O Dia Mundial do Livro, celebrado em 23 de abril, chega com um retrato que ajuda a dimensionar um desafio que vai além do setor editorial e alcança também o mercado musical. No Brasil, apenas 52% da população pode ser considerada leitora, ou seja, leu ao menos um livro nos últimos três meses. Do outro lado, 48% não tiveram nenhum contato com livros nesse período, segundo Retratos da Leitura, a pesquisa mais recente do Instituto Pró-Livro.
A média de leitura também chama atenção: são 2,6 livros por pessoa ao ano, mas apenas 1,3 por iniciativa própria. Isso indica que boa parte da leitura ainda está ligada a obrigações, como estudo ou trabalho, e não ao interesse espontâneo.
Esse cenário ajuda a entender um movimento que atravessa diretamente o mercado da música. Em um ambiente cada vez mais orientado por dados, algoritmos e velocidade de consumo, a leitura passa a cumprir um papel estratégico na formação de artistas e profissionais. Livros sobre carreira e empreendedorismo, por exemplo, ajudam músicos a lidarem com decisões que vão de posicionamento a gestão de equipe, enquanto obras sobre criatividade funcionam como uma extensão do próprio processo artístico, trazendo ferramentas para lidar com bloqueios, percepção e construção de identidade.
Além disso, romances e ficção alimentam repertório narrativo e emocional que muitas vezes se transforma em letras, conceitos e projetos, enquanto as biografias de músicos oferecem um olhar mais profundo sobre trajetórias que costumam ser vistas apenas pela superfície. Assim, a leitura deixa de ser um hábito isolado e passa a atuar como um pilar educacional da indústria, ajudando a sustentar repertório, visão e consistência em um mercado cada vez mais acelerado.
Leitura como base cultural da música brasileira

Para Ana Paula Paulino, gerente de A&R da Warner Music Brasil e sócia da Ubuntu Produções, a leitura vai além de um exercício intelectual e se conecta diretamente com a construção da própria música brasileira.
‘’Um Defeito de Cor’ é um livro que todo brasileiro deveria ler. Em um primeiro momento, pode soar estranho indicá-lo para artistas e agentes da indústria musical porque não é uma obra que fala exatamente sobre o mercado, mas a música/arte é fruto da nossa cultura, da nossa história. Se tratando de música brasileira, a influência do continente africano na nossa construção cultural e histórica é inegável, mas acho que quase não estudamos – e temos poucos registros – a trajetória dos negros escravizados que vieram forçados para cá e formaram a base da nossa cultura, nossa gastronomia, nossa língua. O samba, o funk, o rap, o axé e praticamente todos os ritmos brasileiros só são o que são hoje devido à confluência de grupos étnicos africanos que se deu neste território e dos meios que eles tiveram que encontrar para manter suas tradições e sua cultura viva. Para saber para onde ir é necessário entender de onde se veio e esse livro é para isso!”
O ponto levantado por Ana Paula ajuda a traduzir um dado importante: jovens entre 11 e 13 anos ainda lideram os índices de leitura no país, mas esse hábito tende a se perder ao longo da vida adulta. Isso impacta diretamente a formação cultural de novos artistas.
Criatividade em um cenário dominado por estratégia

Se a leitura ajuda a formar repertório, ela também aparece como um contraponto ao momento atual da indústria, marcado por decisões orientadas por dados e plataformas.
Para Dani Pepper, VP da K2L e CEO da Urban Pop, o livro “O Ato Criativo: Uma Forma de Ser”, de Rick Rubin, funciona como um freio necessário nesse cenário:
“Um livro que me marcou muito foi ‘O ato criativo: uma forma de ser’, do Rick Rubin. O que mais me impacta no Rick Rubin não é só a trajetória dele como produtor, é a forma como ele enxerga a criação. Ele não trata a música como produto, mas como um estado de percepção. E isso muda completamente a forma como um artista se coloca no mundo. A gente vive um momento em que muitos artistas estão obcecados por estratégia, algoritmo, resultado… mas desconectados do que realmente sustenta uma carreira: identidade, escuta e profundidade criativa. E esse livro traz um pouco o pé no chão nesse aspecto, sabe? Eu indico esse livro porque ele acredito que ele ajuda o artista a se reconectar com a essência do que ele está fazendo. O Rick Rubin me inspira muito porque ele prova que você não precisa ser o mais técnico para ser o mais relevante. Ele é um produtor que trabalha muito mais com sensibilidade, direção e curadoria do que com execução. Trazer a parte da consciência criativa é muito necessário pra qualquer artista e esse livro representa muito isso”.
A fala dialoga com outro dado relevante: leitores dedicam, em média, 30 minutos por dia à leitura, enquanto o restante da população prioriza redes sociais e vídeo no tempo livre.
Leitura como ferramenta prática para destravar a criação

