Entrevista: Ferrugem analisa retomada do pagode e explica como hit “Arrependidaço” é virada de chave na carreira

Com álbum “Sentimento” e hit em alta, Ferrugem fala sobre o novo ciclo do pagode, estratégias digitais e gestão da própria carreira.
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Nathália Pandeló
Ferrugem na gravação do audiovisual Sentimento - Crédito @southaismarques - Thais Marques
Ferrugem na gravação do audiovisual Sentimento - Crédito @southaismarques - Thais Marques (Crédito @southaismarques/Thais Marques)

O pagode passa por um novo momento de visibilidade no Brasil, impulsionado por plataformas digitais, redes sociais e mudanças no consumo musical. Para Ferrugem, esse movimento não é exatamente uma surpresa, mas sim uma reorganização de forças que sempre existiram no gênero.

Com mais de uma década de carreira, bilhões de streams e um catálogo consolidado, o artista vive agora uma fase que combina maturidade artística com uma leitura mais estratégica do mercado. O ponto de virada mais recente atende pelo nome de “Arrependidaço (Onde Você Anda)”, faixa que cresceu de forma orgânica e acabou redefinindo os rumos do projeto mais recente, o álbum “Sentimento”. No momento dessa publicação, já são quase 24 milhões de reproduções apenas no Spotify, mais 19 milhões no canal do YouTube.

Ao mesmo tempo, o momento do cantor ajuda a explicar um fenômeno maior: o pagode voltou a ocupar espaço em charts, rádios e redes, mas agora sob uma lógica diferente da que marcou o auge dos anos 90 e 2000.

Do auge dos anos 90 ao streaming global

Como tantos artistas fazendo o pagode atual, Ferrugem é fruto dos grupos noventistas que viveram o auge da economia do CD, com nomes como Só Pra Contrariar e Molejo figurando entre os mais vendidos e com faixas conhecidas em nível nacional.

Para Ferrugem, a principal diferença entre o ciclo atual e o vivido nas décadas anteriores está na forma como a música circula. Se antes havia barreiras geográficas e temporais, hoje o alcance é imediato.

“Eu acho que o principal são as plataformas digitais e a facilitação de acesso para a música. Eu lembro que um artista lançava um disco ou então um filme no cinema, lançava nos Estados Unidos, às vezes dois anos, três anos depois do sucesso do filme chegava pra gente aqui no Brasil. Hoje em dia isso não acontece mais, o lançamento é igual pra todo mundo, na mesma data, então a gente consegue acompanhar todas as tendências do mundo, tudo aquilo que tá acontecendo. E isso acaba fazendo com que a nossa música brasileira, que era difícil de chegar lá fora, era um trabalho completamente capcioso pra caramba, difícil de se fazer, hoje a gente apenas lança e a música tá disponível para o mundo inteiro ouvir. Então, acho que essa é a principal diferença. A batalha, ela segue sendo árdua, mas com as armas mais eficientes”, resume o cantor, em entrevista exclusiva ao Mundo da Música.

Esse novo cenário ajuda a explicar por que o pagode, historicamente forte no consumo interno, começa a ganhar tração também fora do país, especialmente em mercados como Portugal.

Quando o público muda o plano

Ferrugem na gravação do audiovisual Sentimento - Crédito @southaismarques - Thais Marques
Ferrugem na gravação do audiovisual Sentimento – Crédito @southaismarques – Thais Marques (Crédito @southaismarques/Thais Marques)

Se a tecnologia alterou o alcance, o comportamento do público passou a influenciar diretamente as decisões estratégicas. No caso de “Arrependidaço”, isso ficou evidente.

“O reconhecimento da indústria se torna visível, se torna notório quando o público faz isso com você. A gente se planeja pra um rumo e o público vai lá e dá outro rumo completamente diferente no nosso trabalho, na nossa carreira. Eu tô passando isso exatamente agora, com a música ‘Arrependidaço’, que é o maior sucesso que a gente tá tendo do pagode hoje, e é uma música do nosso trabalho. Mas eu não tinha pretensão nenhuma de que essa música fosse um grande sucesso, porque, na minha cabeça, eu achava que ela seria uma música difícil de se digerir”, admite.

É por isso que a lógica tradicional de planejamento de hits, baseada em escolha prévia de singles, perde força diante de um ambiente em que o público reage em tempo real. E, muitas vezes, de forma imprevisível.

“Eu não imaginava que ela ia ser sucesso todo. A gente nem tinha se preparado com relação a investimento, a planejamento, para que ela fosse tudo isso. E o público foi lá, pegou e falou, não, essa música não é lado B do disco, ela é a música principal do disco. E a gente aceita, porque quem manda é o público no final de tudo. Eu nunca vou gravar uma música pensando que ‘essa vai ser hit’, ‘essa vai dar uma trend’, até porque eu sou meio antiquado pra isso, ‘vai dar uma trend’, ‘essa vai dar dancinha’. Eu nunca pensei nisso, eu gravo as músicas que eu gosto.”

O papel das redes na construção de hits

Se o público dita o rumo, as redes sociais se tornaram a principal ferramenta para medir esse comportamento antes e depois do lançamento. Ferrugem adotou uma estratégia de teste direto com a audiência.

“Acho que a opinião do público é a nossa régua, a nossa bússola. Então, eu mostro pra eles. Eu vou lá e faço uma versão despretensiosa, tocando meu violão, meu cavaquinho aqui em casa, boto a câmera num lugarzinho legal, e aí a gente vê a resposta da galera. Isso aconteceu muito com ‘Apaguei Pra Todos’. Já era um sucesso cinco meses antes de eu gravar a música.”

