Ideval Anselmo deixa um dos legados mais sólidos do Carnaval de São Paulo. O compositor morreu aos 85 anos, na Quarta-Feira de Cinzas (18), na capital paulista, após sofrer um aneurisma na aorta abdominal. Ele chegou a ser atendido no Hospital Geral de Vila Nova Cachoeirinha, mas não resistiu.
Pentacampeão dos desfiles paulistanos, Ideval ajudou a consolidar o samba-enredo como peça central do espetáculo na avenida. Sua trajetória atravessa mais de cinco décadas e se confunde com o crescimento do Carnaval de São Paulo como evento de grande porte, capaz de mobilizar milhões de pessoas e movimentar cifras relevantes para a economia cultural da cidade.
A trajetória de Ideval Anselmo no samba paulistano
Nascido em 18 de setembro de 1940, em Catanduva, no interior paulista, Ideval Anselmo iniciou sua caminhada no samba em 1969, na tradicional escola Camisa Verde e Branco. Logo nos primeiros anos, passou a disputar sambas-enredo, formato que exige narrativa clara, força melódica e capacidade de envolver o público durante todo o desfile.
Em 1972, emplacou “Literatura de Cordel”, seu primeiro samba-enredo como compositor principal. A partir daí, construiu uma sequência de vitórias que o colocou entre os maiores nomes do Carnaval de São Paulo. Seus sambas foram campeões em 1974, 1976, 1977 e 1979 pela Camisa Verde e Branco. Em 1984, voltou a conquistar o título, desta vez pela Rosas de Ouro.
Ao longo da carreira, também passou por agremiações como Tom Maior e Unidos do Peruche. Essa circulação por diferentes escolas reforçou sua reputação como compositor versátil, capaz de dialogar com distintas comunidades e propostas temáticas sem perder identidade.
“Narainã” e o título de maior do século
Entre as obras mais emblemáticas de Ideval está “Narainã, a alvorada dos pássaros”, samba-enredo da Camisa Verde e Branco apresentado em 1977. A composição, feita em parceria com Zelão e Jordão, foi eleita o maior samba-enredo do século 20 em concurso promovido pelo jornal Folha de S.Paulo.
Para quem não acompanha o universo das escolas de samba de perto, vale explicar: o samba-enredo é a trilha que conduz o desfile e narra o tema escolhido pela escola. Ele precisa sustentar a energia da bateria, o canto dos componentes e a evolução na avenida. Quando uma obra atravessa décadas sendo lembrada e reverenciada, ela ultrapassa o momento do desfile e se transforma em referência histórica.
“Narainã” alcançou esse patamar. A música foi regravada e interpretada por diferentes artistas ao longo dos anos, mantendo-se presente na memória coletiva do Carnaval paulistano.
Ideval também teve composições defendidas por nomes como Jamelão, Eliana de Lima, Thobias da Vai-Vai, Fabiana Cozza e seu pai, Oswaldo dos Santos, além do grupo Originais do Samba. Em 2011, Fabiana dividiu o palco com o pai na gravação de “Narainã”, reforçando o alcance intergeracional da obra.
Reconhecimento institucional e impacto cultural
Desde 2005, Ideval integrava a Embaixada do Samba Paulistano. Além da atuação nas escolas, lançou álbum solo reunindo sambas-enredo, ijexá e composições em estilo gafieira, levando sua produção para além da avenida.
A morte do compositor provocou manifestações de pesar de artistas, pesquisadores e instituições culturais. O Ministério da Cultura divulgou nota oficial destacando sua relevância para o samba paulista.
“O Ministério da Cultura manifesta profundo pesar pelo falecimento do compositor Ideval Anselmo, um dos maiores nomes do carnaval de São Paulo.”
O velório foi realizado no Cemitério da Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte da capital.
Ao longo de sua trajetória, Ideval acompanhou a transformação estrutural do Carnaval de São Paulo. O evento passou de celebração com menor visibilidade nacional para espetáculo transmitido, patrocinado e organizado em moldes profissionais. Nesse processo, compositores experientes tiveram papel determinante na construção de um padrão artístico reconhecido pelo público e pelos jurados.
Pentacampeão e autor de um dos sambas mais celebrados do país, Ideval deixa uma obra que continua ecoando nas quadras, nos ensaios e nos desfiles. Seu nome permanece ligado à consolidação do samba-enredo paulistano como expressão cultural de grande alcance popular.
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