Aquisição da Downtown pela Virgin Music Group é aprovada pela Comissão Europeia; setor independente reage

A aprovação da aquisição da Downtown encerra a investigação e o negócio de US$ 775 deve ser concluído nas próximas semanas.
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Nathália Pandeló
Virgin Music Group e Downtown - logos, Impala

A compra do Downtown Music Group pela Virgin Music Group, braço da Universal Music Group, foi oficialmente aprovada pela Comissão Europeia após mais de 14 meses de análise regulatória. O aval representa a última condição necessária para a conclusão do negócio, avaliado em US$ 775 milhões, que agora deve ser finalizado nas próximas semanas.

A decisão, no entanto, veio acompanhada de uma exigência central: a venda da Curve Royalty Systems, empresa de contabilidade e processamento de royalties do grupo adquirido. A medida busca evitar que a Universal Music Group tenha acesso a dados comerciais sensíveis de concorrentes que utilizam a plataforma.

A exigência da venda da Curve e o foco em dados

Comissão Europeia
Comissão Europeia

Desde que a operação foi formalmente notificada à Comissão Europeia, em junho de 2025, o órgão demonstrou preocupação com o possível impacto concorrencial da transação, especialmente no mercado de distribuição para gravadoras independentes no Espaço Econômico Europeu. Em julho, o caso avançou para uma investigação aprofundada de Fase II. Em novembro, foi emitida uma Declaração de Objeções apontando riscos relacionados ao acesso a informações estratégicas.

Ao aprovar o negócio, a Comissão determinou que a Curve Royalty Systems deverá ser alienada integralmente como empresa independente, incluindo funcionários, contratos e a plataforma tecnológica. Até a conclusão dessa venda, a Curve permanecerá operando de forma separada.

Valdis Dombrovskis, Comissário para Economia e Produtividade, declarou:

“A indústria da música desempenha um papel importante ao levar as criações dos artistas ao público, e é essencial preservar a disponibilidade de diversos prestadores de serviços para os consumidores.”

Ele acrescentou:

“Nossa investigação aprofundada confirmou que um grande número de empresas continuará a oferecer seus serviços de distribuição para gravadoras e artistas europeus. Ao exigir a venda da Curve, estamos dando um passo decisivo para proteger dados sensíveis e impedir que sejam controlados por um grande concorrente.”

A avaliação da Comissão concluiu que, com a alienação da Curve, a operação não prejudicará a concorrência nem limitará as opções disponíveis para artistas e selos independentes.

O que a integração representa para Virgin e Downtown

JT Myers e Nat Pastor, Virgin Music Group
JT Myers e Nat Pastor, da Virgin Music Group (Crédito: Jordan Strauss)

Com a aprovação, a Virgin Music Group poderá integrar as demais divisões da Downtown, que incluem distribuição, serviços para artistas e selos, administração editorial e tecnologia aplicada ao negócio musical. Fundada em 2007, a Downtown atende mais de 5 mil clientes corporativos e alcança mais de 4 milhões de criadores em 145 países.

O portfólio reúne empresas como FUGA, Downtown Artist & Label Services, CD Baby, Downtown Music Publishing e Songtrust. Juntas, Virgin e Downtown passam a oferecer uma estrutura global que abrange distribuição digital e física, marketing, inteligência de dados, direitos conexos, sincronização, gestão de royalties e administração editorial.

Nat Pastor e JT Myers, co-CEOs da Virgin Music Group, afirmaram:

“Trazer a equipe excepcional e as capacidades da Downtown para a Virgin Music Group significa maior flexibilidade e um conjunto de serviços mais afiado para empreendedores independentes, artistas e selos. Ao unir duas empresas culturalmente compatíveis com forças profundamente complementares, estamos criando um ecossistema mais poderoso e mais aberto, que oferece aos empreendedores independentes os recursos, investimento e tecnologia para terem sucesso em seus próprios termos. Agradecemos a análise criteriosa da Comissão Europeia e esperamos dar as boas-vindas aos nossos novos parceiros e colegas da Downtown enquanto continuamos a fortalecer a comunidade independente juntos.”

Pieter van Rijn, CEO da Downtown Music
Pieter van Rijn, CEO da Downtown Music (Crédito: Divulgação)

Pieter van Rijn, CEO da Downtown Music, declarou:

“Ao unir forças com a Virgin Music Group, estamos ajudando a construir um ambiente mais diverso, dinâmico e rico em oportunidades, que amplia a independência e expande o impacto cultural dos parceiros extraordinários que atendemos. Estamos felizes em entrar neste próximo capítulo da evolução da Downtown e trabalhar de perto com Nat, JT e a equipe mais ampla da Virgin para continuar defendendo a música independente em uma escala verdadeiramente global.”

Reações do setor independente e próximos passos

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Apesar do aval, entidades representativas do setor independente mantiveram postura vigilante. A IMPALA, que representa selos independentes na Europa, destacou que apenas 1% das fusões notificadas à Comissão Europeia em 2025 avançaram para investigação detalhada de Fase II, classificando o escrutínio como um sinal de rigor regulatório.

A organização afirmou:

“A IMPALA precisará avaliar a decisão quando ela for publicada para ver que outras ações podem ser necessárias para corrigir eventuais erros.”

A AIM, associação britânica de música independente, também se manifestou. Gee Davy, CEO da entidade, declarou:

“A UMG deve agora respeitar plenamente a liberdade de selos e artistas de sair sem incentivo ou penalidade e seguir o Código de Troca de Distribuição Digital.”

Já a WIN, rede global que reúne associações independentes, considerou que o processo estabeleceu um precedente importante. Noemí Planas, CEO da organização, afirmou:

“A comunidade independente pode se orgulhar do que foi alcançado desde que essa aquisição foi anunciada há 14 meses. Esperamos que as autoridades de concorrência permaneçam vigilantes.”

A operação enfrentou oposição pública ao longo de 2025, incluindo cartas assinadas por mais de 200 profissionais e a campanha “100 Voices”, que pediu o bloqueio integral do negócio. Ainda assim, a Comissão concluiu que, com a venda da Curve, a estrutura concorrencial do mercado europeu permanece preservada.

O desfecho consolida a estratégia da Universal Music Group de expandir sua presença em serviços voltados ao mercado independente, agora sob novas salvaguardas regulatórias. Ao mesmo tempo, sinaliza que futuras aquisições de grande porte no setor musical devem continuar sob análise rigorosa das autoridades europeias.

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