Madonna relata entraves da Universal Pictures à sua aguardada cinebiografia, escrita pela própria cantora

Aos 67 anos, Madonna diz que impasse com a Universal adiou sua cinebiografia e levou a cantora a negociar uma série com a Netflix.
Foto de Nathália Pandeló
Nathália Pandeló
Madonna (Crédito: Chris Weger)
Madonna (Crédito: Chris Weger)

Madonna voltou a falar sobre a cinebiografia que pretendia dirigir sobre a própria vida e revelou que o projeto foi travado após um impasse com a Universal Pictures. A cantora afirmou que passou dois anos trabalhando no roteiro e outros dois anos ao lado da equipe do estúdio, com processos de orçamento e escalação de elenco, antes de a produção ser paralisada.

O filme teria Julia Garner, vencedora do Emmy por “Ozark”, no papel principal. O projeto havia sido anunciado como uma das cinebiografias musicais mais aguardadas dos últimos anos, não só pelo peso de Madonna na cultura pop, mas também porque a artista queria comandar pessoalmente a narrativa de sua trajetória.

Segundo Madonna, o ponto de ruptura foi o orçamento. A cantora disse que precisava de uma produção grande para dar conta de uma vida marcada por mudanças de país, fases musicais muito diferentes, turnês, polêmicas, cinema, dança, moda e disputas com a indústria.

“Eu deveria fazer um filme sobre a minha vida. Trabalhei no meu roteiro por dois anos e passei dois anos na Universal Studios com os produtores de linha fazendo orçamento e elenco. Tivemos um desentendimento, eu e a Universal, em relação ao orçamento, porque eu precisava… eu tive uma vida extraordinária. Eu tive uma vida enorme, então precisava de um orçamento grande”, declarou.

O impasse com a Universal

Na entrevista à Interview, Madonna disse que a Universal não conseguiu entender a escala do projeto. A artista afirmou que tentou encontrar uma alternativa para reduzir os custos e chegou a propor filmar parte da produção na Sérvia, onde a estrutura poderia baratear a cinebiografia. A ideia, segundo ela, não foi bem recebida pelo estúdio.

“Eles não conseguiam entender isso. Encontrei uma maneira de fazer por menos dinheiro na Sérvia, mas acho que eles não estavam interessados na ideia de… não sei. Talvez eles simplesmente não acreditassem em mim. Uma das primeiras reações deles foi: ‘Nós não acreditamos que você ficaria na Sérvia por mais de quatro dias’. E eu disse: ‘Vocês leram o roteiro?’ Minha vida inteira foi sobrevivência. Eu não vou para lá de férias.”

O caso expõe uma tensão comum em cinebiografias musicais de grande escala. Quando o artista biografado participa diretamente da criação, a disputa não é apenas sobre custo. Também envolve controle de narrativa, tom, seleção de momentos da carreira e a imagem que será construída para o público. No caso de Madonna, esse controle pesa ainda mais porque sua carreira sempre foi marcada por reinvenções e confrontos com expectativas externas.

A tentativa de transformar o filme em série

Madonna 2 - Crédito Chris Weger
Madonna (Crédito: Chris Weger)

Depois que o projeto com a Universal desandou, Madonna afirmou que recebeu uma proposta da Netflix para transformar sua história em uma série. A mudança de formato parecia fazer sentido: uma vida longa e cheia de fases pode caber melhor em episódios do que em um longa de duas horas. Ainda assim, o processo trouxe outro problema.

Segundo a cantora, ela não poderia usar o roteiro desenvolvido com a Universal sem recomprá-lo por um valor que classificou como extorsivo. Mesmo tendo participado da escrita, Madonna afirmou que ficou presa a questões contratuais e precisou entender uma lógica completamente diferente de produção.

“Eu estava no limbo quando aquilo desmoronou, e então a Netflix entrou em contato para fazer uma série. Esse foi todo um outro processo longo, porque eu não podia usar o roteiro que tinha com a Universal a menos que o comprasse deles por um preço extorsivo, mesmo eu tendo escrito. Não pergunte.”

Madonna disse ainda que passou cerca de oito ou nove meses buscando o caminho certo para a série, incluindo reuniões com roteiristas e a tentativa de encontrar um showrunner. No mercado audiovisual, o showrunner é a pessoa que conduz a visão criativa e operacional de uma série. É uma função central, porque organiza roteiro, ritmo, equipe e direção narrativa ao longo dos episódios.

“Você precisa encontrar muitos roteiristas e achar o showrunner certo, e eu não consegui encontrar um.”

Julia Garner segue no radar de Madonna

Embora a cinebiografia não tenha avançado como planejado, Julia Garner continuou ligada ao universo recente de Madonna. A atriz subiu ao palco durante a “Celebration Tour”, participou do curta “Confessions II” e também apareceu ao lado da cantora em gravações da segunda temporada de “The Studio”, série da Apple TV.

A escolha de Garner já havia chamado atenção quando foi revelada, porque o processo de seleção envolveu uma preparação intensa de canto, dança e performance. O papel exigiria mais do que semelhança física. Para interpretar Madonna, a atriz precisaria reproduzir sua famosa energia de palco, postura corporal, ambição artística e a tensão de uma mulher que construiu poder em uma indústria dominada por homens.

O título “Who’s That Girl” chegou a aparecer em uma imagem de roteiro publicada por Madonna em 2024, em referência ao filme e à música lançados por ela em 1987. Antes disso, o projeto também circulou com o nome provisório “Little Sparrow”. Entre os momentos que a cantora queria abordar estavam sua chegada a Nova York, a criação de “Like a Prayer”, a fase de “Evita” e a relação com nomes da cena ballroom de Harlem, como Jose Gutierez Xtravaganza e Luis Xtravaganza, ligados ao impacto de “Vogue”.

Enquanto a história audiovisual não encontra formato definitivo, Madonna deslocou a energia criativa para a música. Seu novo álbum, “Confessions II”, está previsto para 3 de julho e retoma a parceria com Stuart Price, produtor de “Confessions on a Dance Floor”, lançado em 2005. A cantora disse que procurou Price porque acredita que o mundo vive um momento sombrio e que as pessoas precisam dançar.

Madonna afirmou que, apesar do cancelamento da cinebiografia, continua determinada a contar sua própria história em outros formatos. Para a artista, o projeto não foi abandonado, apenas redirecionado. Entre cinema, série, curta, turnê e álbum, ela segue tentando controlar como sua trajetória será apresentada, em uma disputa que envolve orçamento, direitos, memória e poder criativo.

Leia mais: