O projeto BRIDGE, da WIN (Worldwide Independent Network), joga luz sobre um dos maiores paradoxos do mercado atual: nunca se ouviu tanta música na América Latina, mas transformar esse consumo em dinheiro segue sendo um desafio.
Os novos relatórios e ferramentas divulgados pela iniciativa analisam o funcionamento do ecossistema digital em mercados emergentes e mostram, com dados concretos, onde estão os principais gargalos para empresas independentes. E a América Latina aparece como um caso emblemático.
A região vive um ciclo contínuo de crescimento, puxado principalmente pelo streaming. Ainda assim, os números mostram que essa expansão não se traduz na mesma proporção em receita, criando um descompasso que afeta diretamente artistas, selos e distribuidores.
Cecilia Crespo, gerente-geral da ASIAr, vice-presidente da WIN e integrante do comitê diretor do BRIDGE, mostra que esses dilemas não se limitam à América Latina:
“Nossos países têm populações jovens e uma grande paixão por música, o que representa um enorme potencial de crescimento. Mas esse potencial é limitado por preços extremamente baixos e desiguais dos serviços de streaming, além da dificuldade que distribuidores locais enfrentam para competir com grandes players. O desenvolvimento da inteligência artificial e o cenário de licenciamento também estão se tornando prioridades estratégicas crescentes para nossos países.”
Noemí Planas, CEO da WIN, comemorou a publicação dos recursos para um maior conhecimento dos mercados independentes:
“Depois de um ano viajando e trabalhando de perto com empresas independentes de mercados tão diferentes como Colômbia, Coreia do Sul, China, Chile e Arábia Saudita, temos orgulho de compartilhar uma visão mais clara de como esses ecossistemas musicais funcionam. Os desafios são surpreendentemente semelhantes: gravadoras independentes não têm capacidade financeira para investir e crescer, em grande parte porque a música ainda é subvalorizada, e lacunas estruturais persistem. Mas isso também significa que o potencial de crescimento é enorme.”
América Latina cresce em ritmo acelerado, mas a monetização não acompanha

Segundo o relatório da WIN, a América Latina foi a região mais dinâmica da indústria global em 2025, com crescimento de 17,1% e 16 anos consecutivos de alta. O streaming domina completamente o mercado, respondendo por 88,1% da receita de música gravada, acima da média global.
O consumo também chama atenção. A região tem uma das maiores taxas de usuários que ouvem música semanalmente, além de um tempo médio de escuta quase o dobro do registrado no mundo. Em outras palavras, o público latino é altamente engajado.
O problema aparece quando se olha para o dinheiro gerado por esse consumo. Apesar de representar cerca de 21% dos streams globais, a América Latina responde por apenas 7% da receita de streaming .
Esse descompasso tem explicações claras. O estudo aponta três fatores principais: preços de assinatura mais baixos, forte presença de modelos gratuitos com publicidade e menor gasto médio por usuário. Ou seja, significa que muita gente escuta música, mas paga pouco por isso.
Brasil lidera crescimento, mas enfrenta limites estruturais, aponta WIN

Dentro desse cenário, o Brasil aparece como um dos mercados mais relevantes da região. O país cresceu 14,1% em 2025 e entrou para o grupo dos dez maiores mercados de música do mundo, consolidando sua posição global de acordo com os dados mais recentes da IFPI.
A estrutura também é mais desenvolvida do que em outros países latino-americanos, com um ecossistema consolidado de artistas, selos e distribuidores. O consumo interno é forte e diversificado, com gêneros locais dominando as paradas e o streaming como principal motor do mercado.
Os dados ajudam a entender o tamanho desse consumo:
- O streaming representa 87% da receita de música gravada
- Cerca de 30% dos usuários são assinantes pagos
- O gasto médio anual com música digital gira em torno de US$ 18,97 por pessoa
Mesmo com esses números, o relatório aponta que o Brasil enfrenta desafios semelhantes aos do restante da região. O principal deles é a baixa monetização por usuário, o que limita o crescimento financeiro do setor.
Além disso, empresas independentes ainda têm dificuldade para competir com players globais, que operam com mais capital, tecnologia e acesso a ferramentas de marketing. Isso cria uma dependência de intermediários internacionais, especialmente na distribuição digital.
Outro ponto destacado é a dificuldade de exportação. Apesar de uma cena local robusta, transformar artistas brasileiros em nomes globais ainda é um desafio, ligado tanto a barreiras estruturais quanto à dinâmica das plataformas.
Gargalos travam o avanço dos independentes
O estudo da WIN detalha uma série de obstáculos que vão além do consumo e impactam diretamente o funcionamento do mercado.
O primeiro deles é o financiamento. As empresas independentes têm acesso limitado a capital, o que afeta desde campanhas de marketing até o desenvolvimento de artistas. Isso reduz a capacidade de competir em um ambiente cada vez mais concentrado.
Na distribuição digital, o cenário também é desigual. O estudo aponta que as distribuidoras locais têm dificuldade para competir com grandes empresas internacionais, que oferecem melhores condições comerciais, tecnologia e suporte. Como resultado, muitos players acabam dependendo dessas estruturas externas.
Outro ponto recorrente é a falta de conhecimento técnico. Questões como gestão de direitos, licenciamento e funcionamento das plataformas ainda são barreiras para parte do mercado, especialmente fora dos grandes centros.
Há também desafios mais complexos, como pirataria, sistemas de licenciamento e dificuldades em pagamentos internacionais. Tudo isso cria um ambiente mais difícil para empresas menores crescerem de forma sustentável.
BRIDGE aposta em dados e capacitação para reduzir desigualdades
É nesse contexto que o projeto BRIDGE, da WIN, se posiciona. A iniciativa busca não só mapear os problemas, mas principalmente oferecer ferramentas práticas para enfrentá-los.
O toolkit lançado reúne orientações sobre estratégias digitais, desenvolvimento de negócios e acesso ao mercado, enquanto os relatórios trazem dados detalhados por região e país. A ideia é dar base para decisões mais informadas, tanto para empresas quanto para formuladores de políticas públicas.
Mais do que apontar falhas, o estudo ajuda a reorganizar a leitura sobre o mercado latino-americano. O crescimento está dado, mas ele não é suficiente por si só.
O desafio agora passa por transformar esse volume de consumo em valor econômico real. E, nesse cenário, o Brasil aparece como um laboratório claro: um mercado grande, conectado e relevante, mas que ainda busca caminhos para converter a audiência em receita de forma mais equilibrada.
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