Em “Dissolução”, Bebé transforma um processo íntimo de mudança em um álbum que também reposiciona sua presença dentro do estúdio. O trabalho marca a primeira vez em que a artista paulistana assume a produção musical de um disco completo, decisão que passa longe de ser apenas um crédito técnico. No novo projeto, ela conduz o som, escolhe as texturas, costura os encontros e coloca a própria escuta no centro da obra.
O título parte de uma imagem ligada à transformação. Na alquimia, dissolver é uma etapa necessária para que algo mude de estado. No disco, essa ideia aparece como uma travessia pessoal, mas também como um método de criação. As músicas lidam com o momento em que certas estruturas deixam de funcionar e abrem espaço para outro jeito de existir, sentir e criar.
Depois de dois trabalhos em que investigou identidade e amadurecimento, Bebé chega a “Dissolução” com uma postura mais entregue ao processo. O disco não tenta esconder seus movimentos internos. Ao contrário, faz deles parte da linguagem. As faixas passam por indie, MPB, jazz, R&B, trip hop, indie rock, house, rap e afrobeat, mas sem a sensação de colagem aleatória. O fio que organiza tudo é a forma como a artista usa cada gênero como matéria para construir uma narrativa de passagem.
A produção como gesto de autonomia
Assumir a produção musical de “Dissolução” coloca Bebé em outro lugar dentro da própria carreira. Em vez de chegar ao estúdio apenas como intérprete, compositora ou instrumentista, ela passa a definir a arquitetura do álbum. Isso significa decidir como cada música respira, que instrumentos entram em primeiro plano, onde o arranjo segura a emoção e onde ele libera o movimento.
“Esse trabalho significa uma coisa muito importante para mim. Sinto que ele marca um recomeço, porque é o momento em que eu assumo a minha produção musical. Isso tem uma simbologia pessoal muito forte para mim, e por isso o disco se chama ‘Dissolução’”, ela contou ao Mundo da Música.
Essa virada aparece na ficha técnica. Bebé assina a produção musical das 13 faixas e também aparece em voz, guitarra, baixo, beats, sintetizadores e programações. A presença dela nos créditos mostra uma artista que não está apenas conduzindo a narrativa das letras, mas também desenhando a paisagem sonora em que essas letras vão existir.
A coprodução de Felipe Salvego, seu irmão, ajuda a dar continuidade ao álbum. Ele participa de faixas como “Meu Peito”, “Dissolução”, “Compartilhando o Céu”, “Variante Estrelar / Para Lô Borges”, “Fica na Mesma”, “Sobrenome de Nenhum Lugar”, “Ano do Cavalo”, “Se Tocar”, “Sem Ter Que Me Explicar”, “O Segredo das Coisas” e “No More Hiding”, atuando com guitarra, baixo, violão, synths e piano.
Essa parceria familiar não tira o protagonismo de Bebé, mas funciona como uma base de troca. O disco mantém uma assinatura central clara, enquanto abre espaço para outras mãos, outras escutas e outras formas de tocar. Em uma obra sobre dissolver antigas formas, a produção também parece experimentar um equilíbrio entre controle e entrega.
Um time feminino que atravessa gerações
Um dos pontos mais fortes de “Dissolução” é a escolha das musicistas. Bebé fala sobre esse processo como quem realizou sonhos antigos. A presença feminina não aparece apenas como um recorte simbólico, mas como parte da estrutura do álbum. São instrumentistas, cantoras e criadoras que entram no disco com funções específicas e ajudam a moldar o caráter de cada faixa.
“Quando eu pensava em musicistas para este álbum, principalmente nas mulheres, o meu foco era trazer uma energia feminina para o disco. Eu pensava em principais nomes e sonhei alto. Pensei em mulheres que sempre me inspiraram como musicista. A Badi Assad era um sonho, e realizei. A Ana Karina Sebastião, realizei. A Alana Ananias também”, recorda.
