Anita Carvalho lançou a 5ª edição da Pesquisa Empresariamento Artístico com um dado que ajuda a dimensionar uma das principais desigualdades do mercado musical brasileiro: nenhuma artista mulher da amostra declarou faturar acima de R$ 10 mil mensais com shows. Entre os homens, 17,2% chegaram a essa faixa.
Produzido em parceria com o Laboratório de Economia Criativa da Escola Superior de Propaganda e Marketing (LEC/ESPM), o estudo foi realizado entre fevereiro e março de 2026 com 198 profissionais do setor. A pesquisa é conduzida desde 2017 e chega à quinta edição como uma das poucas séries históricas contínuas sobre gestão de carreiras artísticas no Brasil.
O novo relatório foi apresentado na Casa UBC, no Rio de Janeiro, e trouxe pela primeira vez um recorte de gênero. A análise ajuda a mostrar que as diferenças não aparecem apenas entre artistas, mas também na estrutura de empresariamento, nos modelos de trabalho e no acesso a faixas mais altas de faturamento.
Gênero expõe diferença de escala no mercado

Segundo a pesquisa, as mulheres representam 44% do total de empresários e produtores entrevistados. À primeira vista, o número sugere certo equilíbrio. Mas a divisão muda quando o estudo separa profissionais independentes e escritórios estruturados.
Entre empresários e produtores independentes, as mulheres são maioria, com 51,1%. Nos escritórios, que concentram os maiores faturamentos, a presença feminina cai para 37%. A diferença aparece também na escala do negócio: 71,4% dos escritórios faturam acima de R$ 20 mil mensais, contra 36,4% das profissionais independentes.
Anita Carvalho resume o ponto central do recorte de gênero:
“O modelo independente parece ser a porta de entrada predominante das mulheres no empresariamento artístico, mas é também o modelo de menor faturamento”, compara.
Entre artistas, a diferença fica ainda mais direta. Nenhuma mulher declarou faturar acima de R$ 10 mil por mês com shows, enquanto 17,2% dos homens atingem esse patamar. Ainda assim, as artistas mulheres apresentam satisfação superior à dos homens, com nota de 2,77 em 5, contra 2,34.
Esse cruzamento revela um paradoxo importante: as mulheres demonstram maior satisfação subjetiva com a carreira mesmo quando aparecem em faixas menores de retorno financeiro. Para o mercado, o dado mostra que falar de desigualdade de gênero na música não é apenas discutir presença, mas entender onde essas profissionais conseguem chegar em termos de estrutura, receita e acesso a oportunidades.
Artistas estão menos satisfeitos com a carreira
A pesquisa também registra o menor índice de satisfação dos artistas desde o início da série histórica. Em 2025, a nota média ficou em 2,48 em uma escala de 5. Em 2021, era 2,9.
O dado chama atenção porque a amostra reúne profissionais experientes, com tempo médio de carreira concentrado entre 10 e 30 anos. Ou seja, a insatisfação não está restrita a artistas em início de trajetória. Ela aparece em um grupo que já conhece o funcionamento do setor e, em muitos casos, já passou por diferentes fases do mercado.
A principal fonte de renda também mudou. Em 2019, os shows ao vivo eram apontados como principal receita por 57% dos artistas. Em 2025, esse percentual caiu para 21,4%. Ao mesmo tempo, 50% declararam que sua principal fonte de renda vem de atividades fora da música, como emprego formal, outra profissão ou aposentadoria.
O dado ajuda a explicar por que a retomada do mercado ao vivo não resolve, sozinha, a vida financeira dos artistas. Os shows podem ter voltado a movimentar a economia da música, mas essa receita não chega de forma equilibrada a todos os profissionais.
Ter empresário melhora indicadores, mas ainda é exceção

Outro ponto da pesquisa é o impacto da representação profissional. Artistas com empresários registram maior satisfação com a carreira, com nota de 3,2 contra 2,38 entre aqueles sem representação.
O grupo representado também realiza mais shows: todos fazem ao menos uma apresentação remunerada por mês. Entre artistas sem empresária, 47% realizam menos de um show remunerado mensal. O acesso a editais de fomento também aparece em condição melhor entre quem conta com representação.
O problema é que apenas 12,5% dos artistas da amostra têm empresário. Além disso, encontrar um empresário ou produtor aparece empatado como a segunda maior dificuldade relatada pelos artistas, atrás apenas da capacidade de investir financeiramente no próprio projeto.
Isso mostra uma contradição do setor: a representação profissional melhora indicadores importantes, mas ainda é pouco acessível. Na prática, muitos artistas precisam lidar sozinhos com planejamento, negociação, gestão financeira, divulgação, editais e estratégia de carreira.
Comissão segue como ponto de tensão
A relação entre artistas e empresários também passa por uma diferença cada vez maior de percepção sobre comissões. Os empresários cobram, em média, 25,5% sobre as receitas dos artistas, mas consideram que o percentual justo seria 32%.
Do lado dos artistas, a régua é mais baixa. O percentual considerado justo para pagar caiu de 28% em 2021 para 23,7% em 2025. A diferença mostra que os dois lados continuam enxergando o valor da mediação profissional de formas distintas.
Em outra fala sobre a importância da série histórica, Anita Carvalho afirma:
“Pouquíssimos estudos no mercado da música conseguem acumular dados de forma contínua. Isso nos permite observar transformações reais e desafios que persistem”, analisa.
A continuidade da pesquisa ajuda justamente a separar problemas pontuais de tendências de longo prazo. Ao reunir dados sobre gênero, receita, satisfação, comissões e formalização, o relatório mostra um mercado em transformação, mas ainda marcado por desigualdades de escala, falta de acesso à gestão profissional e uma distância entre expectativa e entrega nas relações de empresariamento.
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