Dia Internacional do Jazz: artistas brasileiros refletem sobre o futuro do gênero entre tradição, mercado e novas linguagens
O jazz no Brasil vive um momento de renovação com a nova geração, festivais espalhados pelo país e artistas que reposicionam o gênero dentro e fora do mercado global.
Nathália Pandeló
Tempo de leitura: 8 min
Bia Ferreira, Juliane Gamboa, Amaro Freitas, Jonathan Ferr, Zudizilla (Créditos: Fred Conceptual, Isabela Espíndola, Micael Hocherman, Victória Bortolato e Guilherme Schaffe, respectivamente)
O jazz no Brasil passa por um momento curioso. Ao mesmo tempo em que cresce em visibilidade, circulação e público, ainda carrega contradições profundas sobre acesso, pertencimento e mercado. O gênero que nasceu como expressão popular e negra nos Estados Unidos, ligado à improvisação e à vida urbana, percorreu um caminho que o levou a ambientes mais restritos. Agora, parece iniciar um novo ciclo.
Essa transformação não acontece por acaso. Ela envolve uma nova geração de artistas, um circuito de festivais mais amplo, o fortalecimento de casas especializadas e, principalmente, uma mudança na forma como o jazz é entendido. Mais do que um estilo, ele passa a ser tratado como linguagem, aberta a misturas e conectada com o presente.
Não por acaso, esse debate ganha força justamente no Dia Internacional do Jazz, celebrado em 30 de abril e criado pela UNESCO para destacar o papel do gênero como linguagem global de diálogo e conexão cultural. A data funciona como um termômetro desse momento: ao mesmo tempo em que o jazz é celebrado institucionalmente, ele também passa por um processo de transformação na base.
Do jazz global ao sotaque brasileiro
O jazz chega ao Brasil no início do século XX, junto com discos e partituras vindos dos Estados Unidos. Desde o começo, porém, ele não se instala como cópia. Ao contrário, entra em diálogo direto com gêneros locais como choro, samba e maxixe.
Esse movimento de troca ganha força ao longo das décadas, especialmente com a bossa nova, que consolida uma ponte entre Brasil e Estados Unidos. A partir daí, o país passa a ocupar um lugar próprio dentro do jazz global, não apenas como receptor, mas como produtor de linguagem.
Hoje, essa lógica se mantém, mas com outra intensidade. Para Amaro Freitas, atração do Festival Salvador Jazz, essa transformação precisa ser entendida a partir de uma contradição histórica:
“Ao mesmo tempo que o jazz é uma música que foi feita pela quebrada, vamos dizer assim, uma música que foi feita pelo povo preto americano, pelas pessoas pobres, pelas pessoas escravizadas, hoje o jazz se tornou uma música elitista. É uma música que foi criando um mercado em volta dela, onde a galera da quebrada não tem acesso, porque ela virou uma outra coisa, virou uma coisa sofisticada.”
Esse deslocamento ajuda a explicar tanto os desafios quanto as mudanças atuais.
Nova geração: jazz como linguagem e mistura
Se existe um ponto em comum entre os artistas da nova geração, é a forma como eles lidam com o jazz. Em vez de tratá-lo como um conjunto fechado de regras, eles o utilizam como base para experimentar.
Para Juliane Gamboa, cujo álbum “JAZZWOMAN” a levou a ser indicada como Melhor Artista Revelação no Latin Grammy de 2025, essa mudança é estrutural:
“No meu trabalho e também na minha ética de vida, o jazz transborda como uma linguagem, muito mais do que como um gênero. Eu digo isso porque, mesmo dentro da história que tenta enquadrá-lo como gênero, o jazz nunca foi estático, nunca foi uma coisa só. Jazz é movimento constante. Em JAZZWOMAN, eu gosto de pensar que estou falando essa linguagem de forma direta, mas com o meu sotaque e com as referências que atravessam a minha vida, o meu território, as questões que me movem. Essa pluralidade não é um recurso estético, ela é estrutural.”
Esse olhar aparece também na fala de Jonathan Ferr, que conecta o jazz a diferentes cenas contemporâneas:
“Eu acredito muito no valor simbólico artístico-cultural do jazz. Ele guarda em si o princípio da liberdade, da escolha estética e tem esse poder de se adequar a arte local por onde é feito. O jazz de cada canto do mundo soa com sotaques distintos, e ele tem se misturado aos novos como o hip hop, à música eletrônica e outras sonoridades que conectam com novos públicos que nunca tiveram contato com o jazz tradicional, por assim dizer.”
Isso se traduz em música que cruza jazz com hip hop, eletrônico, música brasileira e outras linguagens. Para o rapper Zudizilla, que hoje realiza o show “Kind Of Zudi” no Bourbon Street, esse processo não é novo, mas ganha novas camadas:
“Uma das características do rap é a reutilização de músicas para criar um terceiro momento entre o atual e o passado na intenção de manter o legado dessas canções vivas sem necessariamente apagar a história com a falácia da ‘atualização’. A arte é contínua e eu como amante do hip hop trago isso em meu trabalho. Sou um amante do jazz e por motivos que são transversais à música, mas acho que pensar jazz mudou minha vida drasticamente. É um estilo de vida que adoto e sempre que penso em produzir algo eu sempre volto a época sagrada do gênero pra buscar recursos e ideias.”
Essa noção de continuidade ajuda a explicar por que o jazz permanece relevante mesmo fora do seu circuito tradicional.
Entre elitização e pertencimento
Apesar da expansão, o jazz ainda enfrenta uma questão central: o acesso. O gênero, que nasceu popular, passou a ser associado a ambientes mais restritos, o que cria uma barreira de entrada para novos públicos.
Amaro Freitas aponta esse paradoxo com clareza:
“O Festival Salvador Jazz, que é um festival que acontece em praça pública, ao ar livre, aberto para várias pessoas, tenta trazer um tipo de conexão dessa música com o público, oferecer isso de forma gratuita. Como Milton Nascimento diz, todo artista tem que ir onde o povo está. Se a gente quer democratizar essa música, se a gente quer tornar acessível o tipo de música criativa que vem através do jazz, a gente tem que levar isso onde o povo está.”
Essa tentativa de reconexão com o público também passa pela forma como os artistas se posicionam. Para Jonathan Ferr, isso envolve assumir identidade e ampliar o alcance:
“O jazz por muito tempo virou símbolo de status econômico e social. Isso afastou o grande público. Uma das missões que tenho em mim é aproximar essa sonoridade do grande público que não conhece jazz e música instrumental. E tô feliz porque isso tem ocorrido. Outro dia o motorista do Uber me reconheceu, e me perguntou se por um acaso eu era o pianista do TikTok [risos]. Percebi que quanto mais fui assumindo quem eu era, na minha inteireza, mais minha música vem se tornando mais autêntica e autenticidade conecta.”
Ferr cita um fenômeno recente, mas impactante: a proliferação de vídeos sobre o jazz nas redes sociais. Artistas como Samara Joy e Laufey se tornaram fenômenos entre o público jovem através do TikTok, embora adotem uma estética e sonoridade associada a décadas atrás. A popularidade rompeu fronteiras e ambas se apresentaram em festivais no Brasil. Ainda assim, essa aproximação traz novos desafios. Juliane Gamboa observa que o crescimento do público nem sempre vem acompanhado de profundidade:
“Hoje, vejo eventos lotados, com uma presença muito forte de pessoas muito mais jovens. Isso é muito positivo. Ao mesmo tempo, me faz pensar sobre a profundidade dessa aproximação. Existe, em alguns casos, um interesse mais ligado à estética, à experiência social, ao que o jazz representa como imagem, do que necessariamente à história e à potência dessa linguagem”, reflete.
Streaming e playlists ajudam a reposicionar o jazz
Se o circuito ao vivo é um dos motores dessa expansão, o ambiente digital também tem um papel direto na forma como o jazz volta a circular. As plataformas de streaming passaram a inserir o gênero em playlists que não são exclusivamente de jazz, conectando essas sonoridades a públicos que chegam por outros caminhos.
Segundo a IFPI, a Federação Internacional da Indústria Fonográfica, o streaming continua sendo o principal motor de descoberta musical no mundo, o que favorece justamente sons híbridos que transitam entre gêneros e contextos. No caso do jazz brasileiro, isso significa aparecer ao lado de rap, R&B, música eletrônica e MPB em recomendações algorítmicas.
Isso muda a porta de entrada. O ouvinte não necessariamente “procura jazz”, mas chega até ele por meio de artistas, colaborações e estéticas que dialogam com o que já consome. Esse tipo de exposição ajuda a explicar a renovação de público percebida nos últimos anos.
Ao mesmo tempo, esse ambiente também reforça a lógica apontada por Juliane Gamboa, em que o primeiro contato muitas vezes acontece pela estética ou pela experiência, antes de um aprofundamento na linguagem.
