Os Garotin falam ao Mundo da Música sobre pré-save, feats e artes visuais em “Força da Juventude”

Em entrevista, Os Garotin explicam como “Força da Juventude” virou álbum, campanha de pré-save, exposição e ação coletiva em São Gonçalo.
Foto de Nathália Pandeló
Nathália Pandeló
Os Garotin (Crédito: @mateusaguiar)
Os Garotin (Crédito: @mateusaguiar)

Os Garotin não tratam “Força da Juventude” apenas como o segundo álbum da carreira. O trio formado por Anchietx, Leo Guima e Cupertino chega ao novo projeto com uma estratégia que combina música, humor, comunidade, artes visuais e uma leitura atenta sobre como um álbum pode ganhar corpo no mercado atual. O disco reúne 13 faixas e participações de Marina Sena, BK’, Liniker, Lenine, Hamilton de Holanda, Arthur Verocai, 2ZDinizz e da cantora norte-americana MALIA.

Em entrevista ao Mundo da Música, o grupo explicou como o projeto deixou de ser apenas uma sequência natural depois do primeiro disco e passou a funcionar como uma campanha de lançamento em várias frentes. A estratégia inclui uma tentativa bem-humorada de bater o recorde de pré-save associado a Juliette, uma exposição com obras inspiradas nas faixas e uma lista de participações que conecta artistas de diferentes gerações.

A conversa também antecipa a presença do trio no palco Soundbeats III by Mundo da Música no Rio2C, onde Os Garotin participam da programação. A aparição chega em um momento estratégico: poucos dias depois do lançamento do disco e com a campanha de “Força da Juventude” ainda em circulação.

O lançamento aponta para uma mudança no jeito de trabalhar um álbum. Hoje, a chegada de um disco às plataformas precisa disputar atenção antes mesmo da estreia. No caso de Os Garotin, essa disputa passa menos por uma lógica fria de marketing e mais por uma relação direta com o público, construída com linguagem própria, brincadeiras internas e senso de pertencimento.

O segundo álbum (e o primeiro depois do Latin Grammy)

A pressão pelo segundo disco costuma rondar artistas que crescem rápido. Com Os Garotin, ela veio depois de um primeiro trabalho bem recebido e do Latin Grammy conquistado em 2024. Em vez de repetir o caminho anterior, o trio optou por um projeto mais cheio de camadas, com mais participações, mais narrativa e mais ações para além da música.

O ponto de partida foi a própria faixa “Força da Juventude”. Segundo Leo Guima, o título apareceu logo após a composição e acabou organizando tudo o que o grupo queria dizer naquele momento. A juventude, aqui, não aparece apenas como faixa etária, mas como postura, responsabilidade, desejo de futuro e forma de estar no mundo.

“Eu acho que a gente amadureceu muito nos últimos anos. A nossa visão de como que se constrói um álbum, tudo amadureceu. Então a gente sentiu que ‘Força da Juventude’ era um nome forte. Quando a gente completou essa música, a gente falou: cara, vamos bancar isso”, afirma Leo Guima.

Essa visão ajuda a entender o disco como conceito, e não só como repertório. “Força da Juventude” fala de amor, amizade, origem, sonho e pertencimento, mas sem pesar a mão no discurso. A sonoridade transita entre pop, música popular brasileira, soul, samba, funk e groove, mantendo a assinatura romântica que marcou a trajetória do trio.

Cupertino resume o recorte como um retrato do momento vivido pelo grupo. Para ele, o álbum fala dos três, mas também de uma geração que cresceu em um mercado no qual carreira, comunidade e linguagem precisam caminhar juntas.

“É sobre nós o segundo álbum, sobre nossa geração. A gente se vê abraçado por artistas que fizeram história na música brasileira, pessoas olhando para o que a gente faz e considerando aquilo. Esse álbum mostrou para a gente que nós passamos a fazer parte desse momento”, diz Cupertino.

Esse sentimento de entrada em outra fase aparece na escala do projeto. A produção segue com Julio Raposo, responsável também pelo primeiro álbum, mas o novo disco ganha mais encontros, mais vozes e mais desdobramentos visuais. Ainda assim, o trio insiste que a base continua sendo a canção.

