Índia terá lançamentos da UMG restritos a assinantes pagos por 72 horas a partir do final de agosto

A estratégia da UMG mira a conversão de usuários gratuitos e pode servir de laboratório para outros mercados dependentes de streaming.
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Nathália Pandeló
UMG coloca novas regras para lançamentos na Índia

O Universal Music Group (UMG) vai restringir na Índia o acesso aos seus novos lançamentos aos assinantes pagos das plataformas de streaming durante as primeiras 72 horas. A mudança começa no fim de agosto e vale para repertório de artistas indianos e internacionais distribuído em serviços globais e regionais. 

Depois desse período, as músicas também ficarão disponíveis nos planos gratuitos financiados por publicidade. A proposta é usar o interesse pelos primeiros dias de um lançamento para estimular a conversão de ouvintes gratuitos em assinantes, um dos principais desafios da indústria musical indiana.

Estimativas citadas pela UMG apontam que apenas 7% a 10% dos usuários individuais de streaming musical na Índia pagam atualmente por uma assinatura. Ao mesmo tempo, o país ocupa somente a 15ª posição entre os maiores mercados globais de música, apesar de sua população (1,47 bilhão de habitantes) e do volume de consumo digital.

UMG usa os lançamentos para estimular assinaturas

O plano foi anunciado por Sir Lucian Grainge, presidente e CEO da UMG, durante a apresentação dos resultados do segundo trimestre, em 30 de julho. Ao detalhar a nova regra, Grainge explicou como funcionará a janela de exclusividade:

“Começando no fim de agosto, os novos lançamentos da UMG de grandes artistas nacionais e internacionais serão lançados exclusivamente para assinantes pagos de streaming durante suas primeiras 72 horas, tanto em serviços globais quanto regionais.”

Na sequência, o executivo relacionou a medida à remuneração do repertório:

“Depois disso, eles também ficarão disponíveis nos serviços financiados por publicidade. Os fãs ainda terão acesso à música que amam, e os artistas verão o benefício de uma remuneração melhor.”

Michael Nash, diretor digital da UMG, apontou que a Índia deveria ocupar uma posição superior à atual no mercado mundial e classificou o país como uma das maiores oportunidades de crescimento da indústria. Segundo ele, a baixa conversão para planos pagos é justamente um dos fatores que impedem esse avanço.

Como é possível limitar lançamentos na Índia

Tecnicamente, isso é possível porque as gravadoras controlam os termos de distribuição do próprio catálogo e podem definir condições diferentes de disponibilidade para cada modalidade de acesso. Na prática, a UMG entrega os lançamentos às plataformas com regras específicas de janela, permitindo que Spotify, YouTube Music, JioSaavn e outros serviços liberem as faixas primeiro apenas para contas pagas. 

Depois das 72 horas, a mesma gravação passa a ser liberada também nos planos gratuitos com publicidade. Ou seja, não é a plataforma que decide sozinha quem pode ouvir: a restrição faz parte do acordo de licenciamento entre a gravadora e cada serviço de streaming.

China serve de referência para a nova estratégia

Sir Lucian Grainge, presidente e CEO da UMG
Sir Lucian Grainge, presidente e CEO da UMG (Crédito: Divulgação)

A UMG já adotou uma lógica semelhante na China em 2019, em parceria com serviços locais de streaming. Na época, parte do repertório doméstico e internacional passou a ficar atrás de uma barreira de pagamento, já conhecido como paywall.

Grainge afirmou que havia dúvidas sobre os efeitos da estratégia:

“Muitos céticos previram que isso teria um impacto negativo no consumo de música e no desenvolvimento do mercado. O oposto aconteceu.”

A China se tornou o quarto maior mercado mundial de música gravada em 2025, após crescer 20,1% no ano, segundo a IFPI, a Federação Internacional da Indústria Fonográfica. O país também já aparece como o segundo maior mercado digital de música, atrás dos Estados Unidos.

Isso não significa que a mudança na forma de acesso tenha provocado sozinha esse crescimento. Investimentos em repertório, plataformas, assinaturas e produtos para fãs também fazem parte da transformação do mercado chinês.

Estratégia pode chegar ao Brasil?

Por enquanto, não há indicação de que a UMG pretenda implementar a janela de 72 horas no Brasil. A Universal anunciou a medida especificamente para a Índia e não apresentou uma lista de próximos países.

Ainda assim, o teste interessa diretamente ao mercado brasileiro. O Brasil subiu para a oitava posição entre os maiores mercados fonográficos do mundo em 2025, após crescimento de 14,1%. A América Latina, por sua vez, teve 88,1% de sua receita de música gravada concentrada no streaming.

Dados da Pro-Música Brasil mostram a cada ano uma dependência parecida: o streaming já respondia por 87,6% da receita total da indústria fonográfica brasileira em 2024, enquanto as assinaturas cresceram acima do streaming financiado por publicidade.

Esse perfil faz do Brasil um mercado relevante para observar os resultados da experiência indiana. A diferença é que o país já ocupa o Top 10 global, enquanto a UMG apresenta a Índia como um mercado enorme ainda pouco convertido em receita paga. Se a janela de 72 horas conseguir elevar as assinaturas sem derrubar o alcance dos lançamentos na Índia, ela poderá entrar no radar de outras operações onde o streaming gratuito ainda tem peso relevante – os chamados mercados emergentes.

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