Aos 78 anos, Guto Graça Mello morre no Rio e deixa marca em trilhas, novelas e discos da MPB

Produtor e diretor musical, Guto Graça Mello deixa um legado que atravessa novelas, discos da MPB e a memória sonora da TV brasileira.
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Nathália Pandeló
Guto Graça Mello
Guto Graça Mello

O nome de Guto Graça Mello atravessa algumas das camadas mais populares da música brasileira. O produtor e diretor musical morreu nesta terça-feira, 5 de maio, no Rio de Janeiro, aos 78 anos, após uma parada cardiorrespiratória. Ele estava internado havia mais de um mês no Hospital Barra D’Or, na Barra da Tijuca, depois de sofrer uma queda.

Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, Guto ajudou a moldar a relação entre música, televisão e mercado fonográfico no Brasil. Sua trajetória passou por trilhas de novelas, temas de programas, discos de artistas centrais da Música Popular Brasileira e projetos que mostraram como a TV podia transformar canções em fenômenos de alcance nacional.

O produtor deixa a esposa, a atriz Sylvia Massari, duas filhas e dois enteados. Também deixa uma obra que se confunde com a memória afetiva de diferentes gerações, especialmente pela presença constante de suas trilhas em novelas da TV Globo e pelo tema de abertura do “Fantástico”, uma das assinaturas sonoras mais conhecidas da televisão brasileira.

Da formação artística à televisão

Nascido no Rio de Janeiro, em 29 de abril de 1948, Augusto César Graça Mello cresceu em uma família ligada às artes. Filho dos atores Stella Graça Mello e Octávio Graça Mello, ele conviveu desde cedo com rádio, teatro e televisão. Chegou a iniciar o curso de arquitetura na Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ, mas deixou a graduação para seguir na música.

Antes de se tornar um dos nomes centrais da produção musical na TV, estudou violão, passou pela ProArte e começou a compor ainda nos anos 1960. Em parceria com Mariozinho Rocha, teve músicas gravadas por artistas como Elis Regina e Nara Leão, dois nomes que ajudam a dimensionar a entrada de Guto no circuito da música brasileira.

A chegada à Globo aconteceu em 1972, como produtor musical do programa “Viva Marília”, comandado por Marília Pêra. No ano seguinte, assinou sua primeira trilha de novela, “Cavalo de Aço”, ao lado de Nelson Motta. A partir dali, passou a ocupar um espaço que seria cada vez mais importante dentro da televisão: o de pensar a música como parte da narrativa e também como produto de grande circulação.

As trilhas que viraram fenômeno

Guto Graça Mello - Crédito Isabella Espíndola
Guto Graça Mello – Crédito: Isabella Espíndola

Guto Graça Mello foi um dos responsáveis por transformar as trilhas de novelas em um negócio forte no Brasil. Em vez de funcionar apenas como fundo musical, as canções passaram a acompanhar personagens, marcar cenas e ganhar vida própria fora da televisão. Esse movimento ajudou a aproximar a audiência de artistas, discos e repertórios que chegavam às casas brasileiras pela dramaturgia.

Na década de 1970, sua assinatura esteve ligada a novelas como “Gabriela”, “Pecado Capital”, “Saramandaia” e “Estúpido Cupido”. Em “Gabriela”, por exemplo, encomendou a abertura a Dorival Caymmi e apostou em “Alegre Menina”, música feita por Djavan a partir de um poema de Jorge Amado. O resultado ajudou a conectar literatura, televisão e música em uma mesma experiência popular.

Um dos episódios mais lembrados de sua trajetória aconteceu em “Pecado Capital”, em 1975. Chamado às pressas pouco antes da estreia, Guto montou praticamente todo o repertório em poucos dias e encomendou a abertura a Paulinho da Viola, que criou “Dinheiro na Mão é Vendaval”. O caso virou exemplo de como a urgência da televisão podia gerar decisões musicais de grande impacto.

Som Livre, artistas e mercado fonográfico

O trabalho de Guto também foi central para a Som Livre, gravadora ligada ao grupo Globo. Ao lado de João Araújo, ele ajudou a estruturar um modelo em que as trilhas de novelas não apenas acompanhavam o sucesso da TV, mas também movimentavam vendas, rádio e carreiras. Era uma ponte direta entre o horário nobre e as prateleiras das lojas de discos.

Nesse período, a gravadora passou a contratar e projetar artistas que se tornariam nomes importantes da música brasileira, como Djavan, Moraes Moreira, Jorge Ben Jor, Cazuza e Lulu Santos. A força das novelas funcionava como vitrine. Para o público, uma música podia nascer associada a um personagem. Para o artista, essa exposição podia mudar o tamanho de uma carreira.

Ao todo, Guto produziu mais de 500 discos. Entre eles, trabalhos ligados a Rita Lee, Roberto Carlos, Maria Bethânia e Xuxa Meneghel. O primeiro álbum de Xuxa, produzido por ele, vendeu milhões de cópias e marcou outro campo de atuação do produtor: a música infantil e televisiva como produto de massa, em um momento em que a televisão ainda era o principal motor de popularidade no país.

Cinema, memória e legado

Fora da televisão e dos discos, Guto Graça Mello também trabalhou no cinema. Ele compôs trilhas para mais de 30 longas-metragens, incluindo “O Beijo no Asfalto”, “A Estrela Sobe”, “Cazuza”, “Se Eu Fosse Você”, “High School Musical: O Desafio” e “Nosso Lar”. Sua atuação mostrava uma capacidade rara de circular entre formatos diferentes sem perder o sentido narrativo da música.

Na carreira, também venceu o Latin Grammy na categoria Melhor Vídeo Musical Versão Longa. A premiação se soma a uma trajetória que não depende apenas de troféus para ser medida. O peso de Guto está, sobretudo, no modo como ele ajudou a organizar uma escuta coletiva no Brasil.

Sua morte encerra uma história pessoal, mas também chama atenção para uma fase em que televisão, gravadora e música popular funcionavam de maneira profundamente conectada. Em um mercado hoje guiado por streaming, redes sociais e consumo fragmentado, a obra de Guto Graça Mello lembra que trilhas sonoras já foram uma das principais portas de entrada para o público descobrir artistas, canções e repertórios inteiros.

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