O BaianaSystem chega a um novo momento de carreira em que a música deixa de ser o único eixo e passa a funcionar como parte central de um sistema maior de criação. Nos últimos meses, a banda tem se movimentado entre trilhas originais para audiovisual, parcerias com marcas, intercâmbios internacionais e até projetos expositivos, sinalizando um reposicionamento que vai além do formato tradicional de um grupo musical.
Esse movimento ganha forma de maneira mais clara com o lançamento de “Línguas e Léguas”, opereta criada para a segunda temporada da série “Cangaço Novo”, do Prime Video. A obra, com mais de 10 minutos e dividida em diferentes momentos, reforça uma característica que já vinha sendo construída ao longo da trajetória: a relação direta entre som, imagem e narrativa. Não se trata apenas de uma música inserida em uma produção audiovisual, mas de uma peça pensada como parte da dramaturgia.
A integração e a conexão estão no DNA do projeto. Russo Passapusso representa a linguagem “sound system” do projeto. O conceito visual também se agrega, com a direção visual de Filipe Cartaxo e Seko no baixo. Os quatro artistas formam o núcleo criativo da banda. A formação atual do grupo conta ainda com Claudia Manzo (vocais), João Meirelles (beats, synths e programações), Junix 11 (guitarra), maestro Ubiratan Marques (piano e synths), Ícaro Sá (percussão) e Elivan Almeida (bailarino). Ao redor dessa base, circulam colaboradores recorrentes em diferentes frentes, e eventualmente ainda se somam bateria, metais e outros artistas.
Prova da sua multiplicidade é que, ao mesmo tempo, a banda avança em frentes que dialogam com circulação cultural e troca internacional. Um dos exemplos recentes é o intercâmbio com o Carnaval de Notting Hill, em Londres, que conecta Salvador ao Reino Unido em um projeto que envolve pesquisa, colaboração artística e apresentações nos dois territórios. A iniciativa apontou para o papel do grupo como articulador de redes culturais, especialmente dentro da diáspora afro-atlântica, em uma conexão direta com o British Council.
Essa expansão também alcança o campo das experiências imersivas. Está em desenvolvimento uma exposição inspirada no álbum “O Mundo Dá Voltas”, prevista para estrear em 2027, que propõe uma leitura multissensorial da obra. A ideia de transformar um disco em instalação física indica um interesse em desdobrar o repertório para além da escuta, criando novos pontos de contato com o público.
Outro eixo que ganha força é a produção de conteúdo e o uso das plataformas digitais como espaço narrativo contínuo. Com presença mais ativa em canais como o YouTube, o grupo passa a expor bastidores, processos criativos e arquivos acumulados ao longo dos anos, aproximando o público da construção das obras e reforçando uma lógica documental dentro da própria carreira.
Na entrevista a seguir, Russo Passapusso detalha com exclusividade ao Mundo da Música como essas frentes se conectam dentro de uma estratégia de longo prazo, os critérios para parcerias com marcas e plataformas e como o BaianaSystem equilibra projetos comerciais e autorais sem abrir mão da identidade artística.
Por Dentro da Estratégia: BaianaSystem
Mundo da Música: Nos últimos projetos, o BaianaSystem passou a ocupar espaços que vão além da música, como campanhas com marcas e trilhas para audiovisual. Isso já fazia parte de um planejamento de longo prazo ou foi uma resposta a oportunidades que começaram a surgir?
Russo Passapusso: Sempre foi parte do planejamento em longo prazo do BaianaSystem. O Baiana nasceu não como esfera de banda, mas como uma manifestação; a necessidade da guitarra baiana de Roberto Barreto, com a arte visual de Filipe Cartaxo, com o envolvimento de produção de Seko Bass, com essa provocação que Russo Passapusso faz dentro da história, que é essa relação do sound system, com samba, com música brasileira, com a pesquisa musical, falando de todo o ambiente, do aspecto mesmo das manifestações, dos movimentos musicais, Tropicália, Mangue Beat, samba reggae. Isso aí já é um caminho que mostra que o BaianaSystem sempre falou desse lado multidisciplinar artístico.
