A União Brasileira de Compositores (UBC) lançou o relatório “Mapa da Música Eletrônica no Brasil”, estudo inédito que reúne dados de mercado, entrevistas e análise sobre um dos segmentos mais ativos da música brasileira em 2025. O material foi desenvolvido em parceria com a Brazil Music Conference (BRMC) e será apresentado no Hot Beats Music Conference, nesta quinta-feira, 21 de maio, no Hotel Nacional do Rio de Janeiro.
O estudo foi assinado por Camilo Rocha, Claudio da Rocha Miranda Filho e Mauricio Soares, profissionais ligados à cena eletrônica por diferentes frentes, como jornalismo, produção, curadoria, eventos e estratégia. A proposta não é funcionar como um censo estatístico, mas como uma fotografia de mercado, reunindo sinais sobre artistas, público, eventos, circulação internacional, patrocínio, plataformas e direitos autorais.
O ponto de partida é claro: o Brasil já não aparece apenas como consumidor de tendências vindas de fora. O país passou a exportar DJs, produtores e sonoridades, com nomes nacionais ocupando line-ups de festivais globais e criando uma cena menos dependente de atrações internacionais para movimentar grandes públicos.
Brazilian Storm, público fiel e força dos artistas nacionais

O relatório chama esse movimento de “Brazilian Storm”, em referência à ascensão de DJs e produtores brasileiros que passaram a disputar atenção com artistas estrangeiros. Entre os nomes citados estão Alok, Vintage Culture, Mochakk, Liu, ANNA, Clementaum e Cashu, que aparecem como exemplos de uma geração com presença em festivais, plataformas e turnês fora do país.
A análise também organiza uma espécie de pirâmide da música eletrônica brasileira. No topo, aparecem artistas com mais de 1 milhão de seguidores no Instagram e carreira forte dentro e fora do Brasil, como Alok, Vintage Culture, Mochakk e Liu. Em seguida, o estudo cita nomes com presença consistente, como Bhaskar, ANNA, Dubdogz e Kvsh, além de artistas do chamado “midstream”, como Clementaum, Badsista e Curol.

O público é outro eixo central. Segundo o levantamento, fãs de música eletrônica no Brasil ouvem mais de 16 horas semanais do gênero. Uma pesquisa da Play BPM, citada no relatório, mostra que 22% dos respondentes foram a mais de dez eventos em 2024, enquanto mais de 60% viajaram para outros estados para assistir a festivais.
Esse comportamento ajuda a explicar por que a música eletrônica se conecta com turismo, moda, gastronomia, redes sociais e consumo de experiências. Ao mesmo tempo, o estudo aponta uma virada geracional: parte da descoberta musical, antes ligada a clubes e pistas, hoje passa por vídeos curtos, Instagram, TikTok e momentos pensados para circular online.
Dados, patrocínio e direitos autorais no centro da discussão

Apesar do avanço, o relatório da UBC também mostra gargalos. A lista inclui custos altos de produção, câmbio desfavorável, dificuldade para captar patrocínios fora de bebidas e energéticos, concentração em grandes festivais e falta de dados estruturados sobre faturamento, execução pública e impacto econômico do segmento.
Ou seja, isso cria uma divisão entre o topo do mercado, com grandes turnês, labels internacionais e festivais consolidados, e a base da cena, formada por festas menores, clubes, coletivos e eventos autorais. Esses espaços são fundamentais para revelar artistas e testar linguagens, mas enfrentam mais dificuldade para se sustentar.
A relação com o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) também aparece como tema sensível. O estudo reconhece a legitimidade da arrecadação de direitos autorais, mas aponta a necessidade de mais aproximação com a comunidade eletrônica, especialmente por causa de formatos como sets, remixes, mashups e eventos menores.
Marcelo Castello Branco, diretor executivo da UBC, afirma que o estudo tem papel direto nesse diálogo com o mercado:
“A música eletrônica é um segmento de grande relevância também econômica e cultural, movimentando globalmente mais de 15 bilhões em toda sua cadeia de eventos. Por isso um estudo e consequente diagnóstico do seu status no Brasil tem muito impacto no nosso setor. Temos enormes desafios de uma correta arrecadação e mais ainda distribuição e este diálogo aberto e franco com o mercado é o caminho mais curto para aproximar distâncias e buscar novas instâncias de colaboração conjunta. O estudo comissionado pela UBC tem este papel, como sociedade de gestão coletiva líder e como maior representante deste repertório internacional e nacional”, avalia.
Para Claudio da Rocha Miranda Filho, o estudo busca oferecer ferramentas para decisões de mercado.
“O Mapa da Música Eletrônica buscou oferecer contexto e perspectiva, reunindo elementos críticos para a compreensão do mercado, de forma a instrumentalizar os tomadores de decisão de todo o ecossistema”, afirma.
O relatório ainda aponta oportunidades em colaborações entre artistas brasileiros e internacionais, cruzamentos da eletrônica com funk, pop, sertanejo e MPB, além de novas praças fora do eixo São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Para a UBC, o diagnóstico indica que a cena já tem público, artistas e repertório. O próximo passo é organizar melhor os dados, os direitos e a estrutura econômica que sustenta esse crescimento.
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