Nova política do Tidal corta royalties de músicas 100% feitas por IA

Tidal passará a identificar faixas feitas por inteligência artificial e bloqueará pagamentos a conteúdos totalmente gerados por IA.
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Nathália Pandeló

O Tidal anunciou que vai adotar uma das políticas mais duras do streaming contra músicas totalmente geradas por inteligência artificial. A plataforma informou que, a partir de 15 de julho, passará a identificar esse tipo de conteúdo dentro do aplicativo e impedirá que faixas consideradas 100% feitas por IA recebam royalties.

A medida não significa uma proibição geral ao uso de inteligência artificial na música. O ponto central da nova regra está na diferença entre uma obra criada com apoio de ferramentas tecnológicas e uma faixa gerada integralmente por sistemas automatizados, sem composição, interpretação ou produção humana direta. Para o Tidal, é essa fronteira que começa a definir quem deve receber dinheiro dentro da plataforma.

A decisão chega em um momento em que os serviços de streaming tentam responder ao crescimento acelerado de uploads artificiais. Segundo a Deezer, 44% de todas as novas músicas enviadas diariamente à plataforma já são totalmente geradas por IA. O dado ajuda a explicar por que o tema deixou de ser apenas uma discussão criativa e passou a afetar pagamento, descoberta de artistas e confiança do público.

O que muda na política do Tidal

Pela nova política, músicas identificadas como totalmente geradas por IA receberão um selo visível dentro do aplicativo do Tidal. A primeira fase será voltada a faixas detectadas como 100% artificiais, mas a empresa afirma que a identificação poderá ser expandida conforme suas tecnologias de detecção evoluírem.

Além da sinalização para os ouvintes, o Tidal também vai remover conteúdos de IA associados a práticas consideradas abusivas. Isso inclui músicas que imitam o nome, a voz, a imagem ou a identidade de artistas reais, além de uploads ligados a fraudes, comportamento suspeito de distribuição ou manipulação de execuções.

O ponto mais forte da política está na monetização. Faixas totalmente feitas por IA não poderão receber royalties no Tidal. Também não poderão participar de vendas diretas para fãs, recurso usado pela plataforma para aproximar artistas e público dentro do próprio ambiente de streaming.

Em comunicado assinado por Tony Gervino, vice-presidente executivo do Tidal, a empresa diz que o objetivo é proteger a conexão entre artistas reais e fãs reais. Ele também deixa claro que o Tidal não quer tratar toda tecnologia como ameaça, mas criar limites para conteúdos que entram no sistema apenas para gerar receita.

“Independentemente do que você esteja lendo em outros lugares, a tomada da indústria da música pela IA, e das suas recomendações, não é inevitável se tomarmos medidas ainda maiores agora para monitorar e controlar isso”, resumiu.

Royalties entram no centro da disputa

Tidal oferece compras de música dentro do aplicativo

A nova regra do Tidal desloca a discussão sobre IA para um ponto sensível do mercado: quem deve ser remunerado quando uma música toca. No streaming, royalties são os valores pagos a partir da execução das faixas. Quando milhares de conteúdos artificiais entram nas plataformas, eles passam a disputar atenção, espaço em recomendações e parte do dinheiro que seria dividido entre obras humanas.

Esse é o ponto que preocupa artistas, selos, editoras e distribuidoras. Mesmo quando uma faixa feita por IA não se torna um grande hit, o volume de uploads pode criar ruído no catálogo. Em escala, esse tipo de conteúdo pode ocupar playlists, confundir ouvintes e desviar pequenas parcelas de receita. Somadas, essas parcelas viram um problema de mercado.

O Tidal também joga parte da responsabilidade para as distribuidoras. A plataforma afirma que espera receber conteúdos já identificados corretamente antes da chegada ao serviço. Isso tende a pressionar empresas que fazem a ponte entre artistas e plataformas digitais, já que a transparência sobre o uso de IA deve ganhar peso na entrega das músicas.

Para artistas independentes, a mudança não impede o uso de ferramentas de IA em etapas como produção, composição assistida, mixagem ou organização de repertório. O alerta é outro: será cada vez mais importante declarar corretamente como a música foi criada e garantir que todos os elementos usados tenham autorização.

Streaming começa a criar novas regras para IA

O Tidal não está sozinho nesse movimento. A Deezer já vem usando tecnologia própria para detectar músicas geradas por IA e retirar esse tipo de conteúdo de recomendações algorítmicas. O dado de 75 mil faixas artificiais enviadas por dia à plataforma mostra a dimensão do problema.

O Apple Music também passou a trabalhar com tags de transparência a partir de informações enviadas por selos e distribuidoras. O Spotify, por sua vez, vem testando formas de identificação em créditos e mantendo ações contra imitação de artistas e fraudes de streaming com apoio de ferramentas automatizadas.

A diferença é que o Tidal vai além do aviso ao público. Ao cortar a monetização de músicas 100% geradas por IA, a plataforma mexe diretamente no incentivo econômico por trás desse tipo de upload. Em vez de apenas sinalizar a origem do conteúdo, ela reduz a chance de que catálogos artificiais sejam criados em massa para disputar receita.

A medida ainda deve gerar debate. Detectar IA com precisão não é simples, especialmente quando a música mistura elementos humanos e ferramentas automatizadas. Mesmo assim, a nova política mostra que o streaming entrou em uma fase de separação mais clara entre criatividade assistida por tecnologia e produção inteiramente artificial.

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