SalDoce aposta em álbum audiovisual de 10 faixas para transformar “Inofensiva Flor” em vitrine de carreira

A SalDoce detalha como dividiu o orçamento entre produção, marketing e divulgação para sustentar um lançamento independente de maior porte.
Foto de Nathália Pandeló
Nathália Pandeló
Brenda Luce, Fernanda Francis e Mariana Eis, do SalDoce
Brenda Luce, Fernanda Francis e Marianna Eis, da SalDoce

Houve uma época em que álbum visual parecia o tipo de projeto possível apenas para artistas como Beyoncé, cercados por grandes gravadoras, equipes numerosas e orçamentos igualmente impressionantes. A popularização das ferramentas de produção e das plataformas de vídeo mudou parte dessa lógica, mas uma questão continua a mesma: produzir imagem custa dinheiro. Para artistas independentes, cada nova camada de um lançamento precisa caber em uma conta bem mais apertada.

Foi justamente essa conta que a SalDoce decidiu encarar em “Inofensiva Flor”. O segundo álbum de estúdio do trio formado por Brenda Luce, Fernanda Francis e Marianna Eis reúne dez faixas e nasceu acompanhado por uma proposta audiovisual completa, com cenário, figurino, iluminação, direção de movimento e performance. Para muito além de ilustrar as músicas, a ideia era criar um material capaz de mostrar ao público e ao mercado como a banda se apresenta no palco.

A escolha aumentou a complexidade da produção e exigiu decisões sobre onde colocar dinheiro, o que preservar e quais elementos poderiam ficar de fora. A SalDoce esperou até considerar que tinha estrutura suficiente para tirar o plano do papel e organizou o lançamento em duas etapas, começando por um single triplo antes da chegada do álbum completo.

À frente da gestão e da produção do projeto estão Paulo Moreira, guitarrista, produtor e sócio-fundador da LIKE Produtora, e Ricardo Rodrigues, produtor musical, compositor, arranjador e fundador do selo Bazuca. Junto às integrantes, eles explicam ao Mundo da Música como orçamento, divulgação e expectativa de retorno entraram na construção de um trabalho que precisava funcionar artisticamente, mas também fazer sentido para a carreira de um trio independente.

Antes de pensar no retorno, era preciso ter estrutura para começar

A vontade de produzir um audiovisual acompanhava a SalDoce antes mesmo de “Inofensiva Flor”. Para Marianna Eis, existia uma lacuna entre aquilo que as pessoas conheciam da banda pelas músicas e a experiência que o trio entregava ao vivo.

“Nós sempre quisemos fazer um audiovisual. Somos uma banda de 3 mulheres e não tínhamos ainda um produto que fizesse um link entre a nossa imagem e o nosso show”, explica Marianna.

Essa função ajuda a entender por que o investimento não foi tratado apenas como uma despesa promocional. O audiovisual também poderia se tornar uma apresentação da banda para quem ainda não tinha assistido a um show, incluindo público, profissionais do mercado e possíveis contratantes.

A música, segundo Marianna, permaneceu como prioridade. Mas o grupo também dedicou atenção à escolha dos profissionais que dariam forma às imagens, dos músicos à equipe que trabalhou por trás das câmeras. A direção ficou com Fernando Duarte, amigo de longa data das integrantes.

“Esperamos o momento certo para estarmos com uma estrutura robusta o suficiente para arcar com esse sonho, agora temos no mundo nosso primeiro audiovisual e as pessoas podem nos conhecer melhor em cima do palco”, conta ela.

Esse “momento certo” é uma parte importante da estratégia. Para um artista independente, uma ideia pode fazer sentido criativamente e ainda não fazer sentido financeiramente. Em vez de executar o projeto assim que ele surgiu, a banda esperou até entender que conseguiria sustentá-lo com uma estrutura compatível com o resultado desejado.

Ser independente também significa escolher onde não economizar

Ter condições de começar não eliminou a necessidade de fazer escolhas. Brenda Luce conta que equilibrar a ambição artística com os recursos disponíveis acompanha a SalDoce desde os primeiros lançamentos.

