Artistas e profissionais do reggae analisam o avanço das mulheres nos palcos e bastidores 

Bruna Moitinho, Xana Romeo e Riane Mascarenhas discutem presença feminina, reconhecimento e caminhos para ocupar mais espaços no reggae.
Foto de Nathália Pandeló
Nathália Pandeló
Xana Romeo, Bruna Moitinho e Riane Mascarenhas falam sobre mulheres no reggae
Xana Romeo, Bruna Moitinho e Riane Mascarenhas falam sobre mulheres no reggae

As mulheres no reggae ocupam hoje palcos, lançam trabalhos autorais, comandam instrumentos e começam a aparecer com mais frequência em funções técnicas. Mas esse espaço foi construído em uma cena que, durante décadas, teve os homens como seus rostos mais conhecidos e também como maioria nas estruturas de produção, contratação e circulação. É nesse ponto que o Lioness Festival, realizado na Bahia, encontra um significado que vai além de sua programação.

Criado por Bruna Moitinho, da Gato Dourado Produções, o festival chegou em 2026 à quarta edição com uma proposta pouco comum: reunir mulheres não só no line-up, mas também na equipe responsável pelo evento. A organização apresenta o Lioness como o primeiro festival de reggae 100% feminino do mundo.

A edição mais recente aconteceu em 8 de agosto, na Casa Rosa, no Rio Vermelho, em Salvador. A programação reuniu a jamaicana Xana Romeo, a banda paulista Ambulantes, a baiana Talita Ataíde, escolhida em votação popular, além das DJs Nahraujo e Indira Marley, do coletivo de dança Agarradinho Roots e de uma intervenção da artista visual Isabel Hoisel.

Uma história em que as mulheres sempre estiveram presentes

A baixa visibilidade feminina não significa que mulheres tenham chegado recentemente ao reggae. Muito pelo contrário. A história do gênero passa por cantoras, compositoras, instrumentistas, DJs, produtoras e empresárias que ajudaram a dar forma à música jamaicana desde antes de o reggae ganhar esse nome.

A própria Recording Academy destaca nomes como Doreen Shaffer, Phyllis Dillon, Rita Marley, Judy Mowatt, Marcia Griffiths e Sister Nancy, além da produtora Sonia Pottinger. Esta última começou a produzir ainda nos anos 1960 e se tornou uma das figuras importantes da indústria fonográfica jamaicana, trabalhando entre o rocksteady e os primeiros anos do reggae.

O problema estava também em quem recebia o reconhecimento. Segundo o Smithsonian Center for Folklife and Cultural Heritage, a cena de roots reggae foi predominantemente masculina durante as décadas de 1970 e 1980, mesmo com a contribuição de artistas como Griffiths, Mowatt e Marley. A instituição identifica uma mudança mais clara a partir da retomada do roots reggae nos anos 90, com uma nova geração de mulheres ganhando espaço.

Para Xana Romeo, filha de Max Romeo e uma das representantes dessa geração mais recente, a desigualdade está ligada à própria formação do mercado.

“A indústria do reggae, dominada por homens, não foi criada pensando em cantoras principais. No começo, as vozes das mulheres eram frequentemente usadas principalmente para harmonias e backing vocals e, quando cantoras mais estabelecidas começaram a surgir, a indústria já estava profundamente enraizada na dominação masculina”, afirma Xana.

Essa estrutura também chegou a ser reconhecida oficialmente na Jamaica. Em relatório apresentado em 2004 ao Comitê das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres, o governo jamaicano registrou diferenças entre homens e mulheres entre artistas e intérpretes de reggae e apontou a menor presença feminina em outras áreas do negócio musical.

“Décadas depois, as mulheres no reggae ainda enfrentam muitas dessas mesmas lutas. Continuamos lutando por espaço, visibilidade, reconhecimento, oportunidades justas e remuneração justa”, diz Xana.

