(Contém Spoiler)
Imagine uma realidade onde livros sejam proibidos. E nesse mundo, os bombeiros, ao invés de apagarem incêndios, queimam livros. Esse mundo foi retratado no filme Fahrenheit 451, baseado no livro do autor Ray Bradbury. 451 Fahrenheit é a temperatura em que o papel entra em combustão. Nesse mundo sem livros, Guy Montag é um bombeiro que cumpre sua função sem pensar: queima livros.
Até que um dia, ele conhece Clarisse, uma jovem curiosa, livre e cheia de perguntas. Ela faz algo muito simples, porém extremamente revolucionário: ela faz o bombeiro pensar. Montag começa a perceber o mundo ao seu redor, o vazio daquela sociedade controlada pelo medo do conhecimento. Esse filme fala sobre o controle da informação, a manipulação cultural, o medo do pensamento crítico e a destruição da memória coletiva.
Eu assisti esse filme aos 20 anos, um clássico da década de 60 que meu pai me apresentou em um mês inteiro dedicado a filmes dirigidos por François Truffaut (te amo, pai). Nesse filme, tem uma cena que me marcou e que eu relembro frequentemente até hoje e eu vou precisar dar um pequeno spoiler, então se você quer assistir o filme antes e ler minha conclusão depois, pare nesse momento.
Na cena final do filme, Clarisse leva Montag para uma floresta, onde existem várias pessoas que caminham aleatoriamente falando sozinhas. Ficou todo mundo louco? Não. Como os livros foram todos queimados, aquelas pessoas eram livros humanos. Cada uma ficou responsável por decorar um livro completo e todos os dias recitá-lo, inteiro, pra que aquela obra continuasse existindo mesmo depois de queimarem o papel. Um dia, quando os livros fossem escritos novamente, essas pessoas se encarregariam de fazer isso, cada uma, um livro.
Falso Brilhante
Toda vez que eu me lembro desse filme, eu fico emocionada, muito emocionada. E assistindo à entrevista recente do artista Pedro Mariano para o podcast Música em 360, foi a primeira vez em que eu olhei para o meu filho dormindo ao meu lado e me perguntei: será que eu vou precisar guardar em casa os discos de Elis Regina para que meu filho conheça Elis no futuro?
Pedro Mariano, filho de Elis, contou no podcast que derrubou dois álbuns que tinham o nome de Elis, mas a voz não era de Elis e o repertório não era de Elis. E pela primeira vez me bateu essa preocupação: será que eu vou precisar guardar em casa esse material porque as plataformas digitais não estão sendo capazes de proteger o patrimônio cultural musical do meu país? Será que um dia, por um engano, as plataformas vão derrubar os álbuns originais de Elis desconsiderando que ela seja o único verdadeiro brilhante em meio a tantas cópias falsas?
A realidade distópica retratada em Fahrenheit 451 começa a invadir as nossas vidas a partir do momento em que nós tentamos impedir que a memória cultural seja diluída em meio ao excesso de cópias e música sintética. O mais angustiante é que o verdadeiro medo em Fahrenheit 451 era apagar a referência original das coisas. Era criar um mundo onde as pessoas já não soubessem mais distinguir o que era humano. Ninguém odiava os livros. Eles apenas passaram a ser irrelevantes. Bastou fazer com que as pessoas perdessem o interesse por eles para que o fogo viesse depois disso.
Hoje, você pode abrir uma plataforma e encontrar milhares de músicas feitas pra parecerem alguma coisa, lembrarem alguma coisa, sem necessariamente carregarem uma vivência humana… sem necessariamente serem feitas por um humano.
Começa a crescer a geração do meu filho, que talvez nunca terá contato profundo com as obras originais. Preservar os artistas reais começa a virar quase um exercício oral de memória coletiva, assim como no filme. Como meu filho, ouvindo Elis porque eu mostrei. Um compositor explicando o que o influenciou pra fazer aquela obra.
No filme, as pessoas decoravam livros porque entenderam que preservar a obra não era preservar o objeto físico. Era preservar a essência humana daquelas criações. E talvez a gente esteja entrando numa era em que preservar música vá muito além de manter um arquivo salvo no celular.
O mercado pode parar de precisar do original antes das pessoas perceberem o que estão perdendo. Essa imagem das pessoas andando pelas ruas recitando livros tem me acometido diversas vezes enquanto eu leio os comentários em meus conteúdos na internet. Hoje ainda existem pessoas interpretando artistas reais, defendendo a obra humana, lembrando quem criou o que, contando histórias de estúdio, falando de direitos autorais. Só que cada vez mais quem faz isso é taxado de idiota, resistente, alarmista, exagerado.
Procure e assista esse filme, principalmente você, escritor, que eu não consigo convencer com exemplos sobre música. Talvez se destruíssem todos os textos do mundo e dentre esses estivessem as suas letras, as suas poesias, você entendesse. Assista, por favor.
Essa pode ser uma das metáforas mais fortes sobre o que eu tenho dito na internet em favor de preservar a cultura numa época em que a tecnologia e o excesso de músicas sintéticas podem apagar toda nossa referência original.
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