Um novo estudo da Allied Market Research trouxe mais dados que apontam para o crescimento do setor de eventos. Segundo a consultoria, a indústria global foi avaliada em US$ 736,8 bilhões em 2021 e deve chegar a US$ 2,5 trilhões em receita até 2035, com crescimento médio anual de 6,8% entre 2024 e 2035.
O relatório analisa diferentes formatos, como shows, festivais, eventos esportivos, feiras, conferências, eventos corporativos e seminários. Na amostra do estudo, a própria estrutura do levantamento separa o mercado por tipo de evento, fonte de receita, organizador, faixa etária, origem dos participantes, localização e região.
Para o mercado musical, o dado importa porque coloca shows e festivais dentro de uma indústria mais ampla, que disputa orçamento de marcas, turismo, alimentação, bebidas, conteúdo, mídia e tecnologia. O palco continua no centro, mas a conta que sustenta o setor vai muito além da bilheteria.
Shows e festivais entram na projeção global

O estudo da Allied Market Research inclui “music concert” e “festivals” entre os tipos de evento analisados. Esse recorte aproxima a projeção de US$ 2,5 trilhões da música ao vivo, especialmente em um momento no qual festivais se tornaram ativos comerciais complexos, com patrocínios, áreas de experiência, camarotes, venda de produtos, transmissão e conteúdo para redes sociais.
A divisão por fontes de receita também ajuda a entender essa lógica. O relatório considera venda de ingressos, patrocínio, alimentos e bebidas, publicidade, merchandising, taxas de associação, taxas de participação, mídia, licenciamento e outras receitas. Para um festival, essas frentes aparecem juntas. O ingresso abre a porta, mas o evento também movimenta bares, marcas, hotéis, transporte, ativações e produtos oficiais.
A Allied aponta que o patrocínio liderou as fontes de receita em 2023, mas a amostra pública do relatório não abre os valores por categoria. Por isso, a leitura mais segura é tratar esse dado como sinal da força das marcas dentro dos eventos, sem reduzir o crescimento do setor a uma única fonte de faturamento.
No caso da música ao vivo, esse movimento já aparece na prática do mercado. Turnês, festivais, showcases e conferências funcionam como pontos de encontro entre artistas, fãs, patrocinadores, plataformas, produtoras, selos, gravadoras e empresas de tecnologia.
O que mais cresce dentro da projeção global

A projeção da Allied Market Research também ajuda a entender onde o mercado de eventos concentra força. Por tipo, os eventos corporativos e seminários aparecem como o segmento mais lucrativo durante o período analisado. Isso inclui congressos, convenções, lançamentos, feiras, treinamentos, encontros de relacionamento e ações de marca, formatos que muitas vezes dividem orçamento, fornecedores e estruturas com o entretenimento ao vivo.
No recorte por organizador, porém, o segmento de entretenimento aparece como dominante ao longo da previsão. Esse ponto aproxima a projeção do mercado musical, já que a consultoria cita festivais, conferências de música, experiências ao vivo, presença em redes sociais, ofertas de alimentação no local e recursos imersivos como parte da lógica de crescimento.
Outro dado importante está na faixa etária. O público de 21 a 40 anos lidera a receita do mercado, impulsionado pela participação em conferências, exposições, seminários, shows e festivais. Para a música, esse recorte conversa diretamente com o público jovem-adulto que consome festivais, experiências premium, viagens para shows, ativações de marca e conteúdos gerados a partir do evento.
A leitura por fonte de receita também pede atenção. A Allied aponta o patrocínio como principal fonte em 2023, mas os gráficos indicam uma redistribuição da participação até 2035. Merchandise, taxas de participação, mídia e licenciamento, membership fees, publicidade e alimentos e bebidas aparecem com ganho de participação, enquanto ingressos e patrocínio perdem peso relativo. Isso não significa queda em valor absoluto, já que o mercado total cresce, mas mostra que a receita tende a ficar mais diversificada.
Brasil mostra crescimento em consumo e empregos

No Brasil, os dados da ABRAPE, Associação Brasileira dos Promotores de Eventos, ajudam a dimensionar o avanço local. Segundo o Radar Econômico da entidade, o consumo ligado ao setor chegou a R$ 38,1 bilhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 9,7% na comparação anual.
No primeiro bimestre, o consumo em recreação somou R$ 25,33 bilhões, o maior valor da série histórica iniciada em janeiro de 2019. O levantamento da ABRAPE usa dados do IBGE, do Ministério do Trabalho e Emprego e da Receita Federal para acompanhar consumo, emprego e atividade econômica.
O mercado de trabalho também mostra a força do setor. O core business dos eventos chegou a 205.538 vínculos formais em fevereiro de 2026. Em 2019, antes da pandemia, eram 111.401 trabalhadores formais. A diferença representa 94.137 postos a mais, com alta de 84,5% no período.
Entre as atividades que compõem esse núcleo, a organização de eventos teve avanço de 149,1% no número de vínculos formais em relação a 2019. Também cresceram atividades ligadas ao patrimônio cultural e ambiental, atividades artísticas e espetáculos, produção e promoção de eventos esportivos, recreação e lazer.
“Os dados confirmam que o consumo das famílias nas atividades de recreação e entretenimento permanece forte. Mesmo com todos os impactos causados pela pandemia, quando ficamos totalmente paralisados, o setor de eventos se consolidou como um vetor relevante da retomada da economia brasileira, com impacto direto sobre renda, emprego e uma ampla cadeia de serviços”, afirma Doreni Caramori Júnior, presidente da ABRAPE.
Cada evento movimenta uma cadeia maior

A ABRAPE também mede o chamado hub setorial, que reúne atividades impactadas pelos eventos, como turismo, hospedagem, alimentação, publicidade, infraestrutura, segurança privada e serviços gerais. No primeiro trimestre de 2026, para cada vaga criada no núcleo dos eventos, cerca de 16 surgiram nas atividades associadas. O core business registrou saldo positivo superior a 3,1 mil empregos formais, e o hub gerou mais de 50 mil postos.
Esse efeito ajuda a explicar por que o crescimento dos eventos conversa tão diretamente com a música. Um show movimenta artistas, técnicos, produtores, roadies, seguranças, bares, transporte, hospedagem, fotógrafos, criadores de conteúdo, montadores e equipes de limpeza. Em festivais, essa rede ganha escala e passa a interferir também na economia das cidades.
O ambiente empreendedor segue a mesma direção. No primeiro trimestre de 2026, o setor registrou saldo positivo de mais de 11 mil novos CNPJs no core business. No hub setorial, a abertura líquida passou de 87 mil empresas, segundo a ABRAPE.
A projeção global da Allied Market Research e os dados brasileiros da ABRAPE apontam para a mesma leitura: os eventos deixaram de ser apenas encontros presenciais. Para a música, eles se tornaram uma das formas mais fortes de transformar público, território, marca e experiência em receita.
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