Após 50 anos, Djavan revisita álbum de estreia; ao Mundo da Música, Max Viana revela o que encontrou nas fitas originais do pai

Max Viana conta como as fitas originais de Djavan revelaram novas camadas do disco que completa 50 anos em 2026.
Foto de Nathália Pandeló
Nathália Pandeló
50 anos do álbum A voz, o violão, a música de Djavan
50 anos do álbum "A voz, o violão, a música de Djavan"

Cinco décadas depois de Djavan lançar “A Voz, O Violão, A Música de Djavan”, voltar ao primeiro álbum do cantor significou mais do que melhorar tecnicamente uma gravação de 1976. A edição especial lançada pela Som Livre nasceu do acesso às fitas originais e acabou revelando contagens de estúdio, trechos que ficaram de fora do disco, improvisos e uma dimensão ainda mais evidente do papel do violão na construção musical do artista.

O projeto chega exatamente no ano em que Djavan completa 50 anos de carreira e recupera o álbum que apresentou ao público músicas como “Flor de Lis”, “Fato Consumado”, “Muito Obrigado” e “Maria das Mercedes”. Produzido originalmente por Aloysio de Oliveira, o disco foi lançado pela Som Livre em 1976 e marcou a estreia autoral do músico, que antes já havia gravado para trilhas de novelas e participado do Festival Abertura.

Na edição de 50 anos, Max Viana, cantor, produtor musical e filho de Djavan, trabalhou na edição das 12 faixas a partir das fitas originais, ao lado de Alexandre Rabaço, responsável pela remixagem e remasterização. O ponto de partida foi preservar a gravação conhecida há cinco décadas, sem substituir instrumentos, alterar arranjos ou tentar transformar o álbum de 1976 em uma produção com estética de 2026.

Abrir as fitas de Djavan revelou um disco além do álbum conhecido

Para Max, o primeiro impacto veio antes mesmo das decisões técnicas. Trabalhar com as gravações abertas em múltiplas pistas permitiu escutar separadamente elementos que, durante décadas, estiveram misturados na versão final do disco. Surgiram contagens antes do início das músicas, tentativas interrompidas, instrumentos isolados e detalhes do ambiente da sessão.

“É emocionante poder ouvir esse disco aberto, multitrack, esse disco que eu conhecia tão bem e que é tão importante para a carreira do meu pai, e poder ouvir detalhes de gravação, ver contagem, tipo ‘um, dois, três, quatro’, para começar as músicas. Muito incrível”, diz Max.

Esse acesso também mudou a maneira como Viana enxergava um disco que conhecia desde muito cedo. Ao retirar temporariamente os demais instrumentos da equação, o produtor passou a perceber com mais clareza como voz, melodia e violão já formavam uma estrutura praticamente completa antes dos arranjos.

“Foi exatamente por isso que eu tive a ideia de fazer duas músicas em voz e violão, porque era tão incrível, foi tão rico e isso, na verdade, revelou essa coisa do musicista mesmo, do meu pai. Da porção violão dele, do quanto o violão é importante para a construção da obra dele”, afirma Viana.

Dessa descoberta surgiram duas das novidades da edição comemorativa: versões apenas com voz e violão de “Embola Bola (Cateretê)” e “Muito Obrigado”. Não se trata de novas gravações feitas por Djavan para o aniversário do álbum. O material vem das próprias sessões originais.

O desafio de melhorar o som sem transformar o disco de 1976

A remasterização de um álbum com cinco décadas coloca uma questão particular: até onde a tecnologia atual pode interferir em uma gravação que já faz parte da memória de diferentes gerações?

No caso de “A Voz, O Violão, A Música de Djavan”, Max explica que a equipe estabeleceu desde o início um limite claro. O objetivo seria aproveitar recursos atuais para trabalhar frequências, definição e ruídos, mas sem criar a impressão de que o público estava diante de outra gravação.

“A gente tinha uma coisa bem clara na cabeça, que era preservar a sonoridade artística do projeto. A intenção era dar uma limpada no som, porque hoje nós temos uma estética sonora que é mais clara, mais limpa, mais bem resolvida no grave, no médio, no agudo e tal, com menos chiado”, explica Max.