A ficha técnica confirma esse desenho. Badi Assad participa de “O Segredo das Coisas” com violão e voz percussiva, levando ao disco uma relação muito física com o instrumento. Ana Karina Sebastião toca baixo em “Compartilhando o Céu” e “Se Tocar”. Alana Ananias aparece na bateria de faixas como “Dissolução”, “Compartilhando o Céu”, “Variante Estrelar / Para Lô Borges”, “O Segredo das Coisas” e “No More Hiding”, além do sample de bateria em “Ano do Cavalo”.
Também há participações que mostram o alcance do álbum para além de uma cena única. Laura Santos toca clarinete em “Compartilhando o Céu”, criando uma camada de sopro em uma faixa que se move entre R&B e trip hop. Layla entra com steel drums em “Sem Ter Que Me Explicar”, trazendo um timbre pouco usual nesse tipo de canção e ajudando a deslocar a escuta para um espaço menos previsível.
“Acho que existe um encontro geracional muito interessante no disco. Temos a Laura Santos, que tocou clarinete, e a Layla, que tocou steel drums. São encontros geracionais bem interessantes. Também conheci o trabalho da Dee Simone, que é estadunidense, e a gente se conectou pela internet”, ela acrescenta.
A presença de Dee Simone em “Meu Peito” amplia o alcance sonoro do álbum logo na faixa de abertura. Sua bateria acrescenta uma dinâmica própria à canção e reforça a proposta de Bebé de reunir diferentes referências e trajetórias dentro de um mesmo projeto.
“Ela é uma das principais bateristas do mundo e já trabalhou com artistas como Doechii e Ravyn Lenae. Então, de verdade, realizei sonhos com esse time. Podemos dizer que é uma seleção brasileira, ou melhor, um time global”, comemora Bebé.
As participações como extensão da narrativa

As participações vocais de “Dissolução” não entram como adereço. Cada nome aparece em um ponto específico do percurso emocional do disco. Tássia Reis divide “Compartilhando o Céu” com Bebé, em uma faixa de R&B e trip hop que fala de encontro, deslocamento e partilha. A música também reúne Ana Karina Sebastião, Laura Santos e Alana Ananias, formando uma das gravações mais povoadas do álbum.
Em “Ano do Cavalo”, Tuyo entra em um ambiente de house, indie e rock. A faixa tem composição de Bebé, Lio Soares, Lay e Machado, que também atua na coprodução, nos beats, samples e ambiência. É uma das faixas em que o disco mais se aproxima da pista, mas sem abandonar o eixo emocional. A dança, aqui, surge como impulso de mudança.
Brisa Flow participa de “Vulcânica”, faixa que passa pelo rap, pelo R&B contemporâneo e pelo afrobeat. A música aparece na reta final do disco e funciona como um ponto de liberação. Depois de um percurso marcado por estados internos, silêncios e reorganizações, “Vulcânica” traz uma energia de fala que sai do acúmulo para a expressão.
Já Marissol Mwaba aparece em “No More Hiding”, faixa de indie rock e house que encerra o álbum em uma chave coletiva. O próprio título, em inglês, aponta para a recusa do esconderijo. Depois de atravessar dissoluções íntimas, o disco termina olhando para uma dimensão menos solitária, como se a experiência pessoal de Bebé encontrasse eco em outras vozes.
Entre o jazz, a canção e os beats
A linguagem musical de “Dissolução” se apoia na liberdade do jazz, mas não se limita a ela. O jazz aparece menos como gênero fechado e mais como modo de pensar o arranjo. Há espaço para respiração, deslocamento, improviso de timbres e uma certa recusa da forma óbvia. Isso ajuda o disco a escapar de soluções prontas, mesmo quando se aproxima de formatos pop.
“Cada pessoa que entrou nesse álbum trouxe uma cor muito própria. Eu pude trabalhar com a matéria viva de cada som que cada menina me trouxe. Também quis trazer a minha linguagem do jazz para tornar esse trabalho vivo, pulsante e que tivesse essa cara crescente de movimento”, analisa Bebé.
Esse “movimento” aparece na forma como o álbum alterna densidade e leveza. “Meu Peito” abre com uma combinação de voz, guitarra, beat e bateria que já aponta para um disco de textura. “Dissolução” puxa o indie rock e a MPB para um lugar mais direto. “Variante Estrelar / Para Lô Borges” cruza indie, jazz, MPB e rock, com dedicatória ao compositor mineiro, uma referência que ajuda a localizar o disco dentro de uma tradição brasileira de canção expansiva.
