Se alguém perguntasse o que Madonna e Katy Perry têm em comum, não seria exagero responder: pouco. Além do status de estrelas do pop, as duas pertencem a gerações diferentes, construíram repertórios distintos e, em boa parte, dialogam com públicos únicos entre si. Em 2026, porém, elas se encontram em um fenômeno com a cara dos anos 2020: a viralização de músicas lançadas muito antes disso.
Madonna voltou a crescer com o lançamento de “Confessions II”, continuação de “Confessions on a Dance Floor”, de 2005, e levou junto boa parte de seu catálogo. Katy vive um movimento ainda mais inesperado. “The One That Got Away”, faixa de “Teenage Dream” lançada como single em 2011, reapareceu em vídeos sobre relacionamentos, séries e lembranças pessoais.
Os dois casos ajudam a entender por que a nostalgia se tornou um negócio tão presente nas plataformas. Um levantamento da Luminate aponta que o público de 13 a 24 anos está cada vez mais interessado em músicas lançadas antes de seu nascimento. No Spotify, cerca de um terço das reproduções registradas entre janeiro e abril de 2026 foi direcionado a faixas com pelo menos dez anos.
Madonna conecta diferentes fases do catálogo

Segundo a Chartmetric, Madonna passou de uma base estável para 55,6 milhões de ouvintes mensais no Spotify entre fevereiro e agosto, um crescimento de aproximadamente 33%. Os primeiros saltos apareceram em abril, após a participação da cantora no show de Sabrina Carpenter no Coachella e o lançamento de “Bring Your Love”. O número voltou a subir em julho, com a chegada de “Confessions II”.
A apresentação ao lado de Sabrina também colocou “Like a Prayer” diante de uma nova geração. A música foi usada em mais de 564 mil vídeos no TikTok, uma alta de 319% em um ano. Poucos dias depois do festival, o uso do áudio havia triplicado e se manteve nesse patamar durante o verão do hemisfério norte.
Mas seria simples demais atribuir todo o interesse a uma participação especial ou a um disco novo. Madonna já estava encontrando espaço em playlists criadas pelos usuários, muitas delas sem qualquer relação direta com os anos 1980. Em vez de aparecer apenas em seleções de clássicos ou sucessos de determinada década, suas músicas entraram em listas voltadas a festas, passarelas, exercícios e diferentes estados de espírito.
É aí que a redescoberta deixa de ser somente nostalgia. As playlists editoriais do Spotify ainda apresentam Madonna, em sua maioria, como uma “artista de legado”. Já os usuários misturam as músicas antigas com lançamentos recentes, sem muita preocupação com datas. Essas listas independentes respondem por cerca de 57% do alcance de seu catálogo nas playlists da plataforma.
Até a divisão entre músicas “antigas” e “novas” fica menos clara. As faixas dos anos 1980 somam 4,29 bilhões de reproduções entre as mais ouvidas da cantora no Spotify, mas “Hung Up”, de 2005, já alcançou 725,7 milhões de streams e aparece à frente de “Like a Virgin”, “Vogue” e “Into the Groove”.
Katy Perry recupera o pop do início dos anos 2010

Se Madonna impulsionou o passado com um lançamento novo, Katy Perry fez o caminho inverso. Sem depender de uma música inédita, “The One That Got Away” foi eleita pelo TikTok como a canção global do verão de 2026 no hemisfério norte.
A faixa apareceu em mais de 42 milhões de vídeos, que acumularam 55 bilhões de visualizações. No Spotify, já ultrapassou 1,8 bilhão de reproduções e, não por acaso, foi movida para o topo da playlist “This is Katy Perry”. Parte desse alcance veio de conteúdos sobre amores que ficaram no passado, covers e montagens com cenas de séries. Katy também entrou na conversa ao reagir ao ex-namorado que teria inspirado a composição.
A cantora aproveitou o novo interesse para lançar uma versão especial do videoclipe com uma narração de Stevie Nicks. A iniciativa mostra como artistas e gravadoras podem responder a uma viralização sem tentar recriar a campanha original: o material novo parte da história que os próprios usuários passaram a contar com a música.
“É surreal ver ‘The One That Got Away’ vivendo esse momento tantos anos depois. Uma das coisas sobre a música é que você nunca sabe realmente até onde uma canção vai chegar ou quando alguém vai encontrá-la. Desde vê-la sendo escolhida na seção ‘choose your own adventure’ do filme-concerto da minha Lifetimes Tour até acompanhar as pessoas descobrindo a música no TikTok e tornando-a parte de suas próprias histórias, tem sido muito especial. É bom revisitar um capítulo incrível enquanto vejo outro começar”, afirma Katy Perry.
A recuperação da faixa acompanha um interesse maior pelos sons dos anos 2000 e 2010. Segundo a Luminate, a parcela do público norte-americano de 13 a 24 anos que prefere músicas da década de 2020 caiu de 55%, em 2021, para 44%, em 2025. Já a fatia que ouve principalmente canções dos anos 1990 ou anteriores passou de 18% para 25%.
Madonna e Katy mostram que a nostalgia das plataformas não pertence somente a quem viveu o lançamento de uma música. Para parte do público, “Like a Prayer”, “Hung Up” e “The One That Got Away” não são lembranças. São descobertas recentes, encontradas no mesmo fluxo de vídeos e playlists que apresenta os sucessos de 2026.
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