IMPALA publica 5 diretrizes para o crescimento sustentável do mercado digital da música

O novo plano da IMPALA cobra mudanças em royalties, IA, fraude, diversidade e sustentabilidade no mercado digital da música.
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Nathália Pandeló
Impala lista 5 prioridades para o mercado do streaming
Impala lista 5 prioridades para o mercado do streaming (Crédito: Divulgação)

A IMPALA (Independent Music Companies Association), associação europeia do setor musical independente, publicou um novo plano para transformar o mercado digital da música, em um momento em que o streaming se aproxima da marca de 1 bilhão de assinantes no mundo. A organização europeia, que representa empresas e associações independentes, trata o número como uma conquista, mas afirma que o setor ainda precisa crescer de forma mais justa, diversa e transparente.

O documento, chamado “Digital Music Plan 2026”, parte de cinco prioridades: aumentar receitas e dividir valores de forma mais equilibrada, acelerar o apoio a músicas novas e diversas, criar um sistema setorial de identificação de origem, combater fraudes e a diluição causada por IA, além de reduzir o impacto climático do mercado digital.

Embora tenha sido criado a partir de uma análise europeia, o plano da IMPALA toca em temas que atravessam a indústria global. A WIN, rede internacional de independentes, já apoiou versões anteriores da proposta, usadas em discussões estratégicas na América Latina, na Ásia-Pacífico e no Oeste da Ásia e Norte da África.

Receita, plano gratuito e limites entram na mira

YouTube Music, streaming
Crédito: Sunket Mishra

Para a IMPALA, o crescimento do streaming não resolve sozinho os desequilíbrios do mercado. O plano cita diferentes value gaps, expressão usada para descrever falhas estruturais na remuneração. Entre eles estão preços que não acompanharam a inflação, royalties diluídos por conteúdos que não são música, pagamentos baixos em vídeos, redes sociais e conteúdos gerados por usuários, além de fraudes e IA.

A entidade também defende que aumentos de preço em assinaturas incluam a música na divisão do valor adicional. Isso vale especialmente para pacotes que misturam músicas com podcasts, audiolivros, áudio funcional ou outros formatos. A leitura da IMPALA é simples: se a música ajuda a vender o pacote, ela não pode ficar fora do ganho quando a assinatura sobe.

Outro ponto sensível são os thresholds de monetização, ou seja, regras que exigem um número mínimo de reproduções ou ouvintes para que uma faixa gere pagamento. A IMPALA afirma que esse modelo é injusto e deve ser removido. Caso alguma plataforma argumente que ele ajuda no combate à fraude, a entidade defende que a regra seja redesenhada, reduzida e combinada com mecanismos de verificação para artistas reais.

O plano também abre espaço para testes de novos modelos de distribuição de receita, como pagamentos ligados ao crescimento de artistas, tempo real de escuta e participação dos fãs. Além disso, cita tiers de superfãs e espaços de conexão direta entre artistas e público como caminhos para criar ofertas mais valiosas sem depender apenas do modelo tradicional de assinatura.

Descoberta musical vira tema de concorrência

Descobertas da Semana completa 10 anos no Spotify
Descobertas da Semana completa 10 anos no Spotify (Crédito: Divulgação)

A diversidade aparece como um dos eixos centrais do plano. A IMPALA afirma que as plataformas precisam apoiar músicas novas, artistas emergentes e repertórios diversos de forma mensurável. Isso inclui diferenças de idioma, gênero musical, território, cultura, equidade e inclusão.

O documento também cobra mais presença editorial local nos serviços digitais. Para a entidade, a curadoria humana continua importante, especialmente em mercados menores ou sub-representados. A proposta é que as plataformas com grande participação tenham equipes com conhecimento de idioma e mercado em todos os países onde atuam.

A crítica não é apenas estética. Para selos independentes, aparecer no digital depende de playlists, algoritmos, ferramentas promocionais e busca. Se esses mecanismos favorecem sempre os mesmos catálogos, artistas e mercados, o streaming cresce sem necessariamente abrir espaço para novas cenas.

O plano também pede relatórios anuais com indicadores concretos, como presença em playlists editoriais, recomendações algorítmicas, uso de ferramentas promocionais e recortes por país, idioma, gênero e outros fatores de diversidade. É uma forma de tirar o debate do campo das intenções e levá-lo para dados verificáveis.

IA, fraude e origem dos conteúdos ganham peso

Operação contra fraude de streaming Brasil IFPI

Um dos trechos mais fortes do plano trata de provenance labelling, ou seja, a identificação de origem. Em termos simples, a IMPALA quer um padrão comum para informar que tipo de conteúdo está circulando: artista contratado por selo, artista independente, música de biblioteca, faixa gerada por IA e, nesse caso, qual ferramenta foi usada.

A organização defende que esse sistema vá além de uma etiqueta. A ideia é criar uma infraestrutura de transparência, descoberta e responsabilidade. Isso ajudaria plataformas, artistas, selos e ouvintes a entenderem de onde vem cada conteúdo, como ele foi criado e como está sendo monetizado.

Na área de IA, a proposta é mais dura. A IMPALA defende que conteúdos gerados por ferramentas não licenciadas sejam bloqueados de uploads, remuneração e sistemas de descoberta. Já conteúdos de IA generativa criados com ferramentas licenciadas deveriam ser controlados, identificados e filtráveis, sem entrar nos mesmos pools de royalties nem nos sistemas de recomendação da música humana.

A fraude também aparece como problema de competição. O plano cita streams falsos, artistas falsos, fãs falsos, faixas aceleradas ou desaceleradas e manipulação de público. Para os independentes, o custo de reagir a esses ataques é alto, o que deixa as empresas menores mais vulneráveis.

Sustentabilidade e dados também entram no pacote

Artista independente faz distribuição digital para plataformas de streaming

A IMPALA ainda inclui o impacto climático do digital no debate. O plano fala em reduzir duplicação de catálogos, excesso de formatos, proliferação de uploads e consumo de energia e água ligados à infraestrutura digital. Também sugere métricas como emissão por faixa armazenada, por reprodução e impacto de fraudes e conteúdos gerados por IA.

Para selos e distribuidoras, o anexo do plano lista ações já esperadas: criar padrões de identificação de origem, verificar clientes e conteúdos antes da entrega, reservar publicamente direitos para usos em IA, pagar royalties digitais mais justos, dividir adiantamentos e garantias com artistas, melhorar relatórios e apoiar músicos de sessão.

Helen Smith, presidente executiva da IMPALA, afirmou que o objetivo é criar uma economia musical com mais condições de sustento para artistas e selos.

“Se tivermos sucesso com nossa ambição compartilhada, as conexões com os fãs serão mais fortes e mais artistas e selos em diferentes níveis do ecossistema poderão viver de sua arte.”

A entidade pretende avaliar o progresso em 12 meses. Até lá, o plano funciona como uma pressão pública sobre plataformas, selos, distribuidoras e demais agentes do digital. Mais do que uma lista de pedidos, a proposta tenta reposicionar os independentes no centro da próxima etapa do streaming.

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