A própria edição comemorativa deixa esse princípio evidente: nenhuma nota, acorde ou instrumento foi retirado ou acrescentado às 12 faixas originais. O trabalho concentrou-se no material registrado nas sessões de 1976, usando a tecnologia disponível hoje para reorganizar e tratar esse áudio.

A escolha também envolve uma questão que vai além da técnica. Para quem já escuta aquelas músicas há décadas, mudanças profundas poderiam alterar justamente as características às quais o público se acostumou.

“A gente também não queria que existisse uma percepção de que eram outros arranjos ou outra gravação, porque a gente entendia que esse disco é um disco antológico. A sensação era de melhora na audição, mas sem comprometer a relação afetiva que as pessoas já tinham com aquelas músicas que elas conhecem há 50 anos”, afirma Viana.

Em alguns momentos, isso significou deliberadamente não buscar a sonoridade mais limpa ou moderna possível. A referência continuou sendo a mixagem lançada em 1976.

“Várias vezes a gente optou por deixar o som ‘mais próximo do som de 50 anos atrás’ para a preservação da questão artística, do ambiente que existia ali de mixagem e tudo. A referência de mixagem está bem próxima da original mesmo”, conta Max.

A diferença ajuda a explicar o que efetivamente muda em uma remasterização desse tipo. O trabalho não procura corrigir decisões musicais feitas durante a gravação. A intenção é permitir que o mesmo registro possa ser ouvido com maior definição nos equipamentos atuais.

“Então a gente não aproveitou para fazer correções artísticas, a gente fez correções sonoras para ficar mais fácil para as pessoas poderem continuar ouvindo pelos próximos 50 anos”, resume Viana.

O violão ajuda a entender como as músicas de Djavan nascem

Max Viana, filho de Djavan

Se o processo começou como uma recuperação de um álbum histórico, ouvir cada elemento separadamente acabou apontando para uma característica que atravessaria toda a carreira de Djavan: a relação entre composição e ritmo.

Para Max, o primeiro disco já registra de maneira clara a ligação particular do pai com o violão. Em vez de funcionar somente como acompanhamento para a voz, o instrumento participa da maneira como as melodias são construídas.

“Esse disco, para mim, tem essa primeira mostragem desse artista com uma relação tão ímpar com o seu violão, que já vem da composição. Parte da composição dele tem a ver com a coisa rítmica que o violão dele traz”, explica Max.

Essa característica aparece de forma mais exposta nas versões de “Embola Bola (Cateretê)” e “Muito Obrigado” selecionadas para a edição especial. Ao retirar a banda e deixar apenas os elementos que estavam na origem das canções, o projeto aproxima o público do estágio inicial da composição.

“A simbiose entre o violão e a melodia é uma coisa que eu queria muito poder destacar. E aí nessas músicas, tanto no ‘Embola Bola’ quanto no ‘Muito Obrigado’, ficou claro que seria riquíssimo a gente ter essas músicas mostradas assim, só de voz e violão”, afirma Viana.

Há também uma memória familiar por trás da escolha. O que chega agora às plataformas se aproxima de uma situação que Max conhecia longe dos palcos e estúdios.

“É uma coisa que eu, desde criança, acostumei a ver ele fazendo em casa. Eu achei que o público ia ficar muito feliz de ter acesso a isso, porque isso, embora tenha a complexidade ali da voz, violão, a melodia, a parte rítmica do violão, é essência da composição dele”, diz Max.

“Maria das Mercedes” guardava mais 20 segundos de Djavan

O trabalho sobre as fitas trouxe ainda uma surpresa que não estava na versão conhecida de “Maria das Mercedes”. Ao escutar a sessão completa, Max encontrou cerca de 20 segundos adicionais no fim da gravação, com um improviso de Djavan que havia ficado fora do álbum original. O trecho foi recuperado para a edição comemorativa.

A descoberta ganha outra dimensão quando observada a partir da carreira construída posteriormente pelo músico. Improvisos vocais, frases melódicas e pequenas variações sobre a harmonia se tornariam elementos recorrentes do trabalho de Djavan nas décadas seguintes.