O caso de “Arrependidaço”, no entanto, seguiu o caminho oposto: não se destacou antes do lançamento, mas explodiu depois. A virada veio com um elemento simples, mas decisivo: uma coreografia criada minutos antes da gravação.

“Foi com uma dancinha que eu criei cinco minutos antes de a gente entrar no palco pra gravar o DVD. A gente estava ali no camarim com a banda, eu falei, ‘vamos fazer uma dancinha pra essa música’. A gente gravou e lançou. A partir disso aí, a coisa tomou uma proporção inexplicável. A gente tem agora só no TikTok mais de um milhão de criações”, comemora.

Do digital para a rua

Ferrugem no audiovisual Sentimento - Crédito @southaismarques - Thais Marques
Ferrugem no audiovisual Sentimento (Crédito @southaismarques/Thais Marques)

Apesar do peso das plataformas, o artista defende uma estratégia que não se limita ao ambiente digital. Um flash mob realizado em Copacabana é um exemplo dessa abordagem híbrida.

“É mais simples do que a gente imagina. É só entender visualmente, olhar o seu campo e ver quem é o público que te acompanha. E a gente consegue entender que tem duas gerações nos meus shows. Tem os pais e os filhos. Os filhos são digitais, os pais são analógicos, então não posso deixar nenhum dos dois lados faltar.”

Essa leitura se traduz em uma presença que vai além das redes.

“Da mesma maneira que eu divulgo o meu trabalho nas redes sociais, as minhas músicas tocam no rádio, eu entendo a importância que tem a televisão, eu entendo a importância que tem da minha imagem estar nos outdoors, no Rio de Janeiro ou no Brasil. É a gente ser abrangente, conseguir fechar um cerco para que todas as pessoas consigam consumir o meu trabalho”, explica.

O artista como empresa

Com a carreira consolidada, Ferrugem também passou a assumir um papel mais ativo na gestão do próprio negócio. O envolvimento, que antes não existia, hoje é visto como parte essencial da profissão.

“Sendo bem sincero, [sobre a parte burocrática] eu gostava um total de zero [risos]. Não gostava mesmo. Mas já são quase 13 anos que eu faço parte do mesmo escritório, da mesma gravadora, e isso serviu para me ensinar a fazer o trabalho por trás das cortinas.”

Hoje, ele participa das decisões, mas mantém uma estrutura profissional ao redor.

“Eu me envolvo, mas eu não sou profissional das áreas que eles [da equipe] são, eu sou um cantor. Então, eu tenho as minhas opiniões, eu tenho as questões que eu coloco em pauta pra gente poder discutir juntos, mas eu confio muito em cada um deles. Todas as estratégias de marketing bacana que você vê aí rolando são construídas em conjunto.”

Esse equilíbrio entre controle e confiança define o modelo atual.

“Estar por dentro do seu trabalho não é bacana para o artista, acho que é uma obrigação de cada artista. Entender o quanto a sua empresa fatura, o quanto você investe nesse faturamento, o quanto você pode trazer para você como lucro, o quanto você tem que deixar na empresa. É se manter com o profissionalismo de uma empresa e com o amor de uma família”, pontua.

“Sentimento” e o valor do projeto completo

Em uma realidade dominada por singles, Ferrugem decidiu apostar em um álbum mais estruturado com “Sentimento”, dando origem a um audiovisual completo lançado no início de 2026. A escolha passa por uma visão de longo prazo e também por uma relação pessoal com o formato.

“Eu sigo com essa cabeça de achar que é interessante gravar um álbum de músicas inéditas, pedir pra que a galera escute o álbum inteiro. Eu sou esse cara que fala, escutem o álbum inteiro, ele só vai fazer sentido se vocês escutarem inteiro.”

O investimento em audiovisual também entra nessa lógica, mesmo sem retorno financeiro direto.

“Sei que hoje em dia a gente não tem mais esse retorno de audiovisual. Sinceramente, eu não ganho um real dessa parada. Mas eu fico muito feliz de lançar trabalhos com qualidade. A gente posiciona o nosso trabalho. É posicionamento de marca”, analisa Ferrugem.

O próximo passo do pagode

Depois de consolidar presença no Brasil, o foco agora passa por estruturar a expansão internacional do gênero.

“A gente tem o planejamento de começar a fazer um trabalho mais regional nesses países – em Portugal, na Espanha, no Paraguai -, lugares que já consomem bem o nosso trabalho, mas que a gente nunca fez um trabalho de base lá.”

A estratégia é sair do consumo pontual e construir presença real.

“A ideia é poder ir pra lá agora e fazer todo esse trabalho de base que eu fiz aqui no Brasil. Rádio, TV, divulgação, participações e tudo mais, pra que a gente fortaleça o nosso trabalho a ponto de não tocar apenas pros imigrantes, pra gente poder tocar pros cidadãos do país.”

Ao mesmo tempo, ele aponta que o crescimento do gênero depende também da renovação interna.

“Tem uma rapaziada fazendo um trabalho tão bom aí, e eu acho que se a gente for abrindo espaço, trazendo essa rapaziada, a gente fortalece o nosso segmento com gente nova, com novas ideias.”

A trajetória de Ferrugem e o sucesso inesperado de “Arrependidaço” ilustram a nova dinâmica do pagode: um gênero que honra suas raízes analógicas, mas que aprendeu a dominar as ferramentas do mundo digital. Ao equilibrar o faro artístico com uma gestão empresarial profissional, o cantor demonstra que a longevidade no mercado atual não depende só de algoritmos, mas principalmente da capacidade de ouvir o público e manter a essência. Seja ocupando os outdoors ou as trends, Ferrugem dobra a aposta no pagode como uma força em expansão, provando que, quando o sentimento é autêntico, a música brasileira não conhece fronteiras.

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