O pré-save como campanha e termômetro

Capa do álbum
Capa do álbum “Força da Juventude”, de Os Garotin (Crédito: Divulgação)

Uma das ações mais comentadas do lançamento foi a campanha para tentar bater o recorde de pré-save associado a Juliette, que alcançou 600 mil pré-salvamentos. O pré-save funciona como um lembrete automático: o fã autoriza a plataforma a salvar o álbum assim que ele fica disponível. Para o mercado, ele também serve como um termômetro de interesse antes da estreia.

No caso de Os Garotin, a estratégia tem duas camadas. De um lado, ajuda a aquecer o lançamento e organizar a base de fãs. De outro, vira piada interna, assunto nas redes e convite para que o público participe do processo. O trio reconhece que o número de Juliette é difícil de alcançar, mas usa justamente essa distância como parte da graça.

“É mais uma estrategiazinha nossa, das milhares outras, para a gente conseguir o máximo de prazer possível. A gente sabe que não vai dar para fazer 600 mil. Não é o objetivo principal. É um movimento de formiguinha para todo mundo se unir e fazer a parada acontecer”, explica Anchietx.

A palavra “prazer” ajuda a entender a ação. Não se trata apenas de pedir um clique, mas de transformar a etapa anterior ao lançamento em parte da experiência. O público entra na brincadeira, compartilha, comenta e passa a se sentir convocado antes mesmo de ouvir o disco completo.

Leo Guima aponta justamente para esse efeito. Mais do que o número final, a campanha ajudou a fazer com que a audiência entendesse que havia um álbum chegando.

“A galera está interagindo. A gente está quente. O público está sabendo que a gente vai lançar uma coisa. A gente nunca fez um trabalho ‘pré’, do jeito que está fazendo agora, jogando todas as cartas. Jogando o jogo de forma tranquila, sem medo”, conta Leo.

Cupertino também enxerga a ação por esse lado. Mesmo sem recorde, a mobilização já teria cumprido um papel importante.

“Se existia 1% de chance da gente bater 600 mil, 700 mil, a gente vai fazer. Fazendo isso, com certeza a gente vai ter mais pré-save do que teria se não fizesse. A gente passou de 30 mil, e esse número, para quem está ligado, é muito alto”, afirma.

A lógica é simples: uma meta alta demais pode parecer inalcançável, mas também cria um norte para a mobilização. O artista pode não chegar ao recorde, mas sai com mais gente falando, mais gente clicando e mais gente esperando o lançamento.

Para Cupertino, isso importa porque mostra a força de uma base disposta a agir. Em um mercado cada vez mais fragmentado, nem todo artista precisa ser conhecido por todo o país para construir uma carreira consistente. Em muitos casos, a força está em nichos engajados, capazes de sustentar shows, consumir lançamentos e transformar campanhas em assunto.

“Hoje, cada vez veremos menos artistas conhecidos por todo o Brasil. A gente vai ter pouco artista fazendo show para 20 mil pessoas e vai ter 20 mil artistas fazendo show para mil pessoas. A gente assume a nossa comunidade, se diverte com ela, porque a nossa comunidade se identifica com a gente”, analisa Cupertino.

Anchietx também relaciona esse engajamento ao modo como o grupo trabalha com sua equipe. Segundo ele, as ideias de comunicação chegam de forma orgânica porque quem está ao redor já conhece a linguagem dos três.

“A gente é totalmente engajado nessa parte, de uma maneira muito leve e divertida, que deixa todo mundo muito solto para construir e narrar como a gente é mesmo. Não são pessoas aleatórias que vomitam ideias com a gente do nada”, diz Anchietx.

Esse ponto é central para a estratégia. Quando a comunicação parece fabricada, o público percebe. No caso de Os Garotin, o marketing funciona porque carrega o mesmo tom do grupo: brincalhão, direto, afetivo e próximo.

Feats que nasceram das músicas

Outro eixo de “Força da Juventude” está nas participações. A lista é extensa, mas o trio tenta afastar a ideia de que os feats foram pensados apenas como soma de públicos. A presença de Marina Sena, BK’, Liniker, Lenine, Hamilton de Holanda, Arthur Verocai, 2ZDinizz e MALIA cria pontes entre cenas e gerações, mas, segundo eles, as escolhas vieram das músicas.

Leo Guima conta que, em um primeiro momento, chegou a imaginar o disco sem participações. Depois, ao ouvir as faixas e perceber o que cada uma pedia, mudou de visão.

“Em determinado momento, a gente não tinha feat nenhum nesse álbum. Hoje eu falo: cara, eu estava cego, porque os feats são perfeitos. Está incrível, a gente não poderia não ter feito isso. As músicas pediram esses encontros”, afirma.

A noção inverte uma lógica comum do mercado. Em muitos lançamentos, o feat nasce primeiro como estratégia de alcance. Aqui, o trio defende que as colaborações vieram a partir da identidade de cada faixa. Isso não elimina o potencial comercial dos encontros, mas muda a forma como eles são percebidos.

Cupertino usa “Se Joga”, com Marina Sena e BK’, como exemplo. A música foi escolhida como foco do projeto justamente por condensar uma linguagem pop direta e uma união de universos. A diferença está em não tratar as participações como uma lista de nomes escolhidos apenas por alcance. O cuidado, segundo ele, foi manter os convidados dentro da narrativa.

“Se a gente tivesse feito isso na maldade da divulgação, teria distribuído, mas não é nessa maldade que a gente faz. A gente faz a música que escolhe. A música pede, a gente entende e vai atrás da pessoa que faz sentido ali”, afirma Cupertino.

O álbum para além das plataformas

Os Garotin 2 - Crédito @mateusaguiar
Os Garotin (Crédito: @mateusaguiar)

A estratégia do disco também passa pelas artes visuais. Doze artistas foram convidados para criar obras inspiradas nas faixas. As peças foram apresentadas em uma audição no Circo Voador, no Rio de Janeiro, e a ideia é que sigam para novos espaços antes de um leilão. A arrecadação será usada para doar instrumentos a instituições e escolas de música em São Gonçalo, cidade de origem do trio.

A frente visual conversa com o símbolo do violão amarelo, ligado à trajetória do grupo. Em vez de aparecer apenas como elemento estético, ele vira ferramenta de acesso. A proposta conecta lançamento, território e formação de novos músicos.

“‘Força da Juventude’ é movimento. A gente quer, com o dinheiro dessas obras, poder doar o máximo de violão amarelo para instituições de música e escolas de música em São Gonçalo”, conta Anchietx.

Participaram da frente visual nomes como Renata Leoa, Emerson Rocha, Pandro Nobã, Kika Carvalho, Elian Almeida, Blecaute, Maria Ismalia, Tainan Cabral, Amanda Neves, Alexia Ferreira, Tassila Custodes e Marcos da Matta. As obras também estão sendo usadas como Canvas no Spotify, recurso visual exibido durante a reprodução das faixas.

Um álbum com história

O que chama atenção em “Força da Juventude” é a coerência entre música, comunicação e identidade. A campanha de pré-save tem o humor do trio. Os feats dialogam com a ideia de encontro. As artes visuais dão forma ao conceito de movimento. A ação ligada aos violões amarelos devolve o projeto ao território de origem do grupo.

Leo Guima resume a ambição do disco conectando carreira e vida.

“A discografia é uma continuação da vida da pessoa. Você vai vendo novas coisas e vai escrevendo sobre elas. O nosso desejo é sempre fazer o mundo um lugar melhor, fazer as pessoas se sentirem melhor e mais representadas”, afirma Leo Guima.

No fim, o recorde de Juliette funciona como isca de atenção, mas não como centro da estratégia. O que sustenta “Força da Juventude” é outra coisa: um trio consciente da própria linguagem, uma base disposta a participar e um álbum pensado para circular dentro e fora das plataformas.

Para Os Garotin, o segundo disco não chega como uma tentativa de provar que o reconhecimento anterior não foi acaso. “Força da Juventude” funciona mais como um retrato de fase: um grupo que cresceu, entendeu melhor o próprio público e passou a usar essa intimidade como parte da construção da carreira.

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