Os Backstreet Boys entraram para a lista de artistas que tentam usar o registro de marca como uma nova camada de proteção contra clones de voz feitos por inteligência artificial. O grupo apresentou, em 24 de junho, um pedido ao Escritório de Patentes e Marcas dos Estados Unidos para registrar o som dos cinco integrantes dizendo a já icônica frase “Hi, we’re the Backstreet Boys”, que significa “Oi, nós somos os Backstreet Boys”.
A movimentação coloca a boy band ao lado de nomes como Taylor Swift e Lionel Richie, que também buscaram caminhos parecidos nos últimos meses. A discussão ganhou força porque ferramentas de IA conseguem imitar vozes com cada vez mais realismo, criando músicas, falas, anúncios e conteúdos falsos que podem confundir fãs e circular rapidamente nas plataformas.
O ponto central é que a voz, por si só, ainda vive em uma zona complicada do direito autoral. Uma gravação original pode ser protegida por copyright. Uma música também. Mas a imitação de uma voz, sem usar a gravação original, nem sempre encontra uma resposta simples na lei. Por isso, artistas e equipes jurídicas começaram a testar outras saídas.
O que os Backstreet Boys querem proteger
No pedido apresentado nos Estados Unidos, os Backstreet Boys buscam registrar uma marca sonora. Esse tipo de proteção existe para sons que funcionam como identificadores de origem. Em termos simples, é quando um som faz o público reconhecer uma marca, uma empresa ou um artista.
Alguns exemplos famosos ajudam a entender melhor. O “tu-dum” da Netflix, os sinos da NBC e o rugido do leão do estúdio de cinema Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) são marcas sonoras conhecidas. Não são músicas no sentido tradicional. São sons curtos, ligados diretamente a uma identidade.
No caso dos Backstreet Boys, a tentativa é aplicar essa lógica à própria voz do grupo. Se o pedido for aceito, a frase registrada poderia funcionar como uma ferramenta adicional para contestar usos indevidos em ambientes digitais. A questão ainda em aberto é até onde essa proteção chegaria.
Se uma IA criar uma gravação falsa dizendo exatamente a frase registrada, o argumento jurídico tende a ser mais direto. Mas o cenário fica mais nebuloso quando a voz clonada diz outra coisa ou canta uma música que nunca foi interpretada pelo grupo. A defesa poderia alegar que o público foi levado à confusão. Já uma plataforma poderia entender que a proteção cobre apenas aquela frase específica.
Taylor Swift, Lionel Richie e o uso de marcas sonoras

A estratégia dos Backstreet Boys segue um caminho aberto por Taylor Swift. Em abril, a artista pediu o registro de sua voz dizendo “Hey, it’s Taylor”, expressão que significa “Ei, é a Taylor”. A movimentação chamou atenção porque mostrou como artistas de grande alcance estão buscando respostas antes que o problema cresça ainda mais.
Lionel Richie também apresentou pedidos de registro em junho, incluindo frases associadas ao seu repertório, como “Hello, is it me you’re looking for?”, que significa “Olá, sou eu que você está procurando?”. O caso mostra que a disputa não envolve só vozes faladas, mas também trechos que o público associa diretamente a artistas e canções.
Essas ações não resolvem todo o problema, mas ajudam a criar novos caminhos de reação. Plataformas como Google, Amazon, Meta, Etsy e eBay já têm processos para remover conteúdos que violam marcas registradas. A aposta é que, no futuro, serviços de IA e redes sociais passem a tratar marcas sonoras da mesma forma.
Para o mercado da música, isso pode mudar a velocidade da resposta. Hoje, um deepfake vocal pode viralizar antes de qualquer contestação formal. Se uma marca sonora for aceita e reconhecida pelas plataformas, o artista ganha mais um argumento para pedir remoção rápida.
A disputa vai além do direito autoral
O debate não depende apenas dos pedidos de registro. Nos Estados Unidos, a proteção de nome, imagem, semelhança e voz costuma passar pelo chamado direito de publicidade, que varia de estado para estado. Isso cria um mapa irregular, no qual a defesa de um artista pode ser mais forte em alguns lugares e mais limitada em outros.
O Tennessee foi mais longe com o ELVIS Act, lei aprovada em 2024 que passou a proteger explicitamente a voz contra réplicas feitas por IA. A medida teve peso simbólico por nascer em um estado ligado à indústria musical e ao legado de Elvis Presley, um dos nomes mais explorados comercialmente na cultura pop.
No Congresso americano, o NO FAKES Act tenta criar uma regra federal para o tema. O projeto avançou no Comitê Judiciário do Senado em 18 de junho e propõe um direito de propriedade intelectual sobre voz e imagem, com mecanismos de remoção para réplicas digitais não autorizadas.
A proposta tem apoio de grandes gravadoras, empresas de tecnologia e plataformas digitais, mas também enfrenta críticas ligadas à liberdade de expressão. O texto prevê exceções para jornalismo, paródia e outros usos protegidos, mas os valores de penalidade para plataformas que não cumprirem as regras viraram ponto de tensão.
Para os Backstreet Boys, Taylor Swift e Lionel Richie, o registro da voz funciona como uma medida preventiva em um momento de transição. A indústria ainda tenta entender quais leis, ferramentas e acordos vão dar conta de um cenário em que qualquer voz conhecida pode ser recriada por software. A resposta definitiva ainda não existe, mas os artistas já começaram a marcar território.
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