UMG apoia portfólio de patentes usado por Udio e GRAI para criação musical com IA

Portfólio ligado à UMG cobre criação, identificação, distribuição e pagamento de músicas com IA; Udio e GRAI são as primeiras licenciadas.
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Nathália Pandeló
Parceria entre UMG e MIH

O Universal Music Group (UMG) passa a contar com uma nova camada de proteção e licenciamento para inteligência artificial a partir do portfólio apresentado pela Music IP Holdings (MIH), empresa criada em parceria com o grupo e a Liquidax Capital. A estrutura reúne mais de 24 patentes emitidas ou autorizadas e outras 50 em análise, com tecnologias que cobrem diferentes etapas da criação e circulação de conteúdos gerados por IA.

As primeiras empresas a licenciar o conjunto são a Udio e a GRAI. As patentes podem ser aplicadas a serviços de covers, remixes e experiências musicais interativas, com mecanismos de autorização, moderação, marca d’água, identificação de arquivos, distribuição licenciada e pagamento a titulares.

O movimento coloca a UMG em uma posição diferente daquela de apenas reagir ao uso não autorizado de repertório por sistemas de inteligência artificial. A gravadora passa também a participar da construção e do licenciamento da infraestrutura usada por empresas que pretendem operar com conteúdo musical derivado de obras protegidas.

Patentes cobrem da criação ao pagamento

A Music IP Holdings funciona como uma empresa de desenvolvimento, gestão e licenciamento de propriedade intelectual. Seu portfólio foi estruturado para acompanhar todo o ciclo de um conteúdo gerado por IA, desde o momento em que o usuário envia um comando ao sistema até a autorização, identificação, distribuição e remuneração.

Isso pode ter efeito direto sobre um dos principais problemas atuais da música feita com inteligência artificial: saber de onde veio determinado conteúdo, quais obras foram utilizadas, quem autorizou a transformação e como o dinheiro deve chegar aos titulares. O uso de marcas d’água e identificadores, por exemplo, cria uma forma técnica de acompanhar arquivos mesmo quando eles circulam entre diferentes serviços.

“Artistas e compositores não deveriam ter que escolher entre adotar a IA e proteger o trabalho de suas vidas. E empresas responsáveis de IA deveriam ter um caminho claro para inovar. […] O portfólio foi desenvolvido para permitir um padrão que dê a criadores de todos os tipos a capacidade de gerar, rastrear e garantir novas fontes de receita com IA, ao mesmo tempo em que oferece opções sólidas para administrar resultados de IA não autorizados”, afirmou Daniel Drolet, CEO da Music IP Holdings.

O portfólio não se limita à música. Segundo a MIH, as patentes também alcançam áudio, vídeo, cinema, animação, imagens, texto e aplicações relacionadas a nome e imagem. A empresa abriu ainda uma plataforma de licenciamento para que companhias de tecnologia possam solicitar acesso às tecnologias.

UMG avança em acordos para uso licenciado de inteligência artificial

Sede do Universal Music Group em Santa Monica, UMG
Sede do Universal Music Group em Santa Monica (Crédito: Divulgação)

A participação da UMG na Music IP Holdings faz parte de uma estratégia que o grupo vem construindo para o uso de inteligência artificial na música. Em vez de tratar a tecnologia apenas pelo viés jurídico, a gravadora tem buscado acordos que definam como repertórios protegidos podem ser usados em ferramentas de criação, remixagem e outras experiências com IA, com regras de autorização e remuneração para artistas e compositores.

Em outubro de 2025, a UMG fechou um acordo com a Udio que encerrou uma disputa judicial por violação de direitos autorais e abriu caminho para uma nova plataforma licenciada de criação musical com inteligência artificial. As duas empresas também firmaram licenças envolvendo gravações e obras musicais. No mesmo período, a gravadora anunciou uma parceria com a Stability AI para desenvolver ferramentas profissionais de criação musical treinadas com conteúdo autorizado e, em dezembro, iniciou uma colaboração com a Splice para estudar novos recursos de IA voltados a artistas.

Esse movimento continuou em 2026. Em maio, UMG e Spotify anunciaram acordos de licenciamento para uma ferramenta de covers e remixes feitos por fãs com inteligência artificial, com participação de artistas e compositores nas receitas. Em 19 de agosto, um dia antes do anúncio da Music IP Holdings, a gravadora também fechou uma parceria com a Hook para permitir que usuários criem e compartilhem conteúdos a partir de gravações oficiais da UMG dentro de um ambiente licenciado.

Ao mesmo tempo, o grupo mantém uma postura dura contra o uso de seu catálogo sem autorização. A UMG afirma que gravações, composições, imagens, metadados e outros conteúdos sob seu controle não podem ser usados para treinamento ou desenvolvimento de sistemas de IA sem licença. 

Udio e GRAI testam o modelo

A entrada da Udio nessa nova estrutura é especialmente relevante porque a plataforma já mantém uma relação de licenciamento com a UMG. Agora, passa a adotar uma infraestrutura que prevê controles para criação e circulação de conteúdos derivados. A GRAI, por sua vez, desenvolve um serviço de streaming social no qual usuários podem interagir com músicas e criar novas versões dentro de um sistema que prevê autorização, crédito e pagamento.

“Este é um verdadeiro ponto de virada para a IA e a música. Com a MIH, estamos trabalhando em parceria para implementar a infraestrutura que protege os artistas e estabelecer as salvaguardas que garantem que a IA potencialize a criatividade humana. Esse trabalho, a tecnologia, o licenciamento, as parcerias, é o que torna possível construir um próximo capítulo no qual os artistas realmente possam participar”, disse Andrew Sanchez, fundador e CEO da Udio.

Para a UMG, a adoção desse tipo de modelo aponta para uma estratégia em duas frentes. De um lado, a gravadora segue buscando proteção jurídica contra usos que considera não licenciados. De outro, investe em sistemas que permitam que plataformas de IA trabalhem com repertório protegido dentro de regras previamente definidas.

“Essas patentes são uma forma importante de fortalecer a estratégia que acreditamos que terá um papel central na próxima era da música: adotar uma inovação ética que coloque artistas e compositores no centro, com mais autonomia, influência e participação da comunidade criativa na cadeia de valor. Estamos muito felizes em nos unir à MIH, a empresas de música e a empresas de tecnologia responsáveis para construir um ecossistema de IA na música que funcione para todos, especialmente para as forças criativas que tornam tudo isso possível”, Chris Horton, vice-presidente executivo de Tecnologia Estratégica do Universal Music Group.

A disputa, portanto, deixa de tratar apenas sobre permitir ou proibir inteligência artificial na música. O foco passa a ser quem controla as autorizações, quais tecnologias identificam o conteúdo, como ele pode circular e de que forma artistas, compositores, gravadoras e editoras participam da receita. Se outras plataformas aderirem às licenças da MIH, o modelo apoiado pela UMG pode ganhar espaço como uma referência técnica e comercial para a próxima fase da música gerada por IA.

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