“Ouvindo o tape, eu descobri que tinha esse improviso no final, que é uma coisa muito marcante da carreira dele. Esse improviso, esses esquetes que ele fazia, bem rítmicos e melódicos, quase que outras composições em cima das harmonias das músicas”, conta Viana.

Assim, os segundos recuperados não funcionam só como um material inédito encontrado nos arquivos. Eles permitem escutar, ainda no primeiro disco, algo que posteriormente se transformaria em uma das características reconhecíveis da interpretação do cantor.

“Trazer isso para o público também é apontar para o início do que viria a ser uma marca tão forte na música dele”, afirma Max.

A relação entre pai e filho entrou no processo de recuperação

Max Viana trabalha musicalmente com Djavan há anos, mas conta que essa troca começou antes mesmo de existir uma relação profissional formal entre os dois. Conhecer profundamente o repertório do pai ajudou a determinar o que poderia ser alterado e, principalmente, o que deveria permanecer intacto.

“Eu trabalho já com meu pai há muitos anos, mesmo informalmente quando eu não trabalhava, por conhecer bastante a obra dele, conhecer bastante a cabeça musical dele. A nossa troca sempre foi num lugar muito sintonizado, assim, de quem realmente compreende a música dele, os lugares onde ele quer chegar”, diz Max.

Nesse processo, o conhecimento acumulado sobre a discografia serviu também para interpretar aquilo que surgia nas fitas. A proposta não era olhar para o material de 1976 isoladamente, mas perceber quais elementos registrados naquele momento continuariam aparecendo na obra de Djavan

Foi dentro desse limite que surgiram as três principais alterações perceptíveis da edição: as duas faixas em voz e violão e a versão estendida de “Maria das Mercedes”. Max apresentou as possibilidades ao pai antes de incorporá-las ao projeto.

“Quando eu sugeri, quando eu mostrei para ele, ele ficou muito feliz e gostou muito de que as músicas pudessem ser ouvidas pelas pessoas dessa forma. Ele mesmo não tinha mais a noção do quão bom era daquele jeito, porque ele tinha na cabeça só as versões da banda, com arranjo”, afirma Max.

Cinquenta anos depois, o primeiro disco ganha outra função

Quando “A Voz, O Violão, A Música de Djavan” chegou ao público, em 1976, Djavan já vinha construindo espaço como intérprete de trilhas da Globo e havia conquistado o segundo lugar no Festival Abertura de 1975 com “Fato Consumado”. O álbum, porém, apresentou de maneira concentrada o compositor, cantor e violonista que desenvolveria uma das discografias mais reconhecidas da música brasileira, inclusive com reconhecimento internacional.

Olhado agora, o disco também permite encontrar características que continuariam aparecendo nos trabalhos seguintes. O samba, as referências afro-brasileiras, as relações rítmicas do violão, as melodias e os improvisos que se tornariam parte da linguagem de Djavan já estavam registrados naquele conjunto de 12 faixas.

A diferença é que as fitas abertas permitem aproximar o ouvido do processo que aconteceu dentro do estúdio. Em vez de simplesmente atualizar um catálogo antigo para o padrão técnico contemporâneo, a edição de 50 anos expõe partes da construção daquele álbum e mostra quanto do Djavan das décadas seguintes já estava presente em sua estreia.

Para Max, ter familiaridade com essa trajetória foi determinante para distinguir uma descoberta de arquivo de uma simples curiosidade de estúdio.

“Eu acho que esse olhar sobre essa obra, para uma pessoa que conhece tanto, talvez seja mais fácil do que para uma pessoa que caísse de paraquedas para fazer um trabalho ali de remasterização desse disco tão importante”, afirma Viana.

A edição comemorativa chega, assim, menos como uma tentativa de atualizar o passado e mais como uma nova porta de entrada para um trabalho que segue circulando entre gerações. Ao retornar ao primeiro álbum justamente no ano em que completa cinco décadas de carreira, Djavan coloca sua estreia novamente em destaque, agora com materiais que ajudam a entender como aquela linguagem musical começou a tomar forma. 

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