O já tradicional relatório Loud&Clear ganhou uma edição brasileira com um recorte que coloca o país em outro patamar na conversa global da música. Segundo os dados apresentados pelo Spotify, o Brasil chegou pela primeira vez à 8ª posição entre os maiores mercados musicais do mundo, de acordo com a IFPI, Federação Internacional da Indústria Fonográfica.
O dado não aparece isolado. Ele vem acompanhado de um conjunto de números que ajudam a explicar por que o país passou a ocupar esse espaço: o streaming representa 87% de toda a receita de música gravada no Brasil, artistas brasileiros geraram quase R$ 2 bilhões em royalties apenas no Spotify em 2025 e a música em português teve o maior crescimento entre os principais idiomas musicais da plataforma.
Mais do que um relatório de prestação de contas, o Loud&Clear funciona como uma tentativa do Spotify de explicar como o dinheiro circula no streaming. A plataforma lembra que não paga diretamente aos artistas, mas aos detentores dos direitos de gravações e composições, como gravadoras, distribuidoras e editoras, que depois repassam os valores conforme os contratos de cada obra.
Loud&Clear destaca o Brasil no Top 8 global em meio à força da América Latina
O salto do Brasil no ranking global da IFPI acontece em um momento de avanço da música latina como mercado. A América Latina foi a região que mais cresceu em música gravada em 2025, e o Brasil aparece no centro desse movimento por dois motivos: escala interna e capacidade de exportar repertório.
Isso mostra que o país deixou de ser visto apenas como um mercado consumidor grande e passou a ocupar um papel mais forte como gerador de repertório, audiência e receita. O Spotify afirma que, desde sua chegada ao Brasil em 2014, o mercado fonográfico brasileiro cresceu de forma ininterrupta, com o streaming como principal motor desse avanço.
O Loud&Clear também compara os royalties gerados por artistas brasileiros no Spotify em 2025 com a bilheteria do cinema nacional em 2024. Segundo os dados apresentados, os quase R$ 2 bilhões gerados no Spotify equivalem a aproximadamente 80% da receita total obtida pelos filmes brasileiros exibidos nos cinemas do país naquele ano, estimada em R$ 2,5 bilhões.
A comparação ajuda a dimensionar o tamanho econômico da música gravada no ambiente digital. Ainda que cinema e música tenham modelos de negócio diferentes, o dado mostra como o streaming virou uma infraestrutura de receita para artistas, selos e titulares de direitos no Brasil.
Quase R$ 2 bilhões e uma base maior de artistas ganhando dinheiro

Em 2025, artistas brasileiros geraram quase R$ 2 bilhões em royalties somente no Spotify. O valor representa alta de 24% em relação ao ano anterior, acima do crescimento do mercado fonográfico como um todo, segundo os dados apresentados pela plataforma.
Esse avanço não ficou restrito ao topo das paradas. Segundo o Loud&Clear, o número de artistas brasileiros que geraram mais de R$ 1 milhão no Spotify cresceu 24% no último ano e mais do que dobrou desde 2022. Além disso, mais de 40 artistas brasileiros já ultrapassaram a marca de R$ 5 milhões na plataforma.
Outro ponto relevante é o peso dos independentes. De acordo com o relatório, os royalties gerados por artistas e selos independentes brasileiros no Spotify superaram a média global. Em 2025, 60% dos royalties vieram de artistas ou selos independentes, dado que sugere uma cadeia menos concentrada do que a imagem tradicional da indústria poderia indicar.
Durante coletiva de imprensa com veículos brasileiros, da qual o Mundo da Música participou, Carolina Alzuguir, Head de Música do Spotify Brasil, citou Veigh como exemplo dessa mudança de escala dentro da plataforma.
“Essa transformação pode ser observada em trajetórias como a do Veigh, que foi selecionado para o programa RADAR em 2022, quando tinha pouco mais de 400 mil ouvintes mensais e, hoje, já são mais de 7,8 milhões. Seu álbum “Dos Prédios Deluxe” chegou ao número 1 no Spotify Global Top Albums Debut e suas músicas foram adicionadas a mais de 7 milhões de playlists ao redor do mundo. Apostamos no Veigh antes de ele furar a bolha de audiência”.
Português e funk brasileiro puxam a expansão internacional
O crescimento da receita também passa pelo idioma. Em 2025, o português foi o idioma musical de maior crescimento entre os principais idiomas globais no Spotify, com alta de 26% em um ano e 51% em dois anos. O dado coloca a música brasileira em uma posição de circulação internacional mais forte, especialmente em um ambiente em que playlists, recomendações e consumo por nichos ajudam repertórios locais a atravessarem fronteiras.
Dentro desse movimento, o funk brasileiro aparece como um caso emblemático. Entre os gêneros que já geram mais de US$ 100 milhões no Spotify, o funk foi o que mais cresceu no mundo, com avanço de 36% no ano. O dado ajuda a tirar o gênero de uma leitura apenas cultural ou regional e o coloca também como ativo econômico global.
A leitura do relatório também ajuda a desfazer algumas ideias comuns sobre remuneração no streaming. O Spotify afirma que não existe um valor fixo por play, porque o modelo considera a participação de cada música no total de streams e depende de fatores como país, tipo de assinatura, acordos comerciais e divisão de direitos.
Isso significa que dois artistas com o mesmo número de plays podem receber valores diferentes. Também significa que o Spotify é apenas uma das fontes de renda de um artista, ao lado de shows, direitos autorais, sincronizações, vendas diretas, patrocínios e outras plataformas. O ponto central do Loud&Clear é mostrar que, mesmo com essas camadas, o streaming já ocupa um lugar decisivo na economia da música brasileira.
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