A Merlin, organização global de licenciamento de música independente, fechou um novo acordo com o Spotify para incluir artistas e repertórios independentes na futura ferramenta da plataforma que permitirá aos fãs criar covers e remixes com inteligência artificial. A participação será opcional, e os titulares dos direitos poderão decidir se querem disponibilizar suas músicas para o recurso.
A parceria abre o projeto para uma rede que representa mais de 30 mil selos e cerca de 15% do mercado global de música gravada. O Spotify já havia anunciado o Universal Music Group (UMG) como parceiro da iniciativa, que será oferecida como um recurso adicional pago e deverá gerar uma nova fonte de receita para os artistas participantes.
O movimento também adiciona uma nova camada à relação entre Spotify e Merlin. Em setembro de 2025, as empresas renovaram uma parceria global de licenciamento de vários anos, após 17 anos de colaboração. Agora, o novo acordo trata especificamente de um tipo de uso que envolve inteligência artificial.
Artistas poderão escolher se entram no recurso

O princípio central do projeto é a adesão voluntária. Artistas vinculados a selos cobertos pelo acordo da Merlin com o Spotify poderão decidir se suas obras estarão disponíveis para covers e remixes feitos pelos usuários. Segundo o anúncio oficial do Spotify, as criações deverão manter o crédito dos artistas e direcionar os ouvintes para as gravações originais.
Charlie Hellman, vice-presidente sênior e chefe global de Música do Spotify, afirmou:
“Este acordo com a Merlin garante que os artistas participantes sejam creditados e remunerados, e que cada criação leve os ouvintes de volta à obra original. Estamos orgulhosos de estender este modelo à comunidade independente e esperamos receber mais parceiros enquanto continuamos a construir.”
O modelo tenta separar a ferramenta de um dos pontos mais controversos do avanço da inteligência artificial na música: o uso de obras protegidas sem autorização. No caso do Spotify, a proposta apresentada até agora parte de repertórios licenciados e da decisão dos titulares de participar. A plataforma também vem incorporando outras ferramentas ligadas à IA, inclusive recursos de transparência sobre seu uso nas gravações.
Política da Merlin exige licença específica para IA
A estrutura segue a política pública da Merlin para inteligência artificial. A organização afirma que gravações, obras protegidas, metadados, nomes, imagens e outros materiais controlados por seus membros não podem ser usados para treinamento, desenvolvimento ou implementação de modelos de IA sem uma licença específica e expressa concedida antecipadamente.
A política faz uma distinção importante para o mercado de streaming. Ter acesso legal a uma música para uma finalidade, como disponibilizá-la em uma plataforma, não concede automaticamente o direito de utilizá-la em sistemas de inteligência artificial. Segundo a Merlin, esse tipo de utilização depende de uma autorização separada.
Esse ponto ajuda a explicar por que o novo recurso exigiu outro acordo mesmo após a renovação da parceria global entre Merlin e Spotify em 2025. Para os independentes, o modelo cria uma negociação específica para uma utilização nova do catálogo, em vez de tratar a licença tradicional de streaming como autorização genérica para usos futuros.
A discussão ganha peso em um cenário no qual o volume de músicas criadas com IA cresce rapidamente nas plataformas. Um estudo da University of Chicago mostrou que essas faixas já ocupam uma parcela relevante dos novos lançamentos no Spotify, embora a maior parte ainda registre pouca escuta.
Merlin vem fechando acordos específicos para inteligência artificial

O contrato com o Spotify também faz parte de uma estratégia mais ampla da Merlin para negociar diretamente com empresas que desenvolvem produtos baseados em IA. A organização já firmou acordos relacionados à tecnologia com companhias como Udio e ElevenLabs, seguindo a lógica de que novos usos do repertório precisam de licenciamento próprio.
Charlie Lexton destacou a possibilidade de escolha dos artistas:
“Dar aos artistas dos nossos membros a escolha de disponibilizar sua música como parte desta tecnologia empolgante, ao mesmo tempo garantindo a oportunidade de participar de uma fonte adicional de receita, é exatamente para isso que a Merlin existe. O respeito do Spotify pelos direitos dos nossos membros e de seus artistas é exemplar, tornando nossa decisão de trabalhar neste projeto uma decisão fácil.”
O Spotify ainda não informou quando a ferramenta será disponibilizada amplamente. A empresa prevê primeiro uma versão de pesquisa para um grupo limitado de usuários. A chegada da Merlin, porém, aumenta a quantidade potencial de repertório independente disponível e coloca o licenciamento específico no meio da disputa sobre como as músicas existentes poderão ser utilizadas em novas experiências de criação com IA.
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