“Como banda independente, é sempre um grande desafio equilibrar o que imaginamos para o projeto com o orçamento e a estrutura que de fato temos. Mas pra SalDoce, esse desafio sempre representa uma superação através da criatividade”, afirma Brenda.

No caso de “Inofensiva Flor”, algumas prioridades foram definidas dentro dessa equação. A produção musical e as harmonias vocais, elementos centrais da identidade do trio, dividiram espaço com a direção artística, a construção visual e o trabalho corporal.

“A qualidade da produção musical, nossas harmonias vocais, uma escolha de equipe competente e proativa, direção de movimento corporal e a direção artística e visual do projeto são os pontos fortes”, complementa.

Brenda Luce, Fernanda Francis e Mariana Eis, da SalDoce
Brenda Luce, Fernanda Francis e Marianna Eis, da SalDoce

Segundo Brenda, manter esses elementos significou assumir um esforço financeiro maior em alguns momentos. Por outro lado, o processo ajudou a banda a identificar o que realmente precisava estar no projeto e aquilo que poderia ser simplificado.

“Isso fez com que soubéssemos o que valorizar, no que arriscar e também o que podemos deixar de lado”, ela explica.

A lógica é especialmente relevante para produções independentes. Um orçamento menor não permite tratar todas as etapas como prioridade máxima ao mesmo tempo. Parte do trabalho de gestão passa, então, por decidir quais escolhas têm impacto direto na identidade do artista e quais podem ser adaptadas sem mudar a essência do projeto.

O maior custo pode estar no vídeo, mas o orçamento não termina na gravação

Do ponto de vista da gestão, Paulo Moreira afirma que o orçamento começa antes de qualquer decisão isolada sobre câmeras, músicos ou cenário. É preciso visualizar todas as etapas juntas.

“O primeiro passo é enxergar o projeto como um todo. São muitas as etapas envolvidas em uma produção desse porte”, explica Paulo.

Entre elas estão composição, pré-produção, gravação, mixagem, masterização e captação audiovisual. Segundo Paulo, tecnicamente, a produção de vídeo costuma concentrar os maiores custos, principalmente pela quantidade de profissionais e atividades acontecendo ao mesmo tempo. Porém, o produtor chama atenção para outra linha da planilha: divulgação.

“Mas, olhando de forma estratégica, acredito que uma parcela importante do investimento deve estar destinada ao marketing e à divulgação. Afinal, não adianta produzir um grande trabalho e não conseguir fazê-lo chegar às pessoas”, afirma Paulo.

É uma conta que pode se tornar especialmente difícil para artistas independentes. Quanto mais ambicioso é o produto, maior a tentação de concentrar os recursos disponíveis na gravação. Se toda a verba termina ali, no entanto, sobra pouco para colocar a obra diante do público.

Para Paulo, a viabilidade nasce justamente do equilíbrio entre objetivos, controle dos investimentos e dinheiro reservado para a fase de divulgação.

“No fim das contas, o desafio não é fazer o maior projeto possível, mas construir um projeto sustentável, coerente com o momento da carreira e capaz de gerar resultados reais para o artista”, diz Paulo.

Nesse sentido, reduzir custos não significa necessariamente produzir menos. Pode significar escolher uma escala que o artista tenha condições de sustentar desde a criação até o período posterior ao lançamento.

O audiovisual também precisava funcionar como material de venda

Se o custo é maior, a expectativa de retorno também precisa ser observada por mais de um ângulo. Fernanda Francis não define o investimento feito em “Inofensiva Flor” como um risco isolado.

“A gente não enxerga esse investimento como um risco, mas como parte do investimento na SalDoce e na construção da nossa carreira como artistas independentes”, afirma Fernanda.

Para a cantora, o fato de esse ser o primeiro audiovisual da banda dá ao material uma função que ultrapassa o consumo das dez músicas. Pela primeira vez, quem chega à SalDoce também pode visualizar de forma mais completa a performance do trio.

