BMG e Suno fecham acordo global para desenvolver modelo de música com inteligência artificial

A parceria entre a BMG e a Suno prevê participação voluntária de artistas e compositores, remuneração e acerto sobre usos anteriores do catálogo.
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Nathália Pandeló
Suno e BMG anunciam parceria
Suno e BMG anunciam parceria (Crédito: Divulgação)

A Suno e a BMG anunciaram uma parceria global que estabelece uma estrutura para o uso do repertório de gravações e edição musical da gravadora e editora em novas experiências desenvolvidas com inteligência artificial. O acordo faz parte do lançamento do primeiro modelo musical da Suno criado em parceria com empresas da indústria da música.

A negociação prevê que artistas e compositores representados pela BMG possam escolher se desejam participar das iniciativas. Para quem aderir, o acordo estabelece proteção de direitos e remuneração pelo uso das músicas. As empresas também acertaram questões relacionadas ao uso anterior, pela Suno, de gravações e obras editoriais administradas pela BMG.

O anúncio coloca a autorização dos titulares em meio à nova etapa de desenvolvimento da plataforma. Apesar de confirmar remuneração e participação opcional, as empresas não divulgaram valores, critérios de pagamento, quais obras poderão integrar o modelo ou de que forma o repertório será utilizado tecnicamente.

Artistas e compositores poderão escolher se participam

Mikey Schulman, Suno, e Celine Joshua, BMG
Mikey Shulman, cofundador e CEO da Suno; e Celine Joshua, vice-presidente executiva de marketing global e streaming da BMG

O modelo anunciado pela Suno parte do princípio de adesão voluntária. A empresa afirma que pretende desenvolver novas experiências de criação e interação entre artistas e fãs sem incorporar automaticamente os titulares representados pela BMG. Os detalhes sobre como essa autorização será solicitada ainda não foram informados.

Para Mikey Shulman, cofundador e CEO da Suno, a participação direta de criadores e empresas do setor é parte da estratégia de desenvolvimento da tecnologia.

“Acreditamos que o futuro da música será mais participativo, criando formas totalmente novas de conexão entre artistas e fãs. Construir esse futuro de forma responsável significa trabalhar diretamente com as pessoas que fazem música e com as empresas que as representam. Junto com a BMG, podemos desenvolver novas experiências que dão escolha real a artistas e compositores, geram novas receitas e tornam a música uma parte maior da vida das pessoas”, disse.

Na BMG, a escolha dos titulares também foi apresentada como um dos pilares do acordo. Celine Joshua, vice-presidente executiva de marketing global e streaming da empresa, relacionou a parceria à necessidade de dividir o valor econômico gerado pelas ferramentas de inteligência artificial.

“O futuro da IA na música será definido por artistas e compositores permanecerem no centro da oportunidade e compartilharem do valor que ela cria. A escolha é o princípio orientador. Este acordo estabelece proteções fortes, economia clara e novas possibilidades criativas para os artistas e seus fãs. Ao entrarmos na era da criação, esperamos moldar esse futuro juntos com nossos criadores e a Suno”, apontou Celine.

Acordo também trata de usos anteriores do catálogo da BMG

Um dos pontos do anúncio é que a negociação não se limita aos futuros produtos da Suno. As empresas informaram que o acordo também estabelece um acerto relacionado ao uso anterior de gravações e obras editoriais da BMG pela plataforma.

A informação é relevante em um momento no qual empresas de inteligência artificial e titulares de direitos discutem as condições para utilização de músicas em sistemas de geração de conteúdo. No caso da parceria com a BMG, a Suno passa a trabalhar com uma estrutura negociada diretamente com uma companhia que reúne catálogos de gravações e de edição musical.

A Suno também afirma que a parceria seguirá os princípios sobre inteligência artificial publicados pela empresa em 6 de agosto. Entre as medidas anunciadas estão mecanismos para facilitar a identificação de músicas produzidas com a ferramenta e ações destinadas a reduzir a produção e a distribuição em massa de conteúdos considerados inautênticos ou de baixa qualidade.

Suno pretende aprofundar programas voltados a artistas independentes

Além do desenvolvimento do novo modelo, a Suno informou que pretende aprofundar com a BMG a atuação de iniciativas voltadas a artistas independentes. Entre elas estão os programas “Suno: In Session” e “Spark”, que oferecem recursos, mentoria e apoio de marketing para projetos musicais.

A empresa também citou os encontros semanais de composição que já realiza com artistas, compositores, produtores e músicos. Segundo a Suno, essas sessões servem para observar como as ferramentas entram nos processos de criação e identificar ajustes nos produtos. Os encontros, porém, não foram apresentados como uma iniciativa criada especificamente pela parceria com a BMG.

O acordo reúne três pontos que vêm ganhando espaço nas negociações entre empresas de tecnologia e a indústria da música: autorização dos criadores, remuneração pelos usos futuros e tratamento dos usos realizados antes da formalização de uma licença. Agora, o próximo passo será entender como esses compromissos serão aplicados no novo modelo musical que a Suno prepara para lançar.

BMG também leva disputas sobre inteligência artificial aos tribunais

BMG e Anthropic

A aproximação com a Suno acontece ao mesmo tempo em que a BMG adota uma postura mais dura quando identifica o uso de seu repertório sem autorização. Em março de 2026, a empresa processou a Anthropic, responsável pelo Claude, em um tribunal federal da Califórnia. A ação acusa a companhia de IA de utilizar letras protegidas para treinar seus modelos de inteligência artificial e de reproduzir esses conteúdos nas respostas do chatbot. A BMG aponta 493 violações de direitos autorais envolvendo obras associadas a nomes como Bruno Mars, The Rolling Stones e Ariana Grande.

Na ação, a BMG também afirma que a Anthropic teria obtido parte desse material em sites de compartilhamento não autorizado. O processo se soma a uma série de disputas judiciais que tentam definir até onde empresas de inteligência artificial podem utilizar obras protegidas no treinamento de seus sistemas sem negociar previamente com os titulares dos direitos.

A relação da companhia com a tecnologia, porém, não se resume aos tribunais. Em 2025, a BMG aumentou o uso de inteligência artificial em áreas internas, incluindo produção de conteúdo de marketing, automação e sistemas de recomendação. A empresa também manteve parcerias com Google Cloud e OpenAI para aplicações da tecnologia em seus negócios.

O acordo com a Suno ajuda a mostrar os limites dessa estratégia. A BMG não se coloca contra o desenvolvimento ou o uso de inteligência artificial na música, mas busca diferenciar aplicações negociadas daquelas que utilizam obras sem autorização. Ao mesmo tempo em que recorre à Justiça contra a Anthropic, a BMG aceita construir novos modelos com a Suno quando há participação voluntária dos titulares, proteção de direitos e previsão de remuneração para artistas e compositores. A posição da empresa indica disposição para dialogar sobre inteligência artificial, desde que os criadores tenham controle sobre suas obras e participem do valor econômico gerado pela tecnologia.

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