Em “Evapora Lágrima”, Bebé trabalha voz, beat, synths e programações, com Felipe Salvego nos synths e no piano. A faixa, descrita como trip hop e MPB, mostra como o disco usa bases eletrônicas sem perder a intimidade da canção. Já “Sobrenome de Nenhum Lugar” reduz o ambiente para jazz e MPB, com voz, programação, violão acústico, baixo e piano, abrindo uma área mais contemplativa dentro do repertório.
O resultado é um álbum que não depende de uma única identidade sonora. Pelo contrário, a identidade nasce da passagem entre linguagens. A cada faixa, Bebé parece testar uma forma diferente de transformar experiência em som. Essa escolha combina com a ideia de dissolução: o disco não fixa a artista em um lugar, mas mostra o momento em que ela decide se mover.
Os bastidores do disco
Segundo Bebé, “Dissolução” ficou pronto em cerca de 18 meses. Para um álbum com tantas participações, instrumentos, camadas e faixas, o prazo chama atenção. O processo também foi atravessado pela dinâmica de um projeto com prazos fixos, o que exigiu ritmo e organização.
“O disco ficou pronto em um ano e meio, que eu considero um tempo consideravelmente curto. Por ser um projeto de edital, a gente precisava correr com as coisas. Entre pegar as minhas composições e torná-las vivas, foi um processo de um ano e meio”, recorda.
A engenharia de gravação de Alejandra Luciani aparece como uma das bases técnicas do projeto, com registros feitos em espaços como Toca do Tatu, Buena Familia e Medusa. Em “No More Hiding”, a gravação também conta com Maurício Peixoto, no Bárbaro Estúdio. A mixagem de João Millet e a masterização de Felipe Tichauer dão unidade ao material, mesmo com a variedade de estilos e formações.
A produção executiva de Alessandra Faria também é parte importante dessa engrenagem. Em discos independentes e autorais, a produção executiva costuma ser o campo que viabiliza o encontro entre ideia, orçamento, agenda, gravação e entrega. No caso de “Dissolução”, esse trabalho ajuda a sustentar uma obra que envolve muitos nomes, diferentes estúdios e uma proposta estética bastante específica.
O disco foi realizado com apoio do Programa de Ação Cultural, o ProAC, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo, e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, a PNAB, do Ministério da Cultura e Governo Federal. Em um mercado no qual projetos autorais nem sempre encontram espaço fácil, esse tipo de fomento ajuda a explicar como uma obra com tantas camadas pode chegar ao público.
Ficha Técnica: Bebé – “Dissolução”
Artista: Bebé
Álbum: “Dissolução”
Gêneros: indie, MPB, jazz, R&B, trip hop, indie rock, house, rap e afrobeat
Produção musical: Bebé
Coprodução musical: Felipe Salvego; Machado em “Ano do Cavalo”
Composição: Bebé, com colaborações de Felipe Salvego e artistas convidados
Pós-produção: Bebé; Bebé e Machado em “Ano do Cavalo”
Produção executiva: Alessandra Faria
Gravação: Alejandra Luciani; Maurício Peixoto em “No More Hiding”
Mixagem: João Millet
Masterização: Felipe Tichauer
Direção de arte: Mariana Maria
Participações vocais: Tássia Reis em “Compartilhando o Céu”; Tuyo em “Ano do Cavalo”; Brisa Flow em “Vulcânica”; Marissol Mwaba em “No More Hiding”
Músicos: Bebé na voz, guitarra, baixo, beats, synths e programações; Felipe Salvego na guitarra, baixo, violão, synths e piano; Alana Ananias na bateria; Dee Simone na bateria; Ana Karina Sebastião no baixo; Laura Santos no clarinete; Vanessa Ferreira no baixo acústico; Layla nos steel drums; Dinho Almeida em beat e sample; Machado em beat, samples e programações; Badi Assad no violão e na voz percussiva.
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