de uma trilogia sobre um país marcado pela delicadeza, pela transformação de costumes e por uma forma particular de pensar a beleza.

Já Mario Adnet deslocou Tom para além da bossa nova. Ao comentar o contexto de 1958 e 1959, lembrou o clima de progresso do governo Juscelino Kubitschek, mas também apontou como a instabilidade política e a ditadura empurraram parte dessa geração para fora do Brasil. A bossa nova, nesse sentido, apareceu como trilha de um projeto de país que logo seria interrompido.

Pagode combina repertório, digital e evento ao vivo em debate no Rio2C

Alana Mendes, Suel, Leandro Brito e Tatiana Cantinho
Alana Mendes, Suel, Leandro Brito e Tatiana Cantinho (Crédito: Igor Ventura)

O painel “Os Expressivos Números do Samba e do Pagode” trouxe outra chave de leitura: a do gênero como mercado. Com Alana Mendes, Diretora da Gold Produções, Tatiana Cantinho, SVP & Label Head da Som Livre, Suel e mediação de Leandro Brito, a conversa partiu do crescimento do samba e do pagode, apontado como terceiro gênero mais ouvido pela população e preferência direta de 44% dos brasileiros.

A discussão passou pela força das redes sociais, especialmente quando uma música não planejada como foco passa a ganhar tração no TikTok. O caso de “Ainda Bem”, ligado à segunda edição de “Dos Braços do Corpo”, abriu espaço para falar de dança, viralização e espontaneidade. Suel lembrou que o pagode tem uma relação orgânica com gestos e coreografias, sem necessariamente copiar a lógica do funk.

O caso do Menos é Mais foi tratado como exemplo de virada no digital. Leandro Brito relembrou ter gravado o primeiro audiovisual do grupo de forma improvisada, com estrutura simples e câmera alugada, antes da entrada da Som Livre. Tatiana Cantinho explicou que a gravadora chegou no fim de 2019 para ajudar a transformar aquela força informal em projeto estruturado.

Mesmo com planejamento, metas e estratégia, Tatiana puxou o debate de volta ao repertório. Para ela, produções grandes não se sustentam sem boas músicas. O sucesso de “Coração Partido”, versão de uma obra de Alejandro Sanz, foi citado como exemplo de curadoria, memória afetiva e trabalho diário entre artista, escritório e gravadora.

Alana Mendes trouxe a camada dos eventos. A Gold, com 22 anos de atuação, hoje concentra cerca de 90% de seus eventos no pagode. O Capital do Samba, na Marina da Glória, reúne cerca de 10 mil pessoas por dia e movimenta até 2 mil trabalhadores entre pré, dia e pós-evento. No Prainha, de Ferrugem, o crescimento de público chegou a 1.200% desde o primeiro ano.

Jorge Drexler fala da canção antes da palavra pronta

Chico Regueira e Jorge Drexler
Chico Regueira e Jorge Drexler (Crédito: Nathália Pandeló)

Depois de lotar o Circo Voador na noite anterior, com ingressos esgotados, Jorge Drexler participou do painel “Mais que Palavras: Quando a Expressão Vira Criação”, e conversou com Chico Regueira, repórter especial da TV Globo, sobre a palavra como criação. Para o artista uruguaio, falar nunca é um ato neutro. A palavra carrega emoção, corpo, contexto e já nasce como construção de mundo.

Drexler fez uma distinção importante entre música, palavra e canção. Para ele, a canção é uma interface: não é só letra, nem só melodia, mas a relação entre as duas. Ao falar sobre bebês, ritmo e tonalidade, defendeu que o canto talvez seja uma das formas mais antigas de comunicação humana.

A conversa também passou pelo silêncio, descrito por Drexler como matéria-prima da música. Ele relembrou a turnê “Silente”, em que fazia uma espécie de passagem de silêncio antes dos shows, observando ruídos de luzes, ventiladores e salas. A ideia ajuda a explicar sua visão de criação: antes da canção, há escuta.

No fim, o artista conectou essa reflexão ao álbum “Taracá”, palavra criada a partir do som do tambor do candombe, ritmo afro-uruguaio. Entre onomatopeia, presença e raiz, Drexler mostrou que a canção ainda pode nascer de algo muito simples: uma sílaba, um corpo, uma respiração e um ritmo.

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