A matriz é uma guitarra baiana. Por exemplo, posso responder essa pergunta da seguinte forma: o BaianaSystem não é só Baiana por causa da guitarra baiana e system só por causa do sound system. É Baiana por causa da cultura baiana e system por causa do sistema de convivência. Esses sistemas todos que envolvem a gente: os religiosos, os sociais, os espirituais, essas relações, os capitalismos, os socialismos, tudo que envolve a gente como existência no meio em que a gente faz arte, entende? Então isso já responde muito que o simbolismo do Baiana sempre foi algo para se ver, não só de perto, mas também à distância. É aquela imagem que também se revela quando você vê à distância, no meio do tempo.
A preocupação da gente com a nossa discografia é justamente essa: contar uma história em vida para quem não vai estar mais aqui. A gente está vendo esse processo por dentro da caverna também. Então isso é natural, e a gente fica muito feliz porque foi abraçado. A gente fica muito feliz porque fazer música para novela ou para uma peça, um espetáculo de dança, esse entendimento de que a música, a arte que a gente faz transita em outros ambientes é muito importante para o entendimento do próprio BaianaSystem.

Mundo da Música: Quando vocês entram em projetos com marcas ou plataformas como a Amazon, quais são os critérios para garantir que a identidade do BaianaSystem não seja diluída? O que faz vocês aceitarem ou recusarem uma parceria?
Russo Passapusso: É muito importante defender essa relação artística, essa independência, essa identidade, porque não é da gente, porque a gente cultua os mestres, porque a gente compõe e tá sempre falando de referências. Então, se não respeitar inicialmente o BaianaSystem, que tá ali fazendo a interface, não vai estar respeitando tudo que fez a gente num processo de continuidade. Cito como exemplo, se não respeitar a propriedade do BaianaSystem ao fazer uma peça como “Línguas e Léguas” para o “Cangaço Novo”, dentro de uma visão de entendimento de uma criminologia nordestina, desses setores que se cruzam e que falam sobre esse processo, esse tipo de gente, não vai estar representando tudo em que a gente mergulhou.
Quando eu falo sobre as referências disso serem Sérgio Ricardo, Glauber Rocha, Nação Zumbi, Baile Perfumado, Shiko, quadrinista, e todas as pessoas que a gente viu, ouviu e cultuou para fazer esse material. Então, é mais do que se defender, é defender o que fez a gente chegar até aqui. O que a gente preza, sendo bem específico, é a poesia, a integridade da visão artística e poética do BaianaSystem, porque já está tudo dentro da poesia: a nossa visão social, porque a gente luta com isso, com emoção. A nossa visão espiritual está ali dentro. Então, se a pessoa respeita essa poética, ela já vai estar meio caminho andado.
Mundo da Música: O fato de o Russo também estar produzindo conteúdo para o YouTube, por exemplo, aponta para uma presença mais direta e contínua com o público. Como vocês estão pensando essa construção de narrativa fora dos lançamentos tradicionais?
Russo Passapusso: A gente está sempre num processo de fio da meada, como numa discografia, escrevendo a nossa história no tempo através das mídias presentes, com os desafios das características de cada mídia. A gente é muito do físico, escrevendo da seguinte forma: dentro desse meio virtual, colocando o nosso material e sempre com visões fincadas no documental para que a gente não perca a realidade, o que se é, o que se é feito dentro do processo. É a força do documental que faz a gente estar presente e construir cada vez mais, como você bem citou, estamos no YouTube, é a força de mostrar como se faz, como é o dia a dia.
A gente acha que o público tem que ver isso, é um trabalho que o público às vezes só vê o cantor cantando, fazendo e tal, e não sabe que aquilo ali às vezes é o descanso, é lindo. Quando está no palco, é o descanso porque o trabalho é o que se faz antes até chegar ali. Como eu falei da parte virtual, eu falo também da parte orgânica, essa parte que se pega, os livros, os álbuns, as máscaras, as obras de arte, as exposições, isso tudo existe no BaianaSystem e a gente guarda muito, porque a gente trabalha com arquivo há muito tempo. Nesses 17 anos de Baiana a gente tem muito material de caderno, de livro, de fichário. Tudo arquivado, esperando o tempo natural de aparecer. As coisas têm seu tempo, e a gente respeita muito isso.
