O Governo do Brasil lançou nesta segunda (04) o Vozes Periféricas, uma premiação nacional voltada a coletivos de batalhas de rima, slams e saraus, reconhecendo esses espaços como polos de produção cultural, artística e intelectual. O edital foi apresentado em cerimônia no Palácio do Itamaraty, em Brasília, e terá investimento total de R$ 3 milhões. CLIQUE AQUI para acessar o edital e se inscrever.
A iniciativa foi criada pela Secretaria-Geral da Presidência da República, por meio da Secretaria Nacional de Juventude e da Secretaria Nacional de Diálogos Sociais e Articulação de Políticas Públicas, em parceria com a Organização de Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura. Ao todo, serão premiados 100 agentes culturais organizados em coletivos que tenham atuado regularmente ao longo de 2025.
Cada coletivo selecionado receberá R$ 30 mil. O desenho do Vozes Periféricas também prevê que ao menos um projeto seja contemplado em cada estado brasileiro, o que busca distribuir melhor o investimento público e alcançar grupos que, muitas vezes, mantêm circuitos culturais ativos longe dos grandes eixos de financiamento.
Prêmio reconhece ações já realizadas nos territórios
O Vozes Periféricas tem um recorte específico: a premiação não é voltada a projetos futuros, mas ao reconhecimento de ações culturais já realizadas. Podem participar coletivos que tenham prestado contribuição ao desenvolvimento artístico ou cultural de seus territórios, com atuação regular em batalhas de rima, slams e saraus durante 2025.
Isso coloca no radar do poder público uma cena que já opera com força própria em praças, escolas, centros culturais, ocupações e espaços independentes. Batalhas de rima e slams, por exemplo, funcionam como ambientes de criação, formação de público, circulação de artistas e debate social. Para muitos jovens, são também a porta de entrada para a música, a literatura oral e a organização cultural.
Durante a cerimônia, o ministro Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência da República, associou a presença dos coletivos no Itamaraty a uma mudança simbólica na forma como o Estado olha para esses movimentos.
“Hoje, a gente tá trazendo aqui, para dentro do Itamaraty, os embaixadores da periferia, os embaixadores da quebrada que levam essa voz pro nosso povo no Brasil inteiro.”
Boulos também afirmou que o prêmio sinaliza uma postura diferente diante das manifestações culturais das periferias, frequentemente tratadas pela lógica da repressão.
“Mais que um prêmio, é um reconhecimento. É o Estado brasileiro reconhecendo e valorizando aquilo que vocês fazem, as batalhas, os slams, os saraus, e dizendo que isso não pode ser criminalizado.”
Edital dá prioridade a juventudes e grupos historicamente excluídos

O edital tem foco em juventudes e territórios populares, com bonificações para coletivos formados majoritariamente por pessoas negras, mulheres, indígenas, quilombolas e povos tradicionais. Esse ponto é importante porque parte do reconhecimento cultural, no Brasil, ainda chega com mais facilidade a estruturas formalizadas, produtoras com histórico de editais e grupos com mais acesso à burocracia pública.
Ao olhar para coletivos periféricos, o Vozes Periféricas tenta responder a um desafio conhecido do setor: como fazer o recurso público chegar a quem produz cultura de maneira contínua, mas nem sempre tem estrutura administrativa, equipe de captação ou histórico institucional. Nesse caso, o prêmio funciona como um reconhecimento do trabalho já feito.
A secretária nacional de Juventude, Vitória Genuíno, tratou o edital como uma resposta do governo federal às juventudes que produzem arte fora dos formatos tradicionais.
“Esse edital vem como uma resposta para reconhecer esses processos de organização e de resistência desses jovens que estão na periferia, colocando a importância e o tamanho da valorização que o governo federal precisa fazer.”
Já José Lício Júnior, secretário adjunto de Diálogos Sociais, destacou o papel intelectual dos artistas que constroem esses encontros.
“Saibam que poetas e MCs são intelectuais que se expressam em rodas que são verdadeiros fóruns poéticos periféricos e ajudam a contar, através das rimas e versos, a história do nosso povo e do nosso país.”
Inscrições ficam abertas até 18 de maio
As inscrições para o Prêmio Nacional Vozes Periféricas seguem abertas até 18 de maio. Para participar, os coletivos precisam comprovar atuação regular ao longo de 2025 e contribuição relevante para o desenvolvimento artístico local, especialmente em batalhas de rima, slams e saraus.
O lançamento também contou com a presença da ministra da Igualdade Racial, Raquel Barros, em uma cerimônia marcada por apresentações artísticas e falas institucionais. A poeta Natielly Castro abriu o evento com versos que levaram ao Itamaraty uma linguagem nascida em territórios onde a palavra falada tem peso de documento, denúncia, memória e criação.
O peso do edital está justamente nesse encontro entre política pública e produção cultural de base. Ao reconhecer saraus, slams e batalhas como espaços de pensamento e criação, o Vozes Periféricas ajuda a deslocar a ideia de que essas manifestações são apenas eventos locais ou iniciativas informais. Elas são parte da cadeia cultural brasileira, formam artistas, movimentam comunidades e criam repertório para uma geração que transforma vivência em linguagem.
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