O álbum “EQUILIBRIVM”, de Anitta, foi lançado na última sexta (17). Para além da exuberância musical, chama atenção o fato de que o disco conta com 55 compositores distribuídos em 15 faixas. Esse número ajuda a dimensionar o modelo criativo do projeto, que organiza múltiplas vozes dentro de uma proposta pensada para dialogar com diferentes mercados.
O oitavo trabalho de estúdio da artista reúne mais de 20 produtores, dos quais seis são mais recorrentes, e uma lista extensa de colaboradores. Ao mesmo tempo em que amplia o número de nomes envolvidos, o disco mantém um núcleo de compositores mais frequentes, responsável por dar unidade a um projeto que transita entre gêneros, idiomas e territórios.
Essa combinação entre diversidade e repetição aparece como um dos principais elementos do DNA do álbum.
Dois atos explicam a dimensão do projeto
A estrutura de “EQUILIBRIVM” é dividida em dois atos, com propostas distintas. O primeiro concentra faixas em português, com base em gêneros brasileiros e referências afro-diaspóricas. Já o segundo bloco é voltado ao mercado internacional, com músicas em espanhol e inglês, além de versões adaptadas.
Esse desenho impacta diretamente a composição. Cada etapa do disco demanda equipes diferentes, com profissionais que atuam em contextos específicos de mercado. Ao reunir essas frentes em um único projeto, o número de compositores cresce de forma natural.
Esse tipo de organização acompanha uma lógica já consolidada na indústria. Projetos voltados ao streaming global tendem a reunir times maiores de composição, capazes de dialogar com públicos diversos e expandir o alcance das faixas.
Núcleo criativo sustenta a unidade

Mesmo com 55 compositores, alguns nomes aparecem de forma recorrente e ajudam a estruturar o álbum. Anitta participa diretamente de sete faixas, enquanto KING Saints aparece em sete composições, garantindo um dos papéis mais presentes no projeto.
Outros nomes como Daramola, Jenni Mosello e Papatinho também se repetem ao longo do disco, formando um núcleo criativo que sustenta a coesão entre as músicas. A participação de KING Saints no álbum ajuda a explicar como esse núcleo foi formado ao longo do processo:
“A parceria surgiu pela curadoria da equipe criativa do projeto. Nídia Aranha, a diretora criativa, me convocou junto com outros compositores e produtores para alguns dias de sessão, para complementar o álbum que já estava em andamento. O feat veio diretamente da Anitta, no meio do processo criativo da faixa ‘Nanã’”, afirma a compositora.
Apesar de ter a sua própria carreira como artista autoral, KING Saints reconhece que ser associada a Anitta é uma oportunidade de chegar a um outro público:
“A Anitta é a maior artista do Brasil! Sem dúvida, estar do lado dela como artista intérprete e compositora de 7 faixas muda muito na carreira de qualquer artista, principalmente para mim, que sou a artista menos conhecida pelo grande público”, comenta.
Esse tipo de dinâmica, descrito pela compositora, ajuda a entender como diferentes frentes criativas foram integradas dentro do mesmo projeto. “EQUILIBRIVM” combina duas dinâmicas: um grupo fixo que acompanha o desenvolvimento e uma rede de colaboradores que entra em faixas específicas, trazendo novas referências e ampliando o repertório sonoro.
Bastidores mostram dinâmica coletiva
Parte desse modelo se materializa em processos coletivos de criação, como os songcamps organizados durante o desenvolvimento do álbum. Foi nesse contexto que a compositora Lary passou a integrar o projeto.
“Eu estava em Salvador quando recebi uma ligação de uma pessoa da equipe da Anitta me convidando pra participar de dois dias de songcamp. Eu larguei tudo. Eu estava no meio da montagem do meu show, me organizando pro Carnaval, mas sabia que era uma oportunidade rara, muito especial mesmo. Como compositora, era uma das maiores oportunidades que já tinham aparecido pra mim, então senti que precisava estar lá”, compartilha Lary com o Mundo da Música.
“Fui no dia seguinte e foi incrível. Ela participa de tudo, ouve tudo, dá opinião, sugere temas. É uma artista muito envolvida no processo e que sabe exatamente o que quer. Foi uma experiência muito rica e muito especial pra mim”, ela complementa.
A participação no álbum também teve impacto direto na visibilidade do trabalho da compositora.
“Estar no álbum da Anitta é uma virada de chave muito grande na minha carreira como compositora. A gente está falando de uma artista que levou a música brasileira pra um nível global, então isso coloca meu trabalho em um lugar de muita visibilidade e credibilidade. É uma vitrine muito potente e eu me sinto muito grata por isso”, comemora Lary.
Conexões de estúdio ampliam o alcance

A entrada de novos nomes no projeto também acontece a partir de conexões dentro do próprio mercado. No caso de Melly, o convite surgiu por meio do produtor Iuri Rio Branco, em um movimento que conecta diferentes redes criativas.
