“Eu sou o algoritmo”

Rod Rizz troca a lógica do algoritmo pelo contato direto com fãs e encontra novas formas de medir o sucesso de um lançamento independente.
Foto de Marina Mattoso
Marina Mattoso
Rod Rizz e o CD Ninjas Nunca Dormem, algoritmo
Rod Rizz e o CD "Ninjas Nunca Dormem"

Faz o pitching, anuncia no Instagram, faz campanha de pre-save, lança o single, torce pela playlist editorial, confere os números na sexta e de novo no domingo. Se você é artista independente, conhece esse ciclo. E conhece a sensação de chegar ao fim dele sem saber se deu certo. 

Venho há um tempo com a ideia de que muito da saúde mental do artista seria preservada se ele conseguisse tangibilizar o sucesso. Numa indústria que mede tudo em streams, seguidores e entrada em playlist, essa definição costuma ser terceirizada para plataformas.

Tive o prazer de conversar com o Rod Rizz sobre o lançamento de “Ninjas Nunca Dormem“.

“É louco refletir o quanto isso me deixou feliz”.

Ele estava falando da sua campanha de lançamento fora das plataformas e nela o sucesso não tinha cara de número com 6 dígitos. Aliás, não tinha cara de número.

“[Esta forma de lançamento] me deu uma satisfação muito maior do que meus últimos lançamentos. Tenho a lista de todo mundo que comprou meu disco. É louco refletir o quanto isso me deixou feliz. Se comparar com 1 milhão de visualizações, os 200* CDs batem. O sucesso fica mais palpável (…).”

*No momento em que publicamos esta coluna, o número de CD’s vendidos já tinha passado de 300

Um pouco de contexto. 

Num momento em que sua principal fonte de renda, o grupo bem-sucedido 3030, estava em pausa e seus membros vivendo momentos diferentes, Rod se percebeu incomodado (assim como muitos dos artistas independentes) com o mercado e o modelo de remuneração das plataformas. 

E do incômodo surgiu uma nova rota: o álbum “Ninjas nunca dormem” foi gravado em casa, queimado num CD virgem e embalado numa capinha transparente comprada em grande escala. Em seguida, foi colocado à venda a partir de um post nas redes sociais e vendido pela DM do perfil @ninjasnuncadormem. 

Pra deixar tudo mais legal, o próprio Rod pichava o número de cada disco antes de enviá-lo pro comprador, fazendo com que cada fã tivesse seu próprio número (eu sou número 109), e gravava em vídeo a pichação pra que cada fã tivesse um conteúdo pra compartilhar. 

“Mas Mari, quem tem CD player hoje em dia?” vocês me perguntam. E eu respondo: “eu que não tenho”. Mas pude escutar o disco todo no meu iphone escaneando um chip NFC que vinha grudado no CD.

E o preço? Ficou por conta do fã. teve quem pagou menos que R$10, teve quem pagou R$100. Numa próxima experiência o Rod quer fazer um pouco diferente, tendo um valor mínimo que pague os custos e tendo condições diferentes pra quem der valores mais altos, como conteúdos exclusivos e/ou experiências.

Conversando com ele, percebi o tanto de trabalho que deu ter ficado ali no front de toda esta campanha, mas o saldo, nas palavras dele, foi muito positivo:

“Dá muito trabalho, (…) mas foi muito legal ter esse contato. São pessoas que tiveram uma experiência, é diferente de ouvir uma música “empurrada” por um algoritmo ou publicidade. Inclusive, foi pensando em ampliar essa experiência que fiz a pichação. Vira um artigo que a pessoa vai ter na mesa de trabalho, na estante, enfim…” 

A sequência de CDs vendidos, algoritmo
A sequência de CDs vendidos, driblando o algoritmo das plataformas

O lançamento: 

Não teve.

(pausa para gritos de desespero da marketeira aqui!!!hahaha). 

Ele vendeu o primeiro no estúdio de um amigo, depois para amigos e fãs próximos, e só então postou no Instagram. 

“Os vídeos foram fundamentais. Soltei dois. O primeiro explodiu, recebi mais de 100 pedidos num dia. Achei que a galera na internet poderia jogar areia, mas foi surpreendente e revigorante.”

Até o 180º disco, Rod atendeu cada comprador pessoalmente. Hoje são cerca de 315 CDs vendidos, uma lista com o contato de cada pessoa que fez o Pix e muitos artistas se inspirando no modelo.

“Quero fazer uma apostila ou tutorial para abrir 100% como fiz. Se eu fizer sozinho é legal, mas se uma galera começar a fazer, a gente muda como as coisas funcionam. (…) É assim que ganhamos espaço e lutamos pelos direitos. Meu plano agora é lançar todos os projetos dessa forma, testando variações”

Quando perguntei como ele alcançou gente sem ajuda de algoritmo, a resposta veio rápida:

“Eu sou o algoritmo, né? Tenho que fazer esse trabalho que gosto muito. Conexão.”

Mas o Rod não desconsiderou completamente as plataformas de streaming. Três das faixas já estão lá, outras vão chegar sem pressa, e uma ou duas ficarão exclusivas de quem tem o disco.

“Se as plataformas não estão me priorizando, eu não vou priorizá-las. Não é guerra, é pensar em outras possibilidades”.

Como uma especialista em marketing digital, que dá aulas e mentorias muitas vezes para artistas frustrados com seus lançamentos, foi um sopro ver no Rod um semblante de quem estava em paz com sua campanha. 

**Um disclaimer importante: O Rod tem 18 anos de carreira e uma base de fãs. Isso contou pra que ele tivesse um vislumbre de poder lucrar com esta ação. Mas dá pra você tirar algum aprendizado daqui.

**Disclaimer 2: o objetivo desta coluna não é, de forma alguma, desincentivar artistas a lançarem seu trabalho nas plataformas. “Todo artista tem de ir aonde o povo está.”, já dizia Milton Nascimento e Fernando Brant. A proposta aqui é trazer à tona outras formas de movimentar seu lançamento e de fortalecer o movimento de comunidade em torno do seu trabalho.

Takeaway (do marketês: aprendizados pra tu, artista)

  1. Saiba reconhecer o sucesso (a Adriana Calcanhotto uma vez citou Tônia Carrero”: “A felicidade vem e vai várias vezes todos os dias” e eu tenho essa frase num post-it atrás do meu laptop. Saber reconhecer a felicidade / sucesso é fundamental. Nem sempre o sucesso se mede em números. 
  2. Dito isso: Nos Estados Unidos, as vendas de CD cresceram 16% no primeiro semestre de 2026. Metade dos compradores da geração Z e millennials nem tem aparelho para tocar CD, e a Luminate lê a compra de físico como posse estética e apoio financeiro direto ao artista, tanto quanto escuta. Ou seja: considere oferecer pro seu público algum produto colecionável pra que ele possa demonstrar este apoio diretamente a você. 
  3. Por fim, se aproprie da sua audiência de superfãs. Ter endereços de email e telefones de contato é a melhor opção. A segunda melhor é ter um canal de comunicação que não dependa de algoritmo para a entrega do conteúdo.  

Leia mais: