UMG recompra 14,2 milhões de ações com saída da Pershing Square e vende Curve para Merlin e Jamen Capital
A UMG movimenta € 250 milhões em recompra de ações e atende exigência europeia ligada à compra da Downtown Music.
Por Nathália Pandeló···5 min de leitura·
O Universal Music Group (UMG) viveu uma semana de reorganização financeira em duas frentes diferentes, mas conectadas pelo mesmo ponto: o reposicionamento da companhia depois de pressões de investidores, aquisições bilionárias e exigências regulatórias. Em poucos dias, o grupo recomprou cerca de 14,2 milhões de ações ligadas à Pershing Square e avançou na venda da Curve Royalty Systems para a Merlin e a Jamen Capital.
O primeiro movimento encerra a relação turbulenta entre a companhia e os fundos ligados a Bill Ackman. A Pershing Square decidiu vender toda a sua posição na UMG depois de uma tentativa frustrada de aquisição, estimada em US$ 64 bilhões, e após a saída do investidor do conselho da empresa.
O segundo movimento está ligado à compra da Downtown Music Holdings pela Virgin Music Group, subsidiária da UMG. Para aprovar a transação de US$ 775 milhões, a Comissão Europeia exigiu a venda da Curve, plataforma de processamento de royalties usada por selos, distribuidoras, editoras e empresas de mídia.
Saída da Pershing abre novo capítulo para a UMG
Sir Lucian Grainge, presidente e CEO da UMG (Crédito: Divulgação)
A UMG comprou 14.156.285 ações ordinárias que faziam parte da posição vendida pelos fundos da Pershing Square. O preço foi de € 17,66 por ação, em uma operação de aproximadamente € 250 milhões. A empresa usou parte de seu programa de recompra de ações de € 1 bilhão, dividido em duas autorizações de € 500 milhões.
Na prática, uma recompra desse tipo reduz a quantidade de ações em circulação no mercado. Para o investidor comum, isso pode indicar que a companhia vê valor em seus próprios papéis. Para a UMG, também funciona como resposta a um período de questionamentos sobre governança, comunicação com acionistas e estratégia de crescimento.
A saída da Pershing encerra uma relação que vinha acumulando atritos públicos. Ackman chegou a propor uma aquisição da UMG por US$ 64 bilhões, mas a ideia foi rejeitada pelo conselho de forma unânime. Na ocasião, a companhia manteve o discurso de que seguiria sua estratégia de longo prazo.
“Nós seguimos comprometidos em liderar a indústria ao atrair os maiores talentos do mundo, aprofundar o engajamento dos fãs globalmente e impulsionar a inovação. No centro dessa missão está a criação de um ambiente que defenda a criatividade humana, proteja artistas, compositores e empreendedores, e expanda oportunidades de crescimento e sucesso”, disse Sir Lucian Grainge, presidente e CEO da UMG.
Ele resume o tom adotado pela empresa diante da pressão. Mesmo com a rejeição da proposta, parte das demandas levantadas por investidores parece ter encontrado resposta em ações concretas: relatórios financeiros ajustados, recompras de ações e o compromisso de vender parte da participação da companhia no Spotify.
Venda da Curve mira a confiança dos independentes
Comissão Europeia
A venda da Curve Royalty Systems tem outra natureza. Ela não nasce de uma briga entre acionistas, mas de uma exigência regulatória. Quando a Comissão Europeiaaprovou a compra da Downtown pela UMG, impôs como condição que a Curve fosse vendida a um comprador independente. O objetivo era evitar que uma plataforma sensível de royalties ficasse sob controle direto de uma major.
A Curve processa pagamentos e dados de royalties nos setores de música gravada e edição. Sua base de clientes inclui nomes como Armada, Defected, Epitaph, Reservoir, Netflix, BBC/Demon, Sony Pictures Entertainment e a própria Virgin Music Group. Em termos simples, é uma ferramenta que ajuda empresas a calcular e organizar quanto cada titular deve receber.
Os compradores serão a Merlin, agência global de licenciamento do setor independente, e a Jamen Capital, firma de investimento fundada por Matt Spetzler. Os valores da operação não foram divulgados, e o fechamento ainda depende da aprovação final da Comissão Europeia.
“Este é um momento empolgante para a Curve”, resumiu Richard Leach, que continuará à frente da empresa Curve como CEO. A fala indica a tentativa de preservar a confiança construída pela plataforma. Segundo as empresas envolvidas, a equipe atual e a operação diária serão mantidas.
Infraestrutura vira disputa central no mercado da música
A venda também mostra como a infraestrutura de dados e royalties virou uma área cada vez mais estratégica na música. Não se trata apenas de catálogos ou artistas. Quem controla sistemas de pagamento, identificação de obras e leitura de dados também ocupa uma posição valiosa na cadeia.
“Dados e infraestrutura de royalties estão se tornando cada vez mais importantes para o futuro do negócio da música”, declarou Matt Spetzler.
Não é à toa que fundos e entidades independentes estão olhando para esse tipo de ativo. A Jamen Capital já tem investimentos em empresas como Kobalt, Recognition Music Group, Soundtrack, un:hurd, Muse Group e Hal Leonard, além da plataforma Pipeline, criada para financiar o setor independente.
Para a Merlin, a compra tem uma camada política e estratégica. A organização representa cerca de 15% do mercado global de música gravada e negocia acordos com plataformas como Spotify, YouTube, Apple e Meta. Ao entrar na Curve, a entidade busca garantir que uma ferramenta usada por independentes continue fora do controle direto de uma major.
Com as duas operações, a UMG fecha uma etapa delicada em seu tabuleiro financeiro. A recompra de ações mostra uma resposta ao mercado de capitais. A venda da Curve atende aos reguladores e tenta preservar a confiança dos independentes. Juntas, as movimentações mostram que, hoje, o poder no negócio da música passa tanto pelos catálogos quanto pelas estruturas que organizam dinheiro, dados e direitos.
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