O avanço existe, mas os números ainda mostram distância

Lioness Festival 2026 2 - Foto Mochi Lab
Lioness Festival 2026 (Crédito: Mochi Lab)

Alguns marcos ajudam a enxergar a mudança. No Grammy, por exemplo, a categoria dedicada ao reggae existe desde os anos 80, mas foi somente em 2020 que uma mulher venceu como artista solo. Koffee, então com 19 anos, levou o prêmio de Melhor Álbum de Reggae com “Rapture” e se tornou também a vencedora mais jovem da categoria.

O caso mostra ao mesmo tempo avanço e atraso. As mulheres participaram da construção do reggae desde suas primeiras décadas, mas um dos principais prêmios da indústria fonográfica levou mais de 30 anos para reconhecer uma delas individualmente como vencedora da categoria.

Xana aponta que o reconhecimento histórico também precisa chegar às mulheres que construíram estruturas fora dos holofotes.

“Pessoalmente, gostaria de ver mais reconhecimento dado às mulheres por trás da nossa música aqui na Jamaica. As crianças jamaicanas crescem ouvindo as histórias heroicas dos nossos pais, mas não o suficiente sobre nossas Mães do Reggae”, afirma.

Ela cita Sonia Pottinger, a empresária Patricia Chin, ligada à história da VP Records, e Doreen Shaffer como exemplos. Para a artista, esse olhar deveria incluir ainda mulheres cujas contribuições raramente aparecem nos registros oficiais.

“Também gostaria que olhássemos mais de perto para as esposas, mães e mulheres que estiveram ao lado dos nossos artistas lendários durante suas jornadas. Suas contribuições muitas vezes não são documentadas”, diz.

Na Bahia, outras histórias começam a entrar nas músicas

No Brasil, o Maranhão foi uma das principais portas de entrada e consolidação do reggae a partir dos anos 1970. Uma das hipóteses mais conhecidas é que moradores de São Luís conseguiam captar ondas de rádio vindas do Caribe, o que ajudou a aproximar a região de ritmos afro-caribenhos. A circulação de discos trazidos por marinheiros e por outras rotas, inclusive a partir do Pará, também é apontada como parte dessa história. O vínculo se tornou tão forte que São Luís passou a ser conhecida como a “Jamaica brasileira” e, em 2023, recebeu oficialmente o título de Capital Nacional do Reggae. 

Na Bahia, a cantora, compositora e baixista Riane Mascarenhas, que participou da terceira edição do Lioness, enxerga algo parecido. Natural de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, ela começou a carreira de forma independente antes de se mudar para Salvador e cursar Licenciatura em Música.

“Foi desafiador também me assumir enquanto compositora de reggae, sendo que eu estava abordando novos temas, como maternidade, saudade da família, corpo feminino, por exemplo, dentro de um contexto que, no Recôncavo, é fortemente marcado por temáticas como desigualdades sociais e raciais”, conta Riane.

A recepção dessas composições ajudou a artista a ganhar confiança para continuar levando suas experiências para o gênero. É justamente aí que a representatividade deixa de ser somente uma discussão sobre a quantidade de mulheres no palco. A entrada de novas vozes também muda aquilo que vira assunto dentro das músicas.

Riane pesquisou essa presença feminina academicamente. Seu Trabalho de Conclusão de Curso tratou do processo de aprendizagem das mulheres regueiras da Bahia e a colocou em contato com trajetórias de diferentes gerações.

“Atualmente eu tenho visto muito mais mulheres reggueiras do que antes, inclusive fiz meu TCC sobre o processo de aprendizagem das mulheres reggueiras da Bahia. Nesse processo conheci mulheres que já fazem reggae há muito tempo, como Nelma Marques, Jôh Calado e Danzi”, afirma.

Ela também cita Célia Sampaio, Núbia, Jôh Rais, Tulane Masai e Renata Bastos. Nubia participa de “Mulher no Espelho”, última faixa do EP de Riane.

“Acredito que nós estamos construindo uma nova história dentro do reggae e que estamos contando nossas histórias, a partir do que a gente compõe e canta”, diz.

