Equipe de “Chico 2.0” fala ao Mundo da Música sobre levar Chico Buarque ao rap, funk, trap e R&B

Celso Athayde, Fábio Almeida, Alê Siqueira, Felipe Poeta e Camila Rebouças detalham ao MM a criação de “Chico 2.0” e suas releituras.
Foto de Nathália Pandeló
Nathália Pandeló
Equipe de álbum que recria a obra de Chico Buarque
Equipe de álbum que recria a obra de Chico Buarque

O álbum “Chico 2.0” nasce de uma ideia aparentemente simples, mas que colocou sua equipe diante de uma tarefa delicada: fazer com que a obra de Chico Buarque dialogue com rap, funk, trap e R&B sem perder as estruturas que ajudaram a tornar suas canções reconhecíveis por diferentes gerações. A primeira parte do projeto chega às plataformas nesta sexta-feira (21), com dez releituras interpretadas por artistas da música brasileira contemporânea.

O álbum é um projeto da Favela Records, Tha House e Universal Music Brasil. A direção reúne Celso Athayde, Fábio Almeida e Preto Zezé, com produção musical de Alê Siqueira e Felipe Poeta e produção executiva de Camila Rebouças. Ao Mundo da Música, eles detalharam diferentes etapas da criação, da escolha do repertório e dos intérpretes ao estudo das harmonias originais e à construção dos beats.

A conversa também dá continuidade a uma história acompanhada pelo Mundo da Música desde a fase de desenvolvimento. Em abril, Felipe Poeta e Alê Siqueira já haviam detalhado os primeiros bastidores do projeto, quando parte do repertório e a formação definitiva do álbum ainda estavam em construção. Agora, com o disco pronto, a equipe mostra como a ideia inicial tomou forma e por que considera a obra de Chico capaz de conversar diretamente com artistas que hoje narram outras faces do cotidiano brasileiro.

Chico Buarque como cronista do Brasil

Para Celso Athayde, a origem de “Chico 2.0” passa também por uma relação pessoal com o repertório do compositor. Fundador da Central Única das Favelas, a CUFA, ele conta que conheceu as músicas de Chico ainda antes de construir sua própria trajetória no hip-hop.

“Sou fã do Chico desde sempre. Quem me apresentou à obra do Chico foi um líder da Favela do Sapo chamado Rogério Lemgruber. Ele era fã do Chico, mas nunca imaginou que eu um dia fosse conhecer ele pessoalmente”, conta Athayde.

Anos depois, os caminhos dos dois se cruzaram. Athayde lembra que se aproximou do compositor, participou de trabalhos ao lado dele e chegou a dirigi-lo no Prêmio Anu, no Teatro Carlos Gomes. O contato trouxe uma leitura mais profunda de um repertório que ele já conhecia como ouvinte.

Chico Buarque e Celso Athayde
Chico Buarque e Celso Athayde (Crédito: Acervo pessoal)

“Como eu venho do movimento hip-hop, sempre tive vontade de fazer essa ponte. Eu também sempre tive um incômodo com essa ideia de que a MPB é uma coisa distante, quase como se pertencesse a um grupo de pessoas e não ao povo brasileiro”, afirma Athayde.

É justamente nessa percepção que a equipe situa uma das bases conceituais do projeto. Em vez de tratar o rap, o funk ou o trap como gêneros chamados para modernizar músicas antigas, “Chico 2.0” parte da ideia de que existem pontos de contato anteriores à sonoridade.

“Quando você olha para a obra do Chico, você percebe que ele sempre falou do Brasil real, da desigualdade, da política, da vida das pessoas, da rua. E onde essa história está sendo contada hoje? No rap, no funk, no trap, no R&B”, questiona Athayde.

Felipe Poeta chegou a uma leitura semelhante ao olhar para as histórias construídas nas composições. Para o produtor, há uma conexão entre essas narrativas e boa parte do que ocupa a música urbana de hoje.

“A ideia surgiu principalmente porque as crônicas e as histórias, as quais o Chico Buarque escreveu sobre sua vida toda, faz total sentido com o mundo da música urbana atual”, explica Poeta.

Já Rebouças define Chico como um “cronista do Brasil” e diz que a construção do projeto começou como a montagem de um quebra-cabeça. Havia dois objetivos que precisavam coexistir: respeitar o material original e encontrar artistas e produções capazes de inseri-lo em outra paisagem musical.

“A premissa era manter a fidelidade às letras e melodias de Chico e, ao mesmo tempo, trazer intérpretes e arranjos que dialogassem com a contemporaneidade”, explica Rebouças.

Montando a tracklist

A primeira parte reúne VANDAL, Don L, Xênia França, MC Cabelinho, Dexter, Maurício Pazz, MC Livinho, Tasha & Tracie, Grag Queen, Bela Maria, TZ da Coronel, Julia Mestre e Budah. A escolha, segundo a equipe, não nasceu apenas de uma lista de artistas em evidência.

“A gente não queria simplesmente pegar artistas famosos e colocar pra cantar Chico. A gente queria entender quem tinha uma relação verdadeira com aquela música”, afirma Athayde.

Em “Cálice”, composição de Chico Buarque e Gilberto Gil, Xênia França divide a interpretação com MC Cabelinho. Para Athayde, a escolha do funkeiro acrescenta à canção uma experiência que vai além da interpretação vocal.

“O Cabelinho em ‘Cálice’, por exemplo, tem uma força muito grande porque ele vem de uma realidade onde existe silenciamento, pressão e várias formas de opressão. Então ele não está só interpretando uma música. Ele está colocando a experiência dele ali”, avalia Athayde.

Tasha & Tracie foram escolhidas para “Deus Lhe Pague”, enquanto MC Livinho aparece em “Construção” ao lado de Dexter e Maurício Pazz e também assume “Pivete”, parceria de Chico com Francis Hime.

“Tasha & Tracie em ‘Deus Lhe Pague’ também fazem isso. Elas têm uma personalidade muito forte, são duas mulheres pretas que sabem falar de sistema, de desigualdade, de preconceito, mas fazem isso com ironia, com atitude, com a linguagem delas”, diz Athayde.

No caso de Livinho, o ponto de encontro veio de outra característica:

“O Livinho em ‘Pivete’ tem uma coisa que combina muito com a música: a malandragem, a rua, a ginga. Só que ele traz isso para o Brasil de hoje”, analisa Athayde.

O trabalho de associar cada faixa a uma voz passou por discussões coletivas entre direção e produção. Almeida destaca que a intenção não era simplesmente adaptar as canções aos gêneros de origem dos convidados, mas também propor desafios aos próprios artistas.

“Essa construção dos feats, da adequação a estilos ou também o desafio para cada artista foi muito conduzida pelos produtores musicais Alê Siqueira e Felipe Poeta”, conta Almeida.

Segundo o diretor, o fio condutor era buscar um resultado que mantivesse as características dos intérpretes sem romper com a obra que estava sendo revisitada.

“Todo o projeto foi construído por várias mãos, bem como o propósito, do coletivo, de ouvir a todos e chegar num resultado que a finalidade era levar a obra de Chico a uma juventude e também trazer esse frescor a uma obra tão atual como são as obras de Chico”, explica Almeida.

Antes dos beats, vieram as partituras

Felipe Poeta, Alê Siqueira e Fábio Leandro
Felipe Poeta, Alê Siqueira e Fábio Leandro (Crédito: Divulgação)

Se o elenco aproxima “Chico 2.0” da produção urbana contemporânea, o ponto de partida musical foi bem mais próximo das gravações e estruturas originais. Siqueira conta que o trabalho começou por um estudo detalhado de harmonias e melodias.

“Metodologicamente, começamos pelas harmonias, pela pesquisa das partituras e pelas melodias, ao lado do Fábio Leandro”, explica Siqueira.

O produtor também chamou Marcos Suzano para o processo. Percussionista com longa trajetória na música brasileira, Suzano foi escolhido justamente por circular entre diferentes universos sonoros.

“Também fizemos questão de contar com o Marcos Suzano, que é um profundo conhecedor da Música Popular Brasileira e um percussionista fundamental na história da MPB, mas que também transita pela música urbana contemporânea e pela música eletrônica”, conta Siqueira.

As bases começaram a surgir do encontro entre o trabalho harmônico e essas texturas. Foi nesse momento que Felipe Poeta passou a ter um papel ainda maior na definição da sonoridade do álbum.

“Outra pessoa fundamental foi o Felipe Poeta, principalmente na construção dessas bases, porque ele foi responsável por amalgamar as harmonias do Fábio, as texturas que criamos nos teclados e os beats eletrônicos”, explica Siqueira.

A ideia inicial chegou a incluir outros beatmakers. O plano mudou quando Siqueira percebeu que Poeta poderia assumir diretamente essa camada da produção.

“No começo, pensávamos em chamar alguns beatmakers, mas, quando percebi o talento enorme que ele tinha para isso, fui um grande incentivador para que ele assumisse essa parte. Ele foi fundamental na construção de todas as batidas e dos beats que estão no disco”, conta Siqueira.

Essa construção ajuda a explicar por que a equipe evita definir o processo simplesmente como a aplicação de beats urbanos sobre músicas de Chico. O caminho foi inverso: primeiro entender como cada composição funciona, depois buscar outras formas de organizá-la sonoramente.

A “mão esquerda” de Chico virou uma regra do projeto

Poeta aponta um elemento específico como referência durante todo esse processo: aquilo que chama de “mão esquerda” de Chico Buarque no violão. Para o produtor, preservar a lógica dos acordes era uma forma de manter uma identidade que poderia desaparecer caso toda a estrutura fosse substituída.

“Com certeza, ao mesmo tempo que a gente quis inovar sonoramente, tanto pelos artistas que foram convidados e conseguir chegar em bases instrumentais que aceitariam esses artistas e os estilos deles, mas agora uma coisa que a gente teve o máximo de respeito foi com a mão esquerda de Chico Buarque, que inclusive é uma das coisas, para quem gosta muito de música, quem é músico, quem toca, um dos maiores brilhos das obras dele”, explica Poeta.

As tonalidades poderiam mudar para acomodar as vozes dos novos intérpretes. Os instrumentos, texturas e ritmos também poderiam seguir outros caminhos. Mas as progressões harmônicas continuaram ancoradas no estudo das partituras.

“Os acordes, todo o arranjo, a gente pode ter modulado para encaixar na voz de algum artista, mas a gente seguiu tudo com partitura, bonitinho, com os músicos acompanhantes”, conta Poeta.

Siqueira teve papel fundamental nessa atenção aos detalhes. Poeta brinca ao falar da capacidade do parceiro de reconhecer as nuances harmônicas das composições.

“Principalmente o Alê, com o ouvido dele, absurdo, não absoluto, absurdo”, diz Poeta, entre risos.

O resultado procura ocupar uma zona intermediária: as músicas não são reproduções dos registros conhecidos, mas também não abandonam elementos estruturais apenas para se adaptarem às convenções de gêneros contemporâneos.

A nova geração pode descobrir Chico por outras vozes

Fabio Almeida (Crédito: Divulgação)
Fabio Almeida (Crédito: Divulgação)

A escolha de artistas mais jovens também coloca o álbum diante de uma questão de circulação de catálogo. Parte do público de MC Cabelinho, TZ da Coronel, Budah ou Tasha & Tracie pode chegar às músicas sem uma relação anterior com Chico Buarque.

Para Rebouças, aproximar esse repertório da nova geração não significa apenas apresentar músicas antigas. Trata-se de recolocar em circulação letras que continuam encontrando correspondência no presente.

“É muito importante mostrar para a nova geração a magnitude das letras de Chico. Mais do que oportuno, é necessário trazer essas letras e poesias para as novas gerações”, afirma Rebouças.

Ela destaca principalmente a dimensão social e política da obra:

“Ele traduz de forma única e poética a realidade do povo brasileiro. Seus sentimentos e dores são o exemplo perfeito de como a arte pode ser usada como crítica social, além de emocionar e impactar através de conexão e histórias que as pessoas podem se espelhar, principalmente em períodos políticos complexos e diante de ameaças contra a democracia”, analisa Rebouças.

Poeta também vê na permanência dos assuntos tratados por Chico uma razão para que as novas interpretações funcionem décadas depois. O produtor cita dois encontros do repertório como exemplos: “João e Maria”, de Chico e Sivuca, com Julia Mestre e TZ da Coronel, e “Deus Lhe Pague”, com Tasha & Tracie.

“Mesmo que as letras, as crônicas que Chico Buarque escreveu em outro contexto histórico, em outra época, esses contextos continuam sendo bem atuais, principalmente quando a gente diz sobre os temas referentes à música urbana, a opressão e até o jeito, a maneira que ele descreveu os amores”, avalia Poeta.

Para Almeida, a troca proposta pelo disco não acontece em uma única direção. O projeto coloca gerações distintas dentro da mesma obra e permite que as características de cada uma interfiram na maneira como essas músicas chegam ao público.

“O propósito do projeto passa por promover um intercâmbio entre gerações, através das potencialidades de cada uma delas”, afirma Almeida.

O “fim da canção” encontra a música urbana 22 anos depois

Siqueira encontra ainda outra camada para “Chico 2.0” em uma discussão levantada pelo próprio compositor mais de duas décadas atrás. Em 2004, Chico falou sobre o “fim da canção”, expressão que gerou debates sobre as transformações pelas quais passava a música popular.

“Há 22 anos, o próprio Chico Buarque, com a lucidez que tem, percebeu que aquela canção que ele conhecia e da qual era herdeiro, de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e tantos músicos das gerações anteriores, estava chegando ao fim. Mas não no sentido apocalíptico”, explica Siqueira.

Na interpretação do produtor, Chico estava observando uma mudança de linguagem, e não decretando o desaparecimento da canção brasileira.

“Ele falou sobre o fim da canção tal qual a conhecíamos, percebendo que, a partir daquele momento, estava nascendo uma nova canção, com outros elementos e outras linguagens. Ele fazia menção ao rap, ao funk e à música urbana periférica”, recorda Siqueira.

Essa leitura cria uma espécie de arco histórico para o novo disco. Duas décadas depois, artistas ligados justamente a essas cenas retornam à obra do compositor para reinterpretá-la.

“Esses novos artistas, dessa nova geração e dessas novas linguagens, retornam para revisitar a obra dele. É quase um movimento de arco”, define Siqueira.

Para o produtor, esse encontro é também uma demonstração de como repertórios considerados clássicos podem permanecer vivos quando deixam de ser tratados como peças intocáveis.

“É muito interessante ver esse encontro da música urbana, do rap, do funk e da música eletrônica com a obra do Chico Buarque. É como se aquela percepção que ele teve lá atrás encontrasse, agora, uma resposta concreta nessa nova geração”, avalia Siqueira.

“A música urbana também é a música brasileira”

No centro de “Chico 2.0”, portanto, existe também uma discussão sobre a própria ideia de Música Popular Brasileira. Para Athayde, separar a chamada MPB da produção das periferias cria uma hierarquia que não corresponde à história cultural do país.

“Eu acho que o Chico 2.0 mostra uma coisa muito simples: a música urbana também é a música brasileira. O rap, o funk, o trap, o R&B não estão do lado de fora da MPB. Eles fazem parte da música brasileira de hoje”, afirma Athayde.

Essa leitura transforma o projeto em algo diferente de uma tentativa de introduzir artistas da favela em um repertório já legitimado. Na visão do diretor, as conexões existem muito antes do disco.

“Durante muito tempo, criaram uma separação. De um lado estava a chamada MPB, de outro estava a música da rua. Como se uma tivesse mais valor que a outra. Só que a favela sempre produziu música, poesia, dança, cultura”, diz Athayde.

É nesse ponto que o projeto encontra sua leitura mais ampla sobre o mercado e a produção contemporânea. Regravar um catálogo conhecido com artistas que dialogam com públicos diferentes pode gerar novas portas de entrada para a obra, mas, no caso de “Chico 2.0”, a equipe procura também questionar a ideia de que tradição e música urbana ocupam lugares opostos.

Para Camila Rebouças, o objetivo é que as novas vozes conduzam os ouvintes de hoje ao repertório original e mantenham essas histórias em circulação:

“Esse projeto me move muito ao mostrar, pela voz de artistas jovens tão relevantes, os clássicos do Chico. Esperamos que a mensagem dele ganhe novos fãs e siga sendo ouvida e difundida por essa e muitas outras gerações”, afirma.

Athayde vai além ao definir o lugar que a favela ocupa nessa conversa.

“Pra mim, o Chico 2.0 é justamente isso: pegar uma obra que é muito importante para o Brasil e mostrar que ela também conversa com quem está produzindo cultura na favela hoje. Não é a favela pedindo licença para entrar na MPB. É a favela mostrando que ela já estava dentro da música brasileira há muito tempo”, conclui.

Ficha Técnica:

1. O Que Será (À Flor da Terra) (Chico Buarque)

Artistas: VANDAL, Don L

2. Cálice (Chico Buarque, Gilberto Gil)

Artistas: Xênia França, MC Cabelinho

3. Construção (Chico Buarque)

Artistas: Dexter, Maurício Pazz, MC Livinho **

4.Deus Lhe Pague (Chico Buarque)

Artistas: Tasha & Tracie

5. Pivete (Chico Buarque/ Francis Hime)

Artistas: MC Livinho **

6. Geni e o Zepelim (Chico Buarque)

Artistas: Grag Queen*

7. Meu Caro Amigo (Chico Buarque/Francis Hime)

Artistas: Bela Maria

8. Olê, Olá (Chico Buarque)

Artistas: Xênia França

9. João e Maria (Chico Buarque, Sivuca)

Artistas: Julia Mestre, TZ da Coronel

10. Roda Viva (Chico Buarque)

Artistas: BUDAH

*artista gentilmente cedido por Warner Music Brasil, **artista gentilmente cedida por ALTAFONTE CORPORATION

Produção: Universal Music, Tha House Company e FRecords

Direção: Celso Athayde e Fábio Almeida

Produção Musical: Alê Siqueira e Felipe Poeta 

Direção Artística: Celso Athayde, Fabio Almeida e Preto Zezé 

Mixagem: Estúdio Mederin (Rio de Janeiro) por Mederim

Masterização: Classic Master (Miami) por Carlos Freitas

Produção Executiva: Camila Rebouças

Assistentes Executivos: Dayana Rauedys, Flávio Dultra, Jota Lima e José Gonzaga

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