Mundo da Música: Existe uma mudança clara na forma como a música circula hoje, com mais peso para audiovisual, plataformas e experiências híbridas. Como isso impacta as decisões criativas e estratégicas do BaianaSystem hoje?
Russo Passapusso: Impacta mesmo no molde, na raiz da questão. Realmente, hoje tudo é audiovisual e a gente não pode perder a visão do simbolismo, entrar no imediatismo múltiplo da forma de fazer a coisa ser comunicada, nos apelos dos algoritmos, nas formas de desdobramento que vão fazendo às vezes a coisa se desmanchar. É como o Bauman fala, né? A gente não pode ficar líquido. A gente tem que ficar sólido dentro do nosso entendimento do que a gente quer comunicar. Então, por mais que dentro das redes hoje a gente trabalhe com os formatos e com a lógica algorítmica, com a qual é impossível lutar contra dentro dos processos de lançamento, com plataformas, com o melhor dia de lançar isso ou aquilo, a gente pesa se mais vale o dia que as pessoas vão ouvir porque o algoritmo vai empurrar, ou se aquele dia é mais importante porque a gente sente, porque representa por exemplo o Dia da Independência da Bahia ou é o 2 de fevereiro, que pra gente é muito forte.
Então a gente abre mão do entendimento daquilo ter que sair no dia 3, por exemplo, porque vai ser melhor pra ser divulgado. A gente acredita muito no potencial do nosso público, das pessoas que já conhecem, de terem essa leitura. E a gente não caminha sempre com a ideia de que tem que ter muitos comentários, muitas pessoas ouvindo ou aquilo tem que ser pulverizado em larga escala. Esse entendimento de que tem que ser pulverizado, de tem que ser incrível e de tem que ser pra mais pessoas ouvirem, de que isso é a vontade de todo artista etc., é a diferença, a dose do antídoto e do veneno. A gente entende muito isso. Acho que essa é uma boa figura para explicar o como a gente faz esse processo entre as plataformas e tal. A gente acredita muito em ter equilíbrio dentro disso. E é claro que o Baiana, em muitas dessas questões, tende a fazer a coisa mais pelo conceito, naturalmente, do que pela vontade daquilo ali se tornar viral.

Mundo da Música: Esses movimentos indicam uma diversificação de receitas e frentes de atuação. Como vocês equilibram projetos que têm um viés mais comercial com aqueles que nascem de forma mais experimental ou autoral?
Russo Passapusso: Longo prazo é a palavra que faz a gente respirar nos projetos que são mais experimentais e autorais. É isso que faz a coisa ter espaço para que a arte se faça de uma forma mais completa. Os nossos álbuns geralmente são feitos muito no formato de longo prazo. “O Futuro Não Demora”, que fala de tempo também, “O Mundo Dá Voltas”, sobre espaços também. “Oxeaxeexu”, na pandemia… A gente consegue ter uma proteção grande disso.
Acho que a própria Bahia, Salvador, a vivência da gente no Nordeste, o entendimento da gente de fora para dentro, dentro dessa ideia centralizada de que é a partir de São Paulo e Rio que se pulveriza a comunicação. Isso pra gente é importante, saber separar o tempo de produção, onde a gente vai estar em longo prazo e curto prazo. Aí eu vou agora pro desafio. Claro que às vezes chegam projetos que são de curto prazo e são projetos conceituais incríveis. O próprio “Cangaço Novo” é um exemplo disso. Então a gente trabalha da seguinte forma: se a gente conseguir fazer algo artisticamente viável para aquele projeto que tem curto prazo, um projeto mais comercial, a gente faz. Se não conseguir, a gente não topa. Em outras palavras, se eu conseguir fazer uma música, se o Baiana consegue fazer uma arte, se a gente consegue fazer um audiovisual para aquele projeto, e a gente mostra e fica bom tanto para a gente quanto para quem ofereceu a parceria, como o “Cangaço Novo”, que é o grande exemplo disso tudo agora, mas tem diversos outros, a gente coloca ali e faz. Senão, a gente não topa o projeto, porque isso pode ser muito arriscado.
