Do YouTube aos palcos: Tatiana Nascimento revela a estratégia da Casa Saturno para formar os próximos sucessos da música infantojuvenil

Na Casa Saturno, Tatiana detalha como música, conteúdo e shows se conectam para estruturar carreiras no mercado infantojuvenil.
Foto de Nathália Pandeló
Nathália Pandeló
Tatiana Nascimento, diretora da Casa Saturno (Crédito: Divulgação)
Tatiana Nascimento, diretora da Casa Saturno (Crédito: Divulgação)

O universo infantojuvenil costuma ficar à margem das grandes análises da indústria da música, mesmo movimentando números expressivos nas plataformas digitais e formando uma base relevante de público. Fora dos rankings, premiações e debates mais amplos do setor, esse segmento cresce em paralelo, muitas vezes sem a mesma estrutura profissional aplicada a artistas adultos. É nesse cenário que surgem modelos de gestão que tentam organizar esse mercado, conectando música, conteúdo e presença ao vivo em uma estratégia mais integrada.

À frente da Casa Saturno, Tatiana Nascimento atua justamente nesse ponto de interseção entre criação artística e planejamento de carreira. Com foco em artistas que transitam entre YouTube, TikTok, shows e projetos audiovisuais, a executiva defende uma lógica em que a música funciona como ponto de partida para um ecossistema maior.

Nesta entrevista, exclusiva para o Mundo da Música, ela detalha como a agência estrutura carreiras desde o início, quais são os desafios específicos de trabalhar com o público jovem e por que, apesar do alcance bilionário, o segmento ainda busca reconhecimento dentro do próprio mercado musical.

Essa estratégia já se traduz em projetos que ganharam escala relevante dentro do digital e fora dele. Casos como Kysha e Mine, que acumulam mais de 1,4 bilhão de visualizações no YouTube e hoje sustentam uma turnê nacional e internacional, mostram a força dessa construção integrada. O mesmo acontece com “Lance de Escola”, que ultrapassou 250 milhões de views e chegou ao topo dos vídeos em alta, combinando música, narrativa e audiovisual em um formato contínuo de conteúdo.

É a partir desse tipo de operação que a Casa Saturno vem estruturando seu modelo — e é sobre esse processo, seus desafios e oportunidades que Tatiana Nascimento fala a seguir.

Por Dentro da Estratégia: Tatiana Nascimento (Casa Saturno)

Mundo da Música: A Casa Saturno nasce com um recorte bem específico no entretenimento infantil e infantojuvenil. O que você enxergou nesse mercado que ainda não estava sendo bem trabalhado pelas estruturas tradicionais do music business?

Tatiana Nascimento: Identificamos um nicho — o infantil e o infantojuvenil — que está aquém do mercado da música. O próprio mercado deixa esse nicho de lado: não estamos nos prêmios, não aparecemos nas pesquisas, e mesmo assim movimentamos bilhões em streaming. A partir daí, surge uma lacuna enorme: sem pertencer formalmente ao mercado da música, esse tipo de produto acaba não tendo gestão profissional. Se ele não pertence, entre aspas, não existe — e isso abre espaço para que tudo seja construído de forma amadora. Estivemos diante de carreiras infantis geridas pelos próprios pais, não por falta de vontade, mas por falta de conhecimento técnico em gestão. E de jovens adultos que tinham a receita do YouTube e do digital, mas sem saber como sustentar uma marca de forma completa — os shows, a gestão 360°. A Casa Saturno surgiu para construir algo profissional e sólido nesse nicho, trazendo para o lado infantil aquilo que já existe nos segmentos adultos. Não digo que nenhuma empresa faça isso — estou dizendo que a gente vem somar.

Mundo da Música: Vocês tratam a música como ponto de partida para uma estratégia mais ampla de carreira. Como essa lógica funciona na prática, desde o primeiro desenvolvimento de um artista até a expansão para outras frentes?

Tatiana: A gente entende que, partindo de um produto musical, fica mais claro quando a gente senta para planejar o macro da carreira de um artista. A partir do planejamento musical, conseguimos estruturar o calendário de lançamentos alinhado com shows, turnês e os produtos vinculados a isso — gerando um ecossistema completo, com todo o conteúdo que vem a reboque. Não dá para ficar só com uma estratégia de conteúdo focada no YouTube e na música isolada, porque o espaço entre um lançamento e outro seria muito longo, e o YouTube não funciona assim. Mas a música é um ótimo ponto de partida para estruturar e dar movimento à carreira. No fim, um artista da Casa Saturno se torna um multiartista: apesar de a música ser o ponto de partida, ele passa a ser também influenciador, dançarino, ator — tem todo um ecossistema funcionando ao redor da carreira dele.