“O Iuri me fez um convite e perguntou se existiam algumas faixas minhas que eu acreditasse que ela poderia gostar. Eu tenho trabalhado como compositora também, porque é o meu trunfo, é o que eu adoro fazer, e eu já tinha essas composições engavetadas que eu tinha feito pro meu camping, do meu disco. Acabou que a sinergia aconteceu, existia muita semelhança entre os temas, entre os assuntos que a gente estava querendo pincelar, tanto eu quanto a Anitta”, recorda Melly.
Melly conta que, das 11 músicas enviadas para Anitta, nove foram aprovadas, o que mudou imediatamente seus planos. A compositora estava de férias no início de janeiro, com a intenção de passar mais tempo com a família, mas interrompeu o período de descanso poucos dias depois ao receber o retorno positivo. Em seguida, viajou para o Rio de Janeiro, onde participou de sessões em estúdio ao lado de outros compositores, em um ambiente que descreve como marcado por trocas criativas e novas conexões.
“Foi um processo muito fluido, muito bonito, de se entregar e ser verdadeira. Ela foi bastante verdadeira com tudo que estava passando, com o que estava sentindo e com o que queria passar de mensagem para esse disco, e a gente acreditou e foi junto”, ela conta.
Além do processo criativo, a colaboração também impacta o alcance de Melly enquanto compositora.
“Se a gente for falar de números e alcance, eu tive um alcance que nunca tinha vivido, foi um salto. O público dela é muito maior e isso abre caminhos. Eu só consigo ser grata por ter conseguido compor essas canções que fizeram sentido para ela e que agora vão chegar a muitas outras pessoas”, analisa a artista baiana, já indicada ao Latin Grammy.
Bahia aparece como polo criativo
O álbum também evidencia a presença de diferentes cenas regionais. Melly integra essa referência à Bahia, que aparece ainda com compositores como Felipe Barros e Dja Luz, que assinam faixas como “Caso de Amor” e “Ternura”. A trajetória de ambos se encontra na editora Mina e no projeto Ubaque Musical.
“Num encontro destinado à composição, fizemos várias canções e foi mágico. Tenho muito orgulho da intimidade e conexão musical que temos. Chegar nesse nível de integrar um álbum como ‘Equilibrium’ é, sem dúvida, um presente”, resume Felipe Barros.
Dja Luz traz para o projeto uma profundidade que une o técnico ao espiritual. Ele ressalta que a faixa “Ternura” nasceu de uma percepção íntima sobre suas divindade:
“Eu sou de Ogum, e existe uma leitura muito limitada sobre essa energia. Mas Ogum é inteligência e estratégia. Somado à força de Oxum, percebi que a ternura também é uma forma de poder. Fazer parte desse álbum é afirmar o valor desse processo desde a origem”, destaca Dja.
A presença desses nomes reforça como o álbum articula diferentes origens dentro de uma mesma proposta, conectando referências afro-diaspóricas com estruturas do pop contemporâneo.
Mais compositores por faixa refletem mudança no modelo de criação
O número de 55 compositores em “EQUILIBRIVM” pode parecer elevado à primeira vista, mas ele dialoga com uma transformação mais ampla da indústria. Nos últimos anos, a média de autores por música cresceu de forma consistente, especialmente em projetos voltados ao streaming global.
Relatórios recentes da IFPI (Federação Internacional da Indústria Fonográfica) indicam que a internacionalização do consumo tem impactado diretamente a forma como as músicas são criadas. Com faixas circulando simultaneamente em diversos mercados, tornou-se comum reunir equipes maiores, capazes de adaptar linguagem, melodia e estrutura para públicos diferentes.
Esse movimento também aparece em bases de dados do mercado. Plataformas de monitoramento como a Luminate, responsável por métricas de consumo nos Estados Unidos, mostram que músicas que entram em rankings globais frequentemente contam com múltiplos compositores, muitas vezes acima de cinco nomes por faixa. Em alguns casos, esse número ultrapassa dez autores, especialmente em colaborações internacionais.
Além da questão territorial, há um fator prático: o próprio processo de criação mudou. Sessões coletivas, como os songcamps citados pelos compositores do álbum, passaram a concentrar diferentes perfis em um mesmo ambiente. Nesse modelo, cada participante contribui com partes específicas da música, seja melodia, letra, topline ou estrutura.
No caso de Anitta, o número elevado de compositores se conecta diretamente com a proposta do álbum. Ao dividir o projeto entre Brasil e mercado internacional, a artista mobiliza redes criativas distintas e incorpora profissionais que já atuam nesses contextos. O resultado é um reflexo de como a música pop tem sido construída hoje: de forma colaborativa, distribuída e cada vez mais conectada a diferentes territórios.
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