A IMPALA (Independent Music Companies Association), associação europeia do setor musical independente, publicou um novo plano para transformar o mercado digital da música, em um momento em que o streaming se aproxima da marca de 1 bilhão de assinantes no mundo. A organização europeia, que representa empresas e associações independentes, trata o número como uma conquista, mas afirma que o setor ainda precisa crescer de forma mais justa, diversa e transparente.
O documento, chamado “Digital Music Plan 2026”, parte de cinco prioridades: aumentar receitas e dividir valores de forma mais equilibrada, acelerar o apoio a músicas novas e diversas, criar um sistema setorial de identificação de origem, combater fraudes e a diluição causada por IA, além de reduzir o impacto climático do mercado digital.
Embora tenha sido criado a partir de uma análise europeia, o plano da IMPALA toca em temas que atravessam a indústria global. A WIN, rede internacional de independentes, já apoiou versões anteriores da proposta, usadas em discussões estratégicas na América Latina, na Ásia-Pacífico e no Oeste da Ásia e Norte da África.
Receita, plano gratuito e limites entram na mira

Para a IMPALA, o crescimento do streaming não resolve sozinho os desequilíbrios do mercado. O plano cita diferentes value gaps, expressão usada para descrever falhas estruturais na remuneração. Entre eles estão preços que não acompanharam a inflação, royalties diluídos por conteúdos que não são música, pagamentos baixos em vídeos, redes sociais e conteúdos gerados por usuários, além de fraudes e IA.
A entidade também defende que aumentos de preço em assinaturas incluam a música na divisão do valor adicional. Isso vale especialmente para pacotes que misturam músicas com podcasts, audiolivros, áudio funcional ou outros formatos. A leitura da IMPALA é simples: se a música ajuda a vender o pacote, ela não pode ficar fora do ganho quando a assinatura sobe.
Outro ponto sensível são os thresholds de monetização, ou seja, regras que exigem um número mínimo de reproduções ou ouvintes para que uma faixa gere pagamento. A IMPALA afirma que esse modelo é injusto e deve ser removido. Caso alguma plataforma argumente que ele ajuda no combate à fraude, a entidade defende que a regra seja redesenhada, reduzida e combinada com mecanismos de verificação para artistas reais.
O plano também abre espaço para testes de novos modelos de distribuição de receita, como pagamentos ligados ao crescimento de artistas, tempo real de escuta e participação dos fãs. Além disso, cita tiers de superfãs e espaços de conexão direta entre artistas e público como caminhos para criar ofertas mais valiosas sem depender apenas do modelo tradicional de assinatura.
Descoberta musical vira tema de concorrência

A diversidade aparece como um dos eixos centrais do plano. A IMPALA afirma que as plataformas precisam apoiar músicas novas, artistas emergentes e repertórios diversos de forma mensurável. Isso inclui diferenças de idioma, gênero musical, território, cultura, equidade e inclusão.
O documento também cobra mais presença editorial local nos serviços digitais. Para a entidade, a curadoria humana continua importante, especialmente em mercados menores ou sub-representados. A proposta é que as plataformas com grande participação tenham equipes com conhecimento de idioma e mercado em todos os países onde atuam.
A crítica não é apenas estética. Para selos independentes, aparecer no digital depende de playlists, algoritmos, ferramentas promocionais e busca. Se esses mecanismos favorecem sempre os mesmos catálogos, artistas e mercados, o streaming cresce sem necessariamente abrir espaço para novas cenas.
O plano também pede relatórios anuais com indicadores concretos, como presença em playlists editoriais, recomendações algorítmicas, uso de ferramentas promocionais e recortes por país, idioma, gênero e outros fatores de diversidade. É uma forma de tirar o debate do campo das intenções e levá-lo para dados verificáveis.
IA, fraude e origem dos conteúdos ganham peso

Um dos trechos mais fortes do plano trata de provenance labelling, ou seja, a identificação de origem. Em termos simples, a IMPALA quer um padrão comum para informar que tipo de conteúdo está circulando: artista contratado por selo, artista independente, música de biblioteca, faixa gerada por IA e, nesse caso, qual ferramenta foi usada.
A organização defende que esse sistema vá além de uma etiqueta. A ideia é criar uma infraestrutura de transparência, descoberta e responsabilidade. Isso ajudaria plataformas, artistas, selos e ouvintes a entenderem de onde vem cada conteúdo, como ele foi criado e como está sendo monetizado.
Na área de IA, a proposta é mais dura. A IMPALA defende que conteúdos gerados por ferramentas não licenciadas sejam bloqueados de uploads, remuneração e sistemas de descoberta. Já conteúdos de IA generativa criados com ferramentas licenciadas deveriam ser controlados, identificados e filtráveis, sem entrar nos mesmos pools de royalties nem nos sistemas de recomendação da música humana.
A fraude também aparece como problema de competição. O plano cita streams falsos, artistas falsos, fãs falsos, faixas aceleradas ou desaceleradas e manipulação de público. Para os independentes, o custo de reagir a esses ataques é alto, o que deixa as empresas menores mais vulneráveis.
Sustentabilidade e dados também entram no pacote

A IMPALA ainda inclui o impacto climático do digital no debate. O plano fala em reduzir duplicação de catálogos, excesso de formatos, proliferação de uploads e consumo de energia e água ligados à infraestrutura digital. Também sugere métricas como emissão por faixa armazenada, por reprodução e impacto de fraudes e conteúdos gerados por IA.
Para selos e distribuidoras, o anexo do plano lista ações já esperadas: criar padrões de identificação de origem, verificar clientes e conteúdos antes da entrega, reservar publicamente direitos para usos em IA, pagar royalties digitais mais justos, dividir adiantamentos e garantias com artistas, melhorar relatórios e apoiar músicos de sessão.
Helen Smith, presidente executiva da IMPALA, afirmou que o objetivo é criar uma economia musical com mais condições de sustento para artistas e selos.
“Se tivermos sucesso com nossa ambição compartilhada, as conexões com os fãs serão mais fortes e mais artistas e selos em diferentes níveis do ecossistema poderão viver de sua arte.”
A entidade pretende avaliar o progresso em 12 meses. Até lá, o plano funciona como uma pressão pública sobre plataformas, selos, distribuidoras e demais agentes do digital. Mais do que uma lista de pedidos, a proposta tenta reposicionar os independentes no centro da próxima etapa do streaming.
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