O conteúdo passa, assim, a ocupar dois espaços. De um lado, atende ao público que já acompanha a banda e ajuda novos ouvintes a conhecerem sua identidade. Do outro, pode apresentar de maneira concreta a proposta de show a profissionais que ainda não tiveram contato com o trio ao vivo.

“Claro que a gente espera um retorno financeiro, mas entendemos que ele pode acontecer de forma mais indireta e a médio e longo prazo”, explica Fernanda.

Entre os resultados desejados estão aumento de público, mais visibilidade e novas oportunidades comerciais. 

“Aumentar a nossa visibilidade, crescimento de público, venda de shows e poder mostrar pro mercado o que a SalDoce é capaz de entregar no palco”, completa Fernanda.

Essa leitura muda a forma de calcular se o audiovisual trouxe retorno. O resultado não precisa necessariamente chegar por uma receita associada diretamente aos vídeos. Uma contratação gerada pelo material, por exemplo, também passa a fazer parte dessa conta.

Por que a SalDoce abriu o projeto com um single triplo

A estratégia de lançamento também foi pensada para tentar extrair mais do investimento. A equipe decidiu não liberar as dez músicas imediatamente, mas também evitou uma sequência longa de singles individuais.

Ricardo Rodrigues explica que a SalDoce já experimentou diferentes formatos ao longo da carreira, incluindo singles mensais, EPs e álbuns completos. Cada modelo, segundo o produtor, apresenta vantagens e limitações.

“A escolha de lançar ‘Inofensiva Flor’ em duas etapas foi para condensar as ideias de ter uma prévia que resumisse o álbum, e por isso um single triplo fez sentido”, explica Ricardo.

Paulo Moreira e Ricardo Rodrigues, SalDoce
Paulo Moreira e Ricardo Rodrigues

O trio de faixas funcionou como uma porta de entrada para o universo do disco. Pouco depois, o álbum completo passou a concentrar as diferentes frentes de comunicação.

“A estratégia fortaleceu o produto completo, que é o nosso objetivo desde a sua concepção”, afirma Ricardo.

A decisão evita um problema comum em campanhas muito fragmentadas. Quando cada música ganha um ciclo próprio de divulgação durante vários meses, o single pode acabar se tornando mais reconhecível do que o álbum que deveria reunir toda aquela narrativa.

No caso da SalDoce, a equipe queria preservar “Inofensiva Flor” como o centro da campanha. O single triplo entregava uma amostra do trabalho sem afastar marketing, redes sociais e imprensa do produto principal durante um período prolongado.

Streaming não é a única régua para medir o investimento

Depois que o álbum chega ao público, começa outra etapa: entender o que ele efetivamente provocou na carreira. Ricardo conta que a equipe acompanha diferentes indicadores em vez de concentrar a avaliação apenas nas reproduções das plataformas de streaming.

“Temos a prática de observar diversas métricas na SalDoce de forma detalhada, como os indicadores das plataformas digitais, números das redes sociais e aumento da procura por shows”, diz Ricardo.

A combinação ajuda a identificar diferentes movimentos. Os dados de streaming mostram como as músicas estão circulando, as redes indicam alcance e interação com o público, e a demanda por apresentações pode apontar um efeito comercial mais direto. Há, ainda, uma dimensão que Ricardo reconhece ser mais difícil de colocar em uma planilha.

“Mas um fator que não é matematicamente medido porém sentido é a conexão dos fãs com a mensagem de ‘Inofensiva Flor’. E isso é um grande indicativo de que estamos no caminho certo”, explica Ricardo.

Para um trio independente, portanto, a conta de um álbum audiovisual não termina em comparar o custo dos vídeos com o dinheiro gerado por eles. O projeto entra em uma construção mais longa, na qual música, imagem, público e palco passam a trabalhar juntos.

É também por isso que a SalDoce trata “Inofensiva Flor” como investimento de carreira. O audiovisual foi pensado para apresentar dez músicas, mas precisa continuar útil depois que a campanha de lançamento perder intensidade. Seja apresentando o trio a um novo ouvinte, seja ajudando um contratante a entender o show, o material passa a integrar os ativos que a banda leva para seus próximos passos.

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