Para quem vive o dia a dia da criação musical, a leitura também aparece como ferramenta concreta de trabalho, especialmente no enfrentamento de bloqueios criativos.
Alan Lopes, gerente de A&R da Som Livre, destaca duas obras que dialogam diretamente com esse processo: também o “O Ato Criativo”, de Rick Rubin, e “O Caminho do Artista”, de Julia Cameron:
“Dois livros que me ajudaram muito a processar a vivência artística em minha vida, e me auxiliaram de várias formas desde me entender o poder da minha percepção e também a fuga de bloqueios criativos foram: ‘O Ato Criativo’, de Rick Rubin, publicado em 2023, aborda sobre a criatividade ser uma forma de viver e não só de fazer. Um livro que nos atenta a percepção, presença e autenticidade muito mais do que à técnica. Todo mundo é criativo; o desafio é acessar isso no dia a dia e fazer disso um estilo de vida. O livro é baseado em experiências vividas pelo mega produtor musical de Hollywood. Já o livro ‘O Caminho do Artista’, de Julia Cameron, publicado em 1992, propõe um processo prático para destravar a criatividade, tratando e prevenindo bloqueios criativos como algo emocional e não falta de talento. O livro mostra através de um programa de exercícios de 12 semanas que provaram que criar é um exercício de reconexão com sua essência.”
Esse tipo de abordagem ganha ainda mais relevância quando se observa que apenas cerca de 1 em cada 4 brasileiros escolhe ler no tempo livre, o que reduz o contato com esse tipo de ferramenta ao longo da vida.
Entender o passado para lidar com o futuro da indústria

A leitura também aparece como uma forma de compreender transformações profundas da indústria musical, especialmente em momentos de mudança tecnológica.
Para Bruna Campos, cantora, especialista em direitos autorais e representante da UBC, há uma boa opção que ajuda a contextualizar o presente: “Como a Música Ficou Grátis”, de Stephen Witt.
“Foi interessante ler esse livro muito tempo depois que eu comecei a trabalhar com música porque eu comecei justamente na época relatada no livro mas não fazia ideia dos bastidores relatados nele. Pra quem está entrando no mercado agora, é bom pra entender como a indústria da música às vezes subestima as novas formas de consumo de música e isso impede ações rápidas que evitariam prejuízos. O livro ajuda, inclusive, a entender o atual momento em que vivemos com a inteligência artificial, se o leitor souber fazer as devidas analogias.
O ponto dialoga com um histórico recorrente do setor: mudanças tecnológicas costumam ser percebidas tarde, e a leitura pode funcionar como uma forma de antecipar movimentos.
Cena local, memória e construção de identidade

Além da formação individual, a leitura também atua na preservação de cenas culturais e na construção de memória coletiva, algo central para a música.
Para Ana Garcia, CEO do Coquetel Molotov e da Coda Produções, o livro “Soparia: De Boteco a Palco de Todos os Sons”, de José Teles, cumpre esse papel:
“É difícil escolher um livro quando o tema é tão abrangente, até porque há muitos que foram importantes para mim em diferentes momentos da vida. Mas decidi trazer algo atual e local: SOPARIA: De Boteco a Palco de Todos os Sons, de José Teles. O livro revisita a história da cena cultural recifense dos anos 1990 a partir da Soparia de Roger de Renor, eternizada também no ‘Cadê Roger, cadê Roger’, de Chico Science. Sou uma das poucas pessoas que pôde viver um pouco dessa cena ainda muito jovem, com 15 anos, e isso torna a leitura ainda mais especial para mim. O livro atravessa música, cinema, arte e a efervescência cultural de um Recife que marcou época.”
No fim, o Dia Mundial do Livro revela um cenário em que a leitura perde espaço na rotina dos brasileiros, mas segue como um dos pilares invisíveis da criação artística. Em um mercado cada vez mais orientado por dados e velocidade, ela continua sendo uma das ferramentas mais acessíveis e capazes de sustentar repertório, identidade e visão de longo prazo.
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