Festivais e casas: o novo circuito do jazz
A expansão recente do jazz no Brasil também passa pelo circuito ao vivo. Festivais espalhados pelo país ajudam a levar o gênero para novos públicos, enquanto casas especializadas garantem continuidade.
Eventos como o Rio das Ostras Jazz & Blues Festival, o Bourbon Festival Paraty e o Salvador Jazz se tornaram pontos importantes de circulação. Muitos deles apostam em programação gratuita e em espaços abertos, o que reduz as barreiras de acesso. O evento na capital baiana, que acontece em 30 e 31 de maio, já aguarda cerca de 15 mil pessoas nas ruas, ao longo de dois dias de apresentações.
Esse movimento é reforçado por casas como o Blue Note Rio e o Blue Note São Paulo, que criam uma agenda constante de shows e aproximam artistas e público em um ambiente mais íntimo. Outro exemplo é a Audio Rebel, referência do cenário alternativo carioca, que não deixa o jazz de fora de suas programações.
Para os músicos, essa combinação de formatos expande as possibilidades. Amaro Freitas destaca como a circulação por diferentes espaços impacta o alcance:
“Se eu tô tocando com a orquestra Percorso Ensemble em São Paulo, se eu estou tocando com um corista de Senegal, se eu estou participando de um Montreal Jazz Academy com outros músicos do mundo todo, se eu estou fazendo minha música na TV Globo, tudo isso é porque eu gosto de música, e a minha música ela se conecta com quem também gosta”, pontua o pianista.
Jazz brasileiro no mundo
Ao mesmo tempo em que se transforma internamente, o jazz brasileiro ganha espaço no cenário internacional. A presença de artistas em festivais e eventos globais comprovam essa visibilidade.
Um dos principais palcos desse circuito é o All-Star Global Concert, principal celebração do Dia Internacional do Jazz organizada pela UNESCO, que reúne hoje, em Chicago, artistas de diferentes países em apresentações colaborativas e é transmitido para milhões de pessoas ao redor do mundo. Nesta edição, nomes como Herbie Hancock e Buddy Guy dividiram o palco com músicos de diferentes gerações e origens.
Um deles é ninguém menos que a brasileira Bia Ferreira. Para ela, essa experiência tem um significado que vai além da carreira individual:
“Estar no palco do All Star Global Concert, do lado desse monte de gente, pra mim é uma honra sem tamanho, de entender que a minha arte é colocada e equiparada no mesmo patamar que esses artistas que eu admiro muito, de entender que a minha arte me trouxe nesse lugar e a música brasileira me trouxe nesse lugar. Eu não canto em outro idioma, eu canto em português, canto música brasileira. E também pra trazer essa ideia de que jazz é comunidade, de que jazz é popular, de que jazz é música negra, de que jazz é cultura de união, de que jazz é pra todo mundo.”
Esse movimento também aparece na trajetória de Jonathan Ferr, que amplia sua atuação internacional, atualmente em sua primeira passagem pela China:
“Minha manager Tânia Artur, que trabalha comigo há mais de 10 anos, é uma grande cavadora de oportunidades. Ano passado fiz alguns shows na Colômbia, e lá nos conectamos com a pessoa que nos indicou para a curadoria dos festivais, que gostaram bastante da sonoridade vanguardista da minha música e do meu piano. O que seria apenas um festival em Shangai, com minha banda, acabou virando em outro importante e tradicional festival de jazz em Pequim e outro de piano solo em Shangai.”
Esse tipo de circulação mostra que o jazz brasileiro não apenas dialoga com o mundo, mas também encontra espaço dentro dele.
Um cenário em construção
O que se desenha é um cenário em movimento. O jazz no Brasil cresce, se diversifica e se aproxima de novos públicos, mas ainda enfrenta questões estruturais importantes.
Para Zudizilla, esse processo exige disposição:
“Ainda exige coragem de quem faz e disposição de quem se propõe a lidar com dinâmicas que fogem do trivial. O jazz é pai do rap, o jazz foi marginal como o rap se tornaria futuramente e essa não pode ser a única herança passada pelo tempo.”
Já para Juliane Gamboa, o crescimento precisa ser observado com atenção:
“Quando penso nesse crescimento recente do interesse pelo jazz, eu acho importante também observar quem está sendo de fato incluído nessa narrativa e quem continua à margem dela.”
Entre expansão e tensão, o jazz brasileiro segue em transformação. Mais do que um gênero, ele se consolida como espaço de disputa simbólica, de experimentação e de construção de novos caminhos dentro da música contemporânea.