O comercial pode arriscar o entendimento do público frente ao que é BaianaSystem. Então a gente produz primeiro a arte para ver se ela se encaixa ou não na visão comercial da história. A gente não topa antes de produzir artisticamente o material, antes de conseguir mostrar. Isso defende a gente. E sobre receita, aí é o mundão, né? Deus e o Diabo na Terra do Sol. A gente tem que fazer realmente cada vez mais as formas conceituais e o entendimento de BaianaSystem serem comerciais e viáveis para o mundo. As pessoas compreenderem que a gente precisa, por ser um processo muito coletivista e com muita gente, que representa muitas referências e esse ar de continuidade, a gente conseguir fazer o mercado entender, como uma música como “Sulamericano” numa novela, uma peça como “Línguas e Léguas”, no “Cangaço Novo”, que tem um desdobramento, que tem Nadja, que é uma cantora maravilhosa, que tem Cicinho, e a pessoa mergulhar ali e ver um mundo de coisas acontecendo, isso ser viável comercialmente…
Ou com projetos de publicidade, como foi agora com a Neoenergia, de estar junto Alceu, compondo a música, fazendo o processo, ou com a Natura, em que a gente teve que pesquisar as notas do fundo do mar para fazer uma canção em cima disso… São campanhas que vêm dentro desse entendimento e tornam tudo mais bonito, mais palpável. “As coisas feitas depressa pedem para ser esquecidas”, disse Émile-Auguste Chartier.
Mundo da Música: O BaianaSystem sempre teve um posicionamento muito forte ligado a território, discurso e coletivo. Como manter essa base enquanto a carreira ganha novas camadas e dialoga com players maiores do mercado?
Russo Passapusso: Acho que essa é uma continuação viável pra última pergunta. Como a gente faz isso? Pelo amor à arte. Essa resposta, primeiro, é muito simples, o amor à arte, a proteção à arte. E agora que o mercado entende o BaianaSystem e quer dialogar com esse tipo de coisa. E que seja cada vez mais dentro dessa história entendível, porque você entender coletivismo, e o mercado querer conversar com coletivismo, é saber que vai passar por várias pessoas e vários referenciais. E isso é maravilhoso.
A gente gosta muito disso e faz, identificando o por que de essas instituições, essas marcas estarem querendo atrelar a imagem, a mensagem, o espaço e o território delas ao que o BaianaSystem propaga enquanto arte. Fazendo essa leitura nesse ponto, a gente consegue saber até onde a gente vai, até onde vai o passo do Baiana em relação a isso. A gente fica feliz e é um momento positivo porque as marcas já estão procurando o Baiana por uma visão de mundo que a gente teve até agora em relação a isso, à arte e comércio, estar nos festivais, estar tocando nas coisas, ter colocado músicas dentro de outras expressões artísticas e também de publicidade, de “publicidarte”, de provocações.
O Carnaval é o grande monumento disso. Então já vem com um briefing que se encaixa perfeitamente na potência e na força do que o Baiana faz. E é um sistema de retroalimentar a coisa e reenergizar porque o quanto mais a gente fincar a bandeira, mergulhar dentro dessa expressão que é do BaianaSystem com essa relação de coletivismo, essa relação Abya Yala, de América Latina, de força de comunicação híbrida, multidisciplinar artisticamente, de um audiovisual simbólico, de todas essas expressões que a gente vê no Baiana, é até difícil ficar falando uma ou outra… A representação da catarse de público, o entendimento do “eu multidão”, de uma banda de caminhão…. Quanto mais a gente mergulha nisso, mais a gente tá tornando visível, acendendo as luzes do que naturalmente provoca a curiosidade e pede que o comércio, que as marcas queiram fazer projetos com a gente.
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