A indústria da música apresentou uma proposta de dois rótulos digitais para identificar o uso de inteligência artificial nas gravações: “Gerada por IA” e “Assistida por IA”. A iniciativa foi apresentada nesta sexta-feira (10) por uma coalizão formada por entidades da indústria, organizações independentes, representantes de artistas e instituições ligadas à música.
Participam da iniciativa a IFPI, a RIAA, a A2IM, a WIN, a IMPALA, os Grammy, a SAG-AFTRA e a Human Artistry Campaign. O objetivo é criar uma linguagem comum que possa ser adotada por plataformas de streaming, distribuidoras, agregadoras e outras empresas responsáveis por disponibilizar músicas ao público.
A adesão ao sistema será voluntária e os rótulos serão atribuídos individualmente a cada gravação. Ícones visuais, acompanhados por informações incluídas nos metadados, deverão indicar se os principais elementos criativos foram produzidos por inteligência artificial ou se a tecnologia teve uma participação mais limitada no processo.
O que diferencia uma faixa gerada de uma assistida por IA
A classificação “Gerada por IA” será aplicada quando a inteligência artificial tiver criado toda a gravação ou a maior parte de seus elementos criativos. A categoria inclui, por exemplo, músicas com voz principal gerada artificialmente, interpretação instrumental central produzida por sistemas generativos ou faixas inteiras criadas a partir de comandos de texto.
Já o selo “Assistida por IA” será destinado a gravações feitas majoritariamente por pessoas, mas que utilizaram a tecnologia em alguns elementos expressivos. Nesse caso, as vozes principais e os instrumentos centrais precisam ter sido executados por músicos humanos.
A distinção busca evitar que usos muito diferentes da tecnologia recebam o mesmo tratamento. Um artista que emprega inteligência artificial em uma etapa pontual da produção, por exemplo, não será classificado da mesma maneira que uma faixa criada integralmente por um sistema automatizado.
“Os fãs querem saber se a IA generativa foi usada na música que escutam e de que maneira”, afirmaram Victoria Oakley, diretora-executiva da IFPI, e Mitch Glazier, presidente e diretor-executivo da RIAA, em declaração conjunta.

Crescimento das faixas artificiais pressiona as plataformas
A criação dos rótulos ocorre em meio ao crescimento acelerado do volume de músicas geradas artificialmente. Em abril, a Deezer informou que esse tipo de conteúdo já representava 44% de todas as novas faixas entregues diariamente à plataforma.
O Apple Music, por sua vez, declarou que mais de um terço das músicas enviadas ao serviço eram classificadas como totalmente produzidas por inteligência artificial. Os números ajudam a explicar por que a identificação da origem das gravações passou a ocupar espaço nas discussões sobre distribuição, remuneração e confiança do público.
Atualmente, uma música produzida por pessoas e uma gravação criada por comandos automatizados costumam aparecer lado a lado nos serviços digitais sem qualquer indicação visível sobre seus processos de criação. Com os novos ícones, a expectativa é permitir que o ouvinte reconheça essa diferença antes ou durante a reprodução.
A medida também pode ajudar as próprias plataformas a organizar políticas específicas para cada categoria. O rótulo, porém, não determina se uma música poderá ser distribuída, monetizada ou recomendada. Ele funciona, inicialmente, como uma camada de informação.
Sistema ainda não inclui letras, capas e videoclipes
Nesta primeira etapa, as etiquetas serão aplicadas somente às gravações sonoras. O modelo não contempla o uso de inteligência artificial em letras, composições, capas de discos, materiais gráficos ou videoclipes.
As organizações afirmam que o sistema foi pensado para evoluir conforme a tecnologia e as exigências regulatórias mudarem. Elas ainda trabalharão com plataformas digitais, distribuidoras, agregadoras e entidades de padronização para definir como os dados serão enviados, armazenados e exibidos.
Também não foi anunciada uma data única para a chegada dos rótulos aos serviços digitais. O comunicado informa apenas que eles estarão disponíveis para uso em um futuro próximo, o que indica que a implementação dependerá dos processos técnicos de cada empresa.
Ao reunir organizações que representam gravadoras, selos independentes, artistas e trabalhadores do entretenimento, a proposta ganha mais chances de se tornar um padrão reconhecido em diferentes mercados. O efeito real, no entanto, dependerá da adesão das plataformas e da qualidade das informações fornecidas por quem distribui as gravações.
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