A Udio deu mais detalhes sobre a Starstruck, nova plataforma de música com inteligência artificial que deve chegar ao mercado ainda este ano com uma proposta bem diferente dos geradores abertos que marcaram a primeira fase dessa tecnologia. Em vez de permitir criações genéricas a partir de comandos de texto, o app será baseado em obras, vozes e artistas previamente autorizados.
As informações foram reveladas em um relatório da Water & Music, que resumiu um webinar privado realizado pela Udio com a Kobalt, uma de suas parceiras de licenciamento. Segundo a publicação, a apresentação aconteceu em 30 de abril e teve demonstração do CEO da Udio, Andrew Sanchez, além da participação de executivos da Kobalt.
O movimento indica uma tentativa de transformar uma prática que já acontece de forma desorganizada nas redes, como covers de IA, remixes não oficiais e versões com vozes clonadas, em um produto pago, controlado e com remuneração para titulares de direitos. Para o mercado musical, a pergunta deixa de ser apenas se a IA deve ou não ser usada, e passa a ser quem autoriza, quem controla e quem recebe por esse uso.
Como a Starstruck deve funcionar
A Starstruck será um app voltado ao consumidor comum, não necessariamente a produtores, artistas ou profissionais de estúdio. A ideia é permitir que fãs interajam com músicas e vozes de artistas que aceitarem participar da plataforma, sempre dentro de um ambiente fechado. Ou seja, as criações não poderão ser baixadas e distribuídas em serviços de streaming.
O serviço terá quatro modos principais. O Cover permitirá gerar uma versão de uma música no estilo de outro artista, como no exemplo hipotético de uma canção de Taylor Swift interpretada no estilo de Charli XCX. O Reimagine manterá a letra, mas mudará toda a composição musical. O Remix aplicará mudanças de gênero ou estilo a gravações existentes. Já o Create permitirá que usuários escrevam suas próprias letras e as combinem com a voz de um artista autorizado, com regras sobre tema, linguagem e estilo.
Mesmo nesses modos mais abertos, o usuário precisará escolher um artista e uma música específicos. A plataforma não deve permitir músicas genéricas, sem atribuição ou sem ligação com obras e titulares licenciados. Isso cria um limite importante: o fã brinca com o catálogo, mas não passa a ser dono da gravação gerada.
Segundo o relatório, os direitos sobre as gravações criadas dentro do app continuarão com os titulares originais, que podem ser gravadoras, editoras ou os próprios artistas, dependendo do contrato. A Starstruck também deve operar por assinatura, com planos Standard e Pro, cada um com um número limitado de criações por mês.
Por que o modelo fechado pesa na discussão

O ponto mais sensível da proposta está no chamado “jardim fechado”. Em termos simples, isso significa que a música criada dentro da Starstruck fica dentro da Starstruck. O usuário paga para criar e ouvir ali, mas não leva aquele arquivo para publicar em plataformas, redes sociais ou distribuidoras digitais.
Para tentar manter esse controle, a Udio teria apresentado três camadas de proteção: criptografia do stream, marca d’água inaudível nas faixas e identificação por impressão digital para que distribuidoras e serviços de streaming possam barrar uploads que copiem criações feitas no app. A parte técnica importa, mas o desafio maior será de coordenação. Para o sistema funcionar, outras empresas da cadeia precisam reconhecer essas marcas e agir quando uma faixa for enviada fora do ambiente autorizado.
A proposta chega depois de uma sequência de acordos da Udio com empresas do mercado musical. O Universal Music Group fechou acordo com a empresa em outubro de 2025, junto ao encerramento de uma disputa judicial. O Warner Music Group fez movimento semelhante em novembro. Depois vieram Merlin, Kobalt e Believe. O Sony Music Group, porém, segue como ponto fora da curva: sua parte no processo liderado pela Recording Industry Association of America (RIAA), associação americana da indústria fonográfica, ainda permanece ativa.
Esse histórico ajuda a entender o peso da Starstruck. A Udio não está apenas lançando mais um recurso de IA. Ela tenta mostrar que pode operar como parceira licenciada da indústria, depois de ter sido colocada no alvo por acusações de uso indevido de obras protegidas.
O impacto para artistas, fãs e plataformas
Para artistas e compositores, o modelo abre uma possibilidade de receita sobre um comportamento que já existe. Fãs já fazem versões, edits e remixes usando ferramentas de IA. A diferença é que, dentro de um ambiente licenciado, essas interações podem ser monetizadas e vinculadas a obras autorizadas.
A Kobalt indicou que a participação dos compositores nesse modelo seria maior do que nos splits tradicionais do streaming. Ainda não há detalhes públicos sobre percentuais, critérios de divisão ou como cada tipo de criação será contabilizado. Mesmo assim, a sinalização é relevante porque toca em uma das críticas mais frequentes ao streaming: a percepção de que o volume de uso nem sempre se traduz em remuneração proporcional para quem compõe.
A disputa, porém, não será só entre startups. Na mesma semana em que os detalhes da Starstruck vieram à tona, o Spotify e o Universal Music Group anunciaram um acordo para permitir covers e remixes com IA como um recurso pago para usuários Premium. Isso coloca a Udio diante de uma concorrência com escala global, base pagante consolidada e relação direta com o hábito diário de escuta.
No fim, a Starstruck mostra que a próxima fase da IA musical tende a ser menos sobre criar qualquer coisa com um comando e mais sobre licenciar experiências específicas. Para o mercado, essa mudança pode ser decisiva: a tecnologia continua no centro da tensão, mas o diferencial passa a estar nos contratos, nas travas de uso e na capacidade de transformar participação de fã em receita controlada.
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