Dia Nacional do Reggae expõe força e desafios de um gênero que lota shows no Brasil, avalia Maneva

Na data dedicada ao reggae, o grupo Maneva analisa como streaming, festivais e turnês internacionais mudaram o alcance do gênero.
Foto de Nathália Pandeló
Nathália Pandeló
Maneva (Crédito: Rafael Strabelli)
Maneva (Crédito: Rafael Strabelli)

No Dia Nacional do Reggae, celebrado em 11 de maio, o Brasil chega à data com uma contradição cada vez mais evidente: o gênero tem público, catálogo, história e presença digital, mas ainda busca um reconhecimento proporcional dentro da mídia, das premiações, dos festivais e das curadorias. Segundo dados divulgados pelo Spotify, o Brasil é o segundo país que mais consome reggae no mundo, com Natiruts, Maneva, O Rappa e Armandinho entre os nomes mais ouvidos por aqui.

A data foi instituída pela Lei nº 12.630, sancionada em 2012, em homenagem ao ritmo musical difundido mundialmente por Bob Marley, morto em 11 de maio de 1981. No Brasil, porém, a história do reggae ultrapassa a reverência à Jamaica. O gênero criou cenas próprias, ganhou força popular em diferentes regiões e foi incorporado à música brasileira em formatos que passam pelas radiolas do Maranhão, pela crítica social baiana, pelo pop nacional, pelo rock, pela música de festival e, mais recentemente, pelo consumo contínuo nas plataformas digitais.

Foi nesse cenário que o Maneva se tornou uma das bandas centrais para entender o atual momento do reggae brasileiro. Formado em São Paulo em 2005, o grupo chega a duas décadas de carreira em turnê comemorativa, com agenda no Brasil e no exterior, incluindo apresentações em Londres, Dublin, Lisboa, Porto e Barcelona.

Do palco ao streaming

A força do reggae no Brasil sempre esteve muito ligada ao encontro presencial. Shows, bailes, festivais, comunidades de fãs e repertórios cantados em coro ajudaram a sustentar o gênero antes mesmo de sua consolidação nas plataformas. Para o Maneva, o streaming mudou a porta de entrada do público, mas não substituiu o papel do show.

Fernando Gato, baixista do grupo, vê essa virada como uma mudança de alcance, não de essência:

“O reggae sempre foi muito baseado na troca ao vivo, na energia do show, naquela conexão olho no olho. O streaming trouxe a possibilidade da nossa música chegar em lugares onde talvez a gente nunca tivesse tocado ainda. Hoje a pessoa conhece o Maneva numa playlist, num vídeo curto, e depois ela vai pro show viver essa experiência presencial. Então o digital ampliou muito o alcance, mas a essência da conexão continua sendo humana.”

A resposta ajuda a explicar um dos pontos mais importantes do ciclo atual. O reggae ganhou novas vitrines, mas segue dependente de uma relação de longo prazo com o público. Diferente de gêneros guiados apenas por lançamentos rápidos, muitas faixas do reggae brasileiro seguem vivas por anos, impulsionadas por versões acústicas, registros ao vivo e playlists de clima.

Essa permanência aparece também no repertório do Maneva. “Seja Para Mim – Acústico” está entre as faixas favoritas de reggae no Brasil segundo o levantamento divulgado pelo Spotify. O dado mostra como o consumo atual mistura nostalgia, descoberta e catálogo, permitindo que músicas de diferentes fases convivam no mesmo ambiente digital.

Entre o crescimento e os estereótipos

Maneva (Crédito: Pablo Grotto)
Maneva (Crédito: Pablo Grotto)

Para Tales de Polli, vocalista do Maneva, o reggae passou a ocupar mais espaço quando deixou de ser visto apenas como um nicho e começou a dialogar de forma mais direta com o pop brasileiro. Essa aproximação aparece em colaborações, festivais, releituras e na presença de artistas de outros gêneros que passaram a incorporar elementos do reggae em seus trabalhos.

“Acho que teve um momento em que o reggae deixou de ser visto só como um nicho e começou a dialogar mais com o pop brasileiro. Isso aconteceu muito quando artistas de outros gêneros começaram a ouvir reggae, gravar reggae e entender que o estilo podia conversar com diferentes públicos. A Iza, por exemplo, é um exemplo perfeito disso. O Maneva viveu um pouco dessa transição. A gente viu o gênero ganhar espaço em festivais maiores, plataformas e rádios, mas principalmente percebemos isso quando começamos a ver pessoas muito diferentes se identificando com as músicas”, analisa.