O desafio também está atrás do palco

É justamente fora do palco que o Lioness tenta atuar de maneira mais direta. Além das apresentações, o festival mantém uma frente de formação para mulheres interessadas em trabalhar tecnicamente com música. Em 2026, foram oferecidos workshops gratuitos de iluminação, com Irma Vidal, e técnica em áudio, com Jéssyca Meirelles.

A procura dá uma dimensão da demanda:

“Apesar da dificuldade de encontrarmos mão de obra feminina disponível no mercado, pudemos constatar que existe uma grande demanda reprimida de mulheres interessadas em atuar em áreas técnicas. Assim como no ano passado, a procura pelos workshops superou nossas expectativas: este ano, mais de 160 mulheres disputaram 50 vagas”, afirma Bruna Moitinho.

Há ainda uma conexão direta entre formação e contratação. A técnica de PA Mari Lago, por exemplo, chegou à própria equipe do Lioness depois de participar do primeiro workshop de áudio promovido pelo projeto.

“Isso mostra o interesse real em ocupar espaços técnicos ainda muito masculinos. Assim, o Lioness atua justamente para formar e inserir essas mulheres no mercado, buscando a equidade de gênero”, diz Bruna.

Para Xana, encontrar esse tipo de estrutura no Brasil chamou tanta atenção quanto subir ao palco do festival.

“O que também me emocionou foi ver mulheres não apenas no palco, mas atrás do palco como engenheiras, técnicas e em outras funções importantes dentro da produção. Essa representação é tão importante para mim quanto ver mulheres se apresentando”, afirma.

A cantora compara a experiência com a realidade que encontra na Jamaica, onde, segundo ela, ainda são poucos os espaços dedicados dessa maneira às artistas do reggae.

“Vir ao Brasil e ver o reggae feminino sendo abraçado e valorizado nesse nível é incrivelmente inspirador. Isso me fez perceber que o som para o qual às vezes lutamos para criar espaço em casa pode ser profundamente valorizado em outro lugar”, diz Xana.

Quatro anos depois, o Lioness tenta chegar a outros públicos

Lioness Festival 2026 (Crédito: Mochi Lab)
Lioness Festival 2026 (Crédito: Mochi Lab)

O crescimento da iniciativa também passa pela tentativa de tirar essa discussão de um circuito muito restrito. Depois de três edições no Centro Histórico de Salvador, o Lioness mudou em 2026 para a Casa Rosa, no Rio Vermelho. A intenção, segundo Bruna, era encontrar pessoas que talvez não chegassem ao evento exclusivamente pelo reggae.

“A mudança buscou ampliar o público e o alcance do festival. Saímos de um público mais nichado para receber também pessoas de outros estilos e curiosos pela música em geral”, explica.

O movimento ajuda a dimensionar um desafio que continua existindo mesmo em um momento de maior circulação das artistas. Não há hoje uma base global consistente capaz de mostrar, por exemplo, qual percentual dos artistas de reggae era formado por mulheres há 20 anos e qual é esse número atualmente. O histórico das premiações, pesquisas acadêmicas, novos nomes e iniciativas dedicadas às mulheres aponta crescimento de visibilidade, mas não permite falar em paridade.

Para Bruna, a própria evolução do Lioness oferece um pequeno retrato desse processo: 

“O principal avanço é a maior visibilidade e circulação de mulheres na cena, ainda que de forma gradual. Chegar a uma equipe 100% feminina no ano passado e, agora, na quarta edição, conseguirmos ampliar também a curadoria musical com duas DJs especializadas no segmento mostra esse crescimento”, afirma.

O que acontece em Salvador, portanto, dialoga com uma história bem maior. Das pioneiras jamaicanas às artistas que hoje escrevem sobre maternidade e corpo feminino na Bahia, essa presença sempre existiu. O que começa a mudar é quem consegue ocupar o palco, decidir como a música será produzida e, principalmente, contar essa história em primeira pessoa.

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