Mundo da Música: O público infantojuvenil costuma ter ciclos de atenção e comportamento muito mais rápidos. Como isso impacta as decisões de repertório, lançamentos e construção de narrativa dos artistas?

Tatiana: Acho que é multifatorial. São vários elementos que permitem aproveitar esses ciclos rápidos sem perder audiência: a direção musical alinhada com a produção audiovisual, e principalmente a constância. Não pode haver uma distância muito grande entre um lançamento e o outro. Diferente do artista adulto, que perde audiência mas não tão rapidamente, no infantil é fundamental manter essa constância para não perder o vínculo com a comunidade. Não é que precisa ser mais rápido do que o adulto, mas é que você não pode ficar longe por muito tempo.

Mundo da Música: No caso de projetos como Kysha e Mine, há uma integração muito forte entre YouTube, TikTok, shows e produtos audiovisuais. Como vocês estruturam essa presença multiplataforma sem perder consistência de identidade?

Tatiana: O que sustenta essa presença é a arte. Partindo do princípio de que a música nos leva a esse lugar artístico, conseguimos manter a consistência e a identidade porque estamos sempre pautados no produto musical — em algo 100% artístico. É ele que funciona como fio condutor em todas as plataformas.

Mundo da Música: “Lance de Escola” é um exemplo claro de conteúdo que mistura storytelling, música e série digital. O que esse projeto ensinou sobre retenção de público e criação de comunidade nesse segmento?

Tatiana: O projeto me ensinou que os insights precisam andar com a gente no dia a dia — a gente precisa estar atento ao que funciona ou não funciona dentro da narrativa e para a nossa comunidade especificamente. O que funciona para uma comunidade não necessariamente vai funcionar para outra, mesmo que seja o mesmo gênero ou segmento. Quem nos ajuda a entender isso são os nossos dados, o olhar atento ao que está performando, em conjunto com a equipe de marketing.

Mundo da Música: Existe uma linha tênue entre entretenimento e responsabilidade quando se fala com crianças e adolescentes. Quais são os critérios práticos que vocês adotam para garantir esse equilíbrio no conteúdo?

Tatiana: A responsabilidade com o público infanto-juvenil está no centro de todas as decisões criativas da Casa Saturno. Começa pelo princípio de que a gente passa essa responsabilidade diretamente para os nossos artistas — e ela precisa estar dentro deles de verdade. Toda a nossa curadoria e atenção passa por eles. Não pode ser uma mentira; eles não podem estar fingindo ser responsáveis, eles precisam ser responsáveis. Porque se isso morar num lugar de performance ou de currículo, em algum momento vai falhar. A gente acredita que os artistas precisam absorver de verdade o cuidado com o que se fala, o que se levanta, o que se comunica para as crianças — para poder passar isso adiante ao próprio público. É um princípio básico, mas precisa fazer parte do cotidiano deles. Isso torna mais fácil garantir o equilíbrio no que a gente produz. Significa que a gente vai acertar sempre? Não. Pode haver alguma falha de comunicação, alguém interpretar de um prisma diferente. Mas a gente está atento e pronto para corrigir.

E o nosso trabalho se diferencia justamente por contar com uma estrutura pensada para esse cuidado, reunindo uma equipe multidisciplinar com psicólogos e especialistas que acompanham de perto o desenvolvimento dos talentos. Além disso, todo o conteúdo produzido, seja em músicas, roteiros ou outros formatos, passa pela aprovação de uma equipe técnica, garantindo que as produções tenham classificação livre e possam ser consumidas com segurança por crianças e também por suas famílias. 

Mundo da Música: O mercado infantil sempre teve muita presença de televisão no passado. Hoje, com o digital dominante, o que mudou na forma de lançar e sustentar um artista nesse segmento?

Tatiana: A gente acredita que é a junção do online com o offline que dá robustez ao produto infantil. À medida que ele avança no digital, caminhar também no offline — estar presente e perto da sua comunidade — transforma o produto em algo mais forte. O mercado mudou completamente, então hoje a gente precisa olhar para a força do online junto com as ações presenciais: os shows, os encontros, os meet & greets, a proximidade com a comunidade. Isso transforma algo que poderia ser frio, atrás de uma tela, em algo muito mais quente e vivo.

Kysha e Mine (Crédito: Divulgação/@brunini), Tatiana Nascimento
Kysha e Mine (Crédito: Divulgação/@brunini)

Mundo da Música: A carreira desses artistas começa muito cedo. Como vocês pensam em longevidade e transição de imagem, considerando que esse público cresce junto com o artista?

Tatiana: Depende do objetivo do artista. Existem artistas que, mesmo crescendo, vão sempre estar ligados a uma faixa etária específica, como acontece com o kids: por mais que o artista amadureça, o produto e o foco continuam direcionados para aquela faixa, e as gerações vão se renovando nesse lugar. Outros artistas — os que vão para o teen e depois para o adulto — já sabemos que é possível fazer esse trabalho de transição; determinamos no planejamento desde o início que eles vão crescer junto com o público. 

É uma decisão estratégica tomada no começo: a marca vai seguir para aquela faixa etária sem mudar, ou vai crescer junto com o público? No caso dos produtos kids, geralmente a marca não cresce com o público — é o contrário: o público cresce, deixa de consumir, e uma nova geração começa a consumi-los. Existe esse paralelo, e a gente já define esse caminho desde o planejamento inicial.

Mundo da Música: A Casa Saturno também trabalha com turnês e experiências ao vivo. O que diferencia o show infantojuvenil de outras frentes do entretenimento em termos de operação, roteiro e entrega?

Tatiana: A operação exige um cuidado maior com o acolhimento do público. Os shows da Casa Saturno, em sua maioria, prezam para que a audiência esteja sempre sentada ou com uma demarcação clara de espaço — a segurança é uma prioridade. Quando o show é realizado por um contratante externo, a gente verifica se existe um mínimo de cuidado operacional: pulseiras de identificação, atenção com o acesso dos pais, enfim, uma preocupação real com a segurança das crianças. O roteiro também mora nesse lugar de responsabilidade, mas na entrega em si não é tão diferente de um show adulto. Se algo muda, é que no infantojuvenil há um pouquinho mais de trabalho com coreografias e dramatização. No geral, o produto final fica nesse equilíbrio: unir responsabilidade, acolhimento seguro para um público que precisa de mais cuidado, e entregar algo acima do esperado através da arte.

Mundo da Música: Olhando para frente, quais são os principais desafios e oportunidades para a música infantil e infantojuvenil no Brasil, especialmente do ponto de vista de monetização e profissionalização do setor?

Tatiana: Existe um desafio muito grande porque é uma discussão muito latente hoje em torno do infantil e do infantojuvenil. Um ponto importante: os artistas da Casa Saturno são maiores de idade produzindo conteúdo voltado para menores de idade — e isso faz diferença. O desafio maior recai sobre o produto que envolve um menor de idade entregando para outros menores. E aí cabe a responsabilidade de fazer isso pela via correta: alvará de trabalho, contrato adequado, respeito ao horário de estudo. A Casa Saturno tem hoje a MC Divertida e a Cacá, ambas com 16 anos. A gente trabalha dentro do que a legislação brasileira exige. Os demais artistas são maiores de idade.

Se olharmos para o macro do mercado, o grande desafio ainda é pertencer ao mercado da música de verdade. A gente movimenta bilhões em streaming e não aparece nas pesquisas de gêneros mais ouvidos do Brasil. Não está nos prêmios mais importantes. É como se não existíssemos. Na minha visão, quando o mercado ignora o infantil e o infantojuvenil, ele está esquecendo que a criança existe — que há uma geração que quer pertencer, que quer viver de música. O que vemos hoje são muitas crianças e adolescentes sonhando em ser youtubers porque lá eles se enxergam pertencendo, lá eles se veem como possibilidade real de carreira. No mercado da música, eles não pertencem. E isso precisa mudar.

É justamente por acreditar nisso que a Casa Saturno vai lançar o Saturno Academy — uma academia de arte aberta ao público para pais, adolescentes e adultos que queiram iniciar uma carreira artística musical na internet. O Saturno Academy vai ser o lugar onde você entra para entender o seu lugar artístico, alinhando o digital — por onde começar, como construir presença online — com o offline e o restante da carreira. Porque não basta aparecer nas redes: é preciso saber o que fazer depois. A Casa Saturno briga para que o infantil e o infantojuvenil pertençam ao mercado da música de uma vez por todas — e o Saturno Academy é mais um passo concreto nessa direção.

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