Aos 80 anos, Dolly Parton morre após transformar canções, livros e negócios em um legado muito além do country

Dolly Parton deixa uma história que une canções decisivas, livros infantis, negócios, televisão e ação comunitária nos EUA.
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Nathália Pandeló
Dolly Parton em 1974
Dolly Parton em 1974 (Crédito: RCA Records)

A morte de Dolly Parton, aos 80 anos, nesta terça-feira (25), encerrou uma trajetória que foi muito além da música country. A cantora, compositora, atriz e empresária morreu em Nashville após um breve período de tratamento contra um câncer, segundo comunicado divulgado por sua equipe.

Ao longo de seis décadas, Dolly construiu uma carreira em que sucesso comercial e controle sobre o próprio trabalho caminharam juntos. Vendeu mais de 100 milhões de discos, escreveu cerca de 3 mil músicas e atravessou country, pop, cinema e televisão. Parte do que tornou sua história incomum, porém, aconteceu fora dos palcos.

Uma dessas histórias ajuda a dimensionar sua capacidade como compositora. Dolly contou que escreveu “Jolene” e “I Will Always Love You”, consideradas seus dois maiores sucessos, no mesmo dia. O Country Music Hall of Fame preserva inclusive o gravador portátil usado por ela na criação das duas músicas e de “The Seeker”.

Uma música que Dolly se recusou a entregar a Elvis

Dolly Parton recebe homenagens
Dolly Parton recebe homenagens (Créditos: Eric Draper/Eva Rinaldi)

Quando Elvis Presley demonstrou interesse em gravar “I Will Always Love You”, o empresário do cantor, Colonel Tom Parker, exigiu metade dos direitos editoriais da composição. Dolly recusou. Ela havia criado sua própria editora musical ainda em 1966 e entendia que ceder a propriedade da música significaria abrir mão de receitas futuras.

A decisão ganhou outra dimensão em 1992, quando Whitney Houston regravou a canção para o filme “O Guarda-Costas”. A versão tornou-se um fenômeno mundial e gerou milhões de dólares em royalties para Dolly. 

Parte desse dinheiro foi destinada à compra de um complexo comercial em uma região de Nashville que, naquele período, concentrava moradores, igrejas e negócios negros. A própria artista relacionava o investimento à origem de Whitney.

De “Joshua” a “9 to 5”, Dolly acumulou sucessos em diferentes fases da carreira

Antes de chegar ao público pop, Dolly Parton já havia construído uma sequência de sucessos no country. Em 1971, “Joshua” se tornou sua primeira música a alcançar o 1º lugar na parada country dos Estados Unidos. Na mesma década, lançou faixas como “Love Is Like a Butterfly”, “The Bargain Store” e “The Seeker”, além de “Coat of Many Colors”, composição baseada em uma lembrança da infância no Tennessee e que se tornou uma das músicas associadas à sua história familiar.

A partir do fim dos anos 70, Dolly passou a ocupar também as paradas pop. “Here You Come Again”, uma das poucas gravações de destaque de sua carreira que não foram escritas por ela, chegou ao 3º lugar da Billboard Hot 100. O álbum de mesmo nome também trouxe “Two Doors Down”, que alcançou o Top 20 da parada pop. Essa fase marcou uma mudança importante em sua presença comercial, com músicas que mantinham elementos do country, mas que também circulavam fora do público tradicional do gênero.

Em 1980, a música “9 to 5” levou essa presença a outro patamar. Dolly escreveu a faixa para o filme de mesmo nome – ou, em Português, “Como Eliminar Seu Chefe” – no qual atuava ao lado de Jane Fonda e Lily Tomlin, e criou o ritmo da introdução batendo as unhas umas contra as outras para imitar o som de uma máquina de escrever. A música chegou ao 1º lugar tanto na parada country quanto na Billboard Hot 100, recebeu indicação ao Oscar e venceu dois Grammys. O álbum “9 to 5 and Odd Jobs”, dedicado a histórias sobre trabalho e trabalhadores, também liderou a parada country por nada menos que dez semanas.

A discografia seguiu por caminhos diferentes nas décadas seguintes. Dolly Parton voltou ao topo das paradas country com músicas como “Why’d You Come in Here Lookin’ Like That”, em 1989, e manteve parcerias frequentes, incluindo gravações com Kenny Rogers, Loretta Lynn e Tammy Wynette. Mais tarde, continuou lançando trabalhos ligados ao bluegrass, ao gospel, a trilhas de cinema e novamente ao pop. Em 2018, por exemplo, escreveu novas músicas para a trilha de “Dumplin’”, incluindo “Girl in the Movies”, indicada ao Grammy e ao Globo de Ouro.

Da cidade natal a mais de 325 milhões de livros

Dolly Parton aceitando o Applause Award em 2010
Dolly Parton aceitando o Applause Award em 2010 (Crédito: Curtis Hillbun)

Dolly também levou dinheiro e oportunidades de volta à região onde cresceu, no Tennessee. Em 1986, tornou-se sócia do parque que passaria a se chamar Dollywood, em Pigeon Forge. O empreendimento se tornou um dos motores do turismo de Sevier County e, ao longo dos anos, figurou entre os maiores empregadores locais.

O vínculo com a comunidade também apareceu na educação. Em 1995, ela criou a Imagination Library, inspirada pelo pai, que não sabia ler nem escrever. O projeto começou distribuindo gratuitamente livros a crianças de até cinco anos em seu condado natal. Em junho de 2026, já enviava mais de 3,5 milhões de exemplares por mês e havia ultrapassado 325 milhões de livros distribuídos em cinco países.

Antes disso, a fundação de Dolly Parton havia criado um programa que oferecia dinheiro a estudantes caso eles e seus colegas concluíssem os estudos. Segundo a organização, a taxa de abandono escolar das turmas participantes caiu de 35% para 6%. Após os incêndios de 2016 no Tennessee, outro fundo ligado à artista distribuiu cerca de US$ 12 milhões diretamente a famílias que perderam suas casas.

Dolly também teve impacto direto na área da saúde. O nome de Dolly Parton aparece nos créditos de financiamento dos primeiros estudos da vacina da Moderna contra a Covid-19. Isso porque uma doação de US$ 1 milhão feita pela artista à Vanderbilt University ajudou a custear pesquisas que participaram do desenvolvimento e dos testes iniciais do imunizante.

Anos antes, ela já havia destinado US$ 1 milhão ao programa de câncer pediátrico do Monroe Carell Jr. Children’s Hospital at Vanderbilt, instituição que continuou apoiando ao longo da vida. Em 2026, o East Tennessee Children’s Hospital passou a se chamar Dolly Parton Children’s Hospital, em uma parceria voltada ao atendimento pediátrico na região onde ela cresceu.

A produtora secreta de Buffy e a improvável entrada no rock

Outra parte menos conhecida da carreira aconteceu na televisão. Dolly foi cofundadora da produtora Sandollar Productions, envolvida no filme de 1992 e posteriormente na série “Buffy, a Caça-Vampiros”. Embora seu nome não aparecesse como produtora nos créditos da série, a empresa participou diretamente do desenvolvimento do projeto. A protagonista Sarah Michelle Gellar contou ainda que Dolly enviava presentes de Natal ao elenco.

A relação de Dolly com gêneros musicais também produziu um dos episódios mais curiosos de seus últimos anos. Indicada ao Rock & Roll Hall of Fame em 2022, ela tentou retirar o próprio nome da disputa porque considerava que ainda não havia feito música suficiente dentro do rock. O Hall manteve sua candidatura e Dolly acabou eleita na categoria Performer.

Em vez de simplesmente aceitar a homenagem, ela transformou a situação em projeto artístico. No ano seguinte, lançou “Rockstar”, álbum em que entrou de vez no repertório do gênero. Era um gesto típico de uma carreira construída dessa maneira: quando Dolly Parton achava que ainda não tinha conquistado um lugar, sua resposta era trabalhar até sentir que ele também lhe pertencia. Ao longo de oito décadas de vida, ela transformou essa postura em uma obra que ultrapassou a música e chegou à educação, à saúde, à televisão, aos negócios e à comunidade onde cresceu.

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