Seedance 2.0: app da ByteDance para vídeos com IA recua após ameaças judiciais de Disney e Netflix

A ferramenta Seedance 2.0, da ByteDance, enfrenta notificações de estúdios e promete reforçar proteções contra uso indevido.
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Nathália Pandeló
SeeDance

O Seedance 2.0 é o novo app de geração de vídeos com inteligência artificial da ByteDance, empresa chinesa dona do TikTok, capaz de criar cenas ultrarrealistas a partir de comandos de texto, imagem e áudio. Lançado em fevereiro, o modelo rapidamente viralizou nas redes sociais ao produzir sequências que parecem saídas de um estúdio de cinema. O problema é que parte desses vídeos usava personagens e celebridades protegidos por direitos autorais.

Em poucos dias, o Seedance 2.0 passou de novidade tecnológica a foco de notificações extrajudiciais. Disney, Netflix, Warner Bros. e Paramount enviaram cartas exigindo a interrupção do uso de suas propriedades intelectuais na ferramenta. A pressão levou a ByteDance a anunciar que vai reforçar os mecanismos de proteção para evitar o uso não autorizado de personagens e imagens.

O episódio não envolve apenas um aplicativo específico. Ele escancara um embate maior entre empresas de tecnologia e estúdios sobre até onde vai a liberdade de criação com IA e onde começam as regras de licenciamento e remuneração.

Por que o Seedance 2.0 virou alvo dos estúdios

O Seedance 2.0 chamou atenção pela combinação de recursos. A ferramenta permite inserir até 12 referências para orientar a criação do vídeo, sugerir enquadramentos, movimentos de câmera, efeitos e até trilha sonora. Segundo a ByteDance, o novo modelo entrega resultados até 30% mais rápidos que a versão anterior, o Seedance 1.5.

Nas redes, começaram a circular vídeos com personagens como Homem-Aranha e Darth Vader, além de cenas inspiradas em séries como “Stranger Things” e “Bridgerton”. Um dos conteúdos mais compartilhados mostrava uma luta fictícia entre Brad Pitt e Tom Cruise, criada inteiramente por IA.

A Motion Picture Association, que representa grandes estúdios, reagiu publicamente. O presidente e CEO da entidade, Charles Rivkin, declarou:

“Em um único dia, o serviço chinês de IA Seedance 2.0 incorreu em uso não autorizado de obras americanas protegidas por direitos autorais em larga escala. Ao lançar um serviço que opera sem salvaguardas significativas contra infração, a ByteDance está desconsiderando a legislação consolidada de direitos autorais que protege os criadores e sustenta milhões de empregos americanos.”

A Netflix adotou um tom ainda mais direto. Mandy LeMoine, diretora de litígios da empresa, escreveu:

“O Seedance atua como um motor de pirataria de alta velocidade, gerando quantidades massivas de obras derivadas não autorizadas que utilizam personagens icônicos, mundos e narrativas roteirizadas da Netflix. A Netflix não ficará de braços cruzados enquanto a ByteDance trata nossa valiosa propriedade intelectual como material gratuito de domínio público.”

A empresa deu prazo para que a ByteDance remova conteúdos considerados infratores e implemente medidas para impedir novas gerações semelhantes.

O que a ByteDance prometeu mudar

Cena de luta entre Tom Cruise e Brad Pitt no Seedance viralizou
Cena de luta entre Tom Cruise e Brad Pitt no Seedance viralizou (Crédito: Reprodução)

Diante da escalada das críticas, a ByteDance reconheceu as preocupações e afirmou que está revisando as salvaguardas do Seedance 2.0. Em nota oficial, um porta-voz declarou:

“A ByteDance respeita os direitos de propriedade intelectual e ouvimos as preocupações a respeito do Seedance 2.0. Estamos tomando medidas para reforçar os mecanismos de proteção atuais enquanto trabalhamos para impedir o uso não autorizado de propriedade intelectual e de imagem pelos usuários.”

A empresa também afirmou que parte dos vídeos polêmicos teria sido criada a partir de imagens enviadas pelos próprios usuários, e não necessariamente por treinamento direto com material protegido. Ainda assim, desativou a função de upload de imagens que estava disponível em testes iniciais.

No mercado, a reação foi dividida. Analistas da Kaiyuan Securities chegaram a classificar o momento como um avanço importante para IAs de vídeo, enquanto investidores observaram o potencial comercial do modelo. Ao mesmo tempo, o risco jurídico passou a ser um fator central para a expansão internacional da ferramenta.

O que está em jogo para a indústria

O caso do Seedance 2.0 acontece em um momento em que acordos formais entre estúdios, gravadoras e empresas de IA começam a surgir. A Disney, por exemplo, firmou contrato bilionário com a OpenAI para autorizar o uso de seus personagens em projetos ligados ao Sora. Universal Music, Warner Music e Merlin anunciaram acordos recentes com a Udio. Ou seja, há precedentes para integrações feitas com licença.

A diferença, segundo os estúdios, é que o Seedance 2.0 teria sido lançado já reproduzindo personagens protegidos, sem autorização prévia. Para quem detém os direitos, o temor é econômico. Ferramentas capazes de gerar cenas com qualidade profissional reduzem custos de produção e podem competir com conteúdos oficiais.

Por outro lado, produtoras independentes e diretores de videoclipes veem na tecnologia uma oportunidade de criar ficção científica, ação ou dramas de época com orçamentos que antes seriam inviáveis. A discussão agora gira em torno de como estabelecer limites claros para o uso de obras protegidas, garantindo remuneração e controle para os titulares dos direitos.

A disputa envolvendo o Seedance 2.0 mostra que a próxima etapa da IA no audiovisual não será definida apenas por capacidade técnica, mas por acordos, regras e decisões judiciais que podem redesenhar a dinâmica entre tecnologia e entretenimento.

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