Mesmo assim, a expansão de público não eliminou os obstáculos. Para Fabinho Araújo, baterista da banda, ainda falta uma leitura mais completa do mercado sobre o peso real do reggae no Brasil.

“Acho que falta o mercado olhar pro reggae sem limitar o gênero a um estereótipo. O reggae brasileiro movimenta público, lota shows, tem números muito fortes no digital e artistas com carreiras sólidas há muitos anos. Às vezes falta um reconhecimento mais institucional mesmo, de mídia, de premiações, de curadoria. Mas sentimos que isso vem mudando aos poucos, principalmente porque o público continua sustentando o gênero com muita força”, pontua.

A avaliação conversa com a própria trajetória do reggae no país. Em 2023, São Luís recebeu oficialmente o título de Capital Nacional do Reggae, reconhecimento federal de uma cena que transformou o gênero em cultura local, com radiolas, festas, dança própria e memória coletiva. Ainda assim, fora de circuitos específicos, o reggae muitas vezes segue tratado como linguagem periférica diante de gêneros com maior presença editorial e publicitária.

Uma música brasileira com sotaque próprio

O reggae brasileiro não se limita à reprodução da matriz jamaicana. Ele absorveu a música popular brasileira, o rock, o rap, o samba, o pop e diferentes sotaques regionais. Para Diego Andrade, percussionista do Maneva, é justamente essa mistura que pode abrir novos caminhos fora do país:

“O reggae brasileiro tem uma identidade muito própria. A gente mistura a raiz jamaicana com a musicalidade brasileira, com MPB, rock, pop, até samba às vezes. Isso cria uma sonoridade única. Acho que o streaming abriu essa porta pro mundo descobrir músicas em outros idiomas e culturas, então existe espaço sim. Estamos atualmente em turnê na Europa com vários shows esgotados. Obviamente o público desses shows é em sua maioria brasileiro mas não acho que chegaríamos até aqui se a nossa música não tivesse de certa forma quebrado barreiras geográficas. O mais importante é continuar fazendo um trabalho verdadeiro, porque a verdade atravessa qualquer língua.”

O avanço internacional ainda acontece, em grande parte, apoiado nas comunidades brasileiras fora do país. Mas isso não diminui sua importância. Pelo contrário: mostra como a música brasileira tem criado pontes globais por meio da diáspora, das plataformas e das turnês. No caso do reggae, esse movimento combina identidade local e circulação internacional.

Ao mesmo tempo, a cena continua lidando com preconceitos antigos. Felipe Sousa, guitarrista do Maneva, aponta que o gênero ainda é colocado em caixas estreitas, como se falasse sempre dos mesmos temas.

“Mudou bastante, mas ainda existe [preconceito]. Antes o reggae era colocado numa caixa muito específica, quase como se fosse um som que falasse sempre das mesmas coisas. E o reggae é muito amplo. Ele fala de amor, de espiritualidade, de crítica social, de relações humanas, de felicidade, de dor. O Maneva sempre buscou mostrar essa pluralidade nas músicas. Hoje existe mais abertura, principalmente porque as pessoas passaram a consumir música de forma menos segmentada, mas ainda temos um caminho pra conquistar esse reconhecimento mais amplo”, ele explica.

Olhando para os diferentes ciclos do reggae no Brasil, o Maneva também aponta que a principal mudança está na velocidade. Antes, o público descobria uma banda pelo rádio, por um clipe na TV ou por um show recomendado por amigos. Hoje, uma música pode alcançar milhões de pessoas em poucos dias, enquanto os artistas acompanham o retorno em tempo real pelas plataformas e pelas redes sociais.

Ainda assim, a banda vê uma permanência que atravessa as mudanças de formato. Na leitura do Maneva, a tecnologia alterou a forma de descoberta, mas não apagou o traço mais forte do gênero: a criação de comunidade. Da era dos CDs ao streaming, dos encontros presenciais às playlists, o reggae segue reunindo pessoas em torno da mensagem, da energia da música e de uma identificação que não depende apenas da plataforma em que a canção chega ao ouvinte.

O balanço do Dia Nacional do Reggae, portanto, passa por duas leituras ao mesmo tempo. De um lado, o gênero vive uma fase de força comprovada, com alto consumo, turnês, repertórios duradouros e artistas consolidados. De outro, ainda precisa disputar espaço simbólico dentro das estruturas que definem prestígio no mercado musical. A cena já mostrou que tem público. Agora, a pergunta é se a indústria vai olhar para esses números com a mesma atenção que o público já demonstra há anos.

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