Deezer diz que faixas feitas por IA já são 44% dos novos envios à plataforma

A Deezer revela 75 mil uploads diários de faixas que utilizam a inteligência artificial e soma ao debate sobre fraude e transparência.
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Nathália Pandeló
Deezer atualiza dados sobre músicas com IA
Deezer atualiza dados sobre músicas com IA (Crédito: Divulgação)

A Deezer colocou a música feita por inteligência artificial em um novo patamar de escala dentro do streaming ao revelar números atualizados de seu impacto. Segundo dados divulgados pela própria plataforma nesta segunda-feira, 20 de abril, cerca de 75 mil faixas geradas por IA estão sendo enviadas por dia ao serviço (ou 2 milhões por mês), o equivalente a aproximadamente 44% de todos os uploads diários.

O crescimento foi de mais de 7 vezes em um período curtíssimo. O número chama atenção não só pelo volume, mas pelo que ele indica sobre a velocidade dessa transformação. Em pouco mais de um ano, esse fluxo saltou de 10 mil para 75 mil músicas por dia, segundo a empresa. 

Ao mesmo tempo, a Deezer afirma que esse conteúdo ainda representa uma fatia pequena do consumo dentro da plataforma, entre 1% e 3% dos streams totais, e que 85% dessas reproduções são classificadas como fraudulentas e, por isso, desmonetizadas.

O que a Deezer mudou

A atualização não ficou só no dado de volume. A Deezer também informou que deixou de armazenar versões em alta resolução de faixas geradas por IA. Além disso, reiterou que esse tipo de conteúdo segue sendo detectado, rotulado e retirado das recomendações algorítmicas, além de ficar fora das playlists editoriais.

Na prática, a empresa tenta criar um freio para dois problemas ao mesmo tempo. O primeiro é a inundação do catálogo por músicas sintéticas produzidas em massa. O segundo é o uso dessas faixas em esquemas de manipulação de reproduções, algo que afeta a distribuição de royalties e distorce a lógica do streaming. 

Quando a Deezer diz que 85% dos streams dessas músicas foram considerados fraudulentos em 2025, ela está apontando que boa parte desse material não está sendo enviada para disputar audiência real com o público, mas para tentar capturar receita de forma artificial, utilizando as já conhecidas “fazendas de streams”.

“A música gerada por IA já deixou de ser um fenômeno de nicho e, na Deezer, acreditamos que é hora de toda a indústria musical assumir uma responsabilidade compartilhada para proteger os direitos dos artistas e garantir transparência aos fãs”, afirma Alexis Lanternier, CEO da Deezer.

“Graças à nossa tecnologia e às medidas proativas que implementamos há mais de um ano, mostramos que é possível reduzir ao mínimo as fraudes relacionadas à IA e a diluição de pagamentos no streaming. Desde janeiro, disponibilizamos nossa tecnologia de detecção para licenciamento e estamos ansiosos para ver colegas do setor de todos os tipos se juntarem a nós na luta por justiça na era da IA”, completou.

Alexis Lanternier
Alexis Lanternier, CEO da Deezer (Crédito: Divulgação)

Por que esse anúncio pesa no mercado

O anúncio tem peso porque a Deezer vem tentando ocupar um espaço bem específico nesse debate: o de plataforma que não só detecta, mas sinaliza com transparência quando uma faixa foi criada por inteligência artificial. A empresa afirma ser a única do setor a fazer essa rotulagem de forma explícita e diz que já identificou e marcou mais de 13,4 milhões de faixas desse tipo em 2025.

Isso ajuda a explicar por que o tema deixou de ser apenas tecnológico e passou a ser também econômico. Segundo estudo citado pela Deezer, feito pela CISAC, a Confederação Internacional de Sociedades de Autores e Compositores, com a PMP Strategy, quase 25% da receita dos criadores pode estar em risco até 2028, em um impacto que pode chegar a 4 bilhões de euros. 

O ponto central aqui é simples: se as plataformas forem tomadas por conteúdo sintético barato, replicável e usado de forma oportunista, o bolo de remuneração fica mais pressionado para quem de fato compõe, grava e lança música no mercado profissional, com custos reais.

Transparência vira ativo num setor ainda sem padrão

Deezer revela estudo sobre IA
Deezer revela estudo sobre IA (Crédito: Divulgação)

Outro ponto importante é que a Deezer tenta transformar essa tecnologia em uma frente de negócio. A empresa informou que passou a licenciar sua ferramenta de detecção de música gerada por IA desde janeiro. Isso sugere que a discussão já não está restrita ao posicionamento institucional de uma plataforma, mas começa a entrar no terreno da infraestrutura para o mercado como um todo.

Ao mesmo tempo, os dados de percepção pública mostram que o consumidor ainda tem dificuldade de distinguir esse conteúdo. Em pesquisa internacional encomendada pela plataforma e realizada pela Ipsos com 9 mil pessoas em oito países, 97% dos participantes não conseguiram diferenciar músicas feitas por IA de faixas humanas em um teste cego. 

Já 80% disseram concordar que músicas 100% geradas por máquina deveriam ser claramente identificadas aos ouvintes, enquanto 73% gostariam de saber quando esse tipo de faixa está sendo recomendado por um serviço de streaming.

Esse conjunto de números ajuda a entender o momento atual: a tecnologia já ganhou escala, o público ainda não consegue percebê-la com clareza e as plataformas seguem longe de um padrão comum de sinalização. A movimentação da Deezer pressiona o restante do setor a decidir se vai tratar a música feita por IA como mais uma categoria de catálogo ou como um risco operacional, regulatório e de remuneração que exige regras mais claras.

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