Os números recentes de rádio e streaming mostram que o sertanejo continua sendo quase arroz e feijão no consumo musical do brasileiro. O gênero segue em rotação constante, aparece no topo das principais frentes de audição do país e mantém uma presença difícil de ignorar, mesmo em um mercado cada vez mais fragmentado.
Por trás dessa força, porém, há uma disputa menos óbvia. Novas duplas, artistas solo, feats e subcenas regionais tentam encontrar espaço em um gênero que nunca deixou de ser popular, mas que passou a lidar com volume alto de lançamentos, sonoridades parecidas e uma cobrança maior por identidade própria.
Dois levantamentos do primeiro semestre de 2026 ajudam a dimensionar esse cenário. No ranking semestral da Crowley, o sertanejo ocupou 76 das 100 músicas mais executadas nas rádios brasileiras entre janeiro e junho. Já no levantamento da Pro-Música, que soma Spotify, YouTube, Deezer, Apple Music, Amazon Music e Napster, o gênero aparece com 19 faixas entre as 50 músicas mais tocadas nas plataformas digitais no mesmo período.
O sertanejo segue forte, mas o jogo ficou mais disputado

No ranking da Pro-Música, 48 das 50 músicas mais tocadas no Brasil no primeiro semestre de 2026 são brasileiras, o equivalente a 96% da lista. A liderança ficou com Panda, com “Eu Te Seguro (Ao Vivo)”. Também aparecem no recorte nomes como Felipe & Rodrigo, Mariana Fagundes, Henrique & Juliano, Murilo Huff, Danilo & Davi, Matheus & Kauan, Gusttavo Lima e Zé Neto & Cristiano.
A presença de duplas continua forte, mas não é isolada. No Top 100 semestral da Crowley, 51 faixas foram creditadas a artistas solo, 38 a duplas e 11 a grupos ou bandas. Somadas, as formações coletivas chegaram a 49 entradas, muito puxadas pelo sertanejo. O dado mostra um ambiente em que o formato da dupla segue relevante, mas precisa conviver com artistas solo, participações, projetos coletivos e colaborações cada vez mais frequentes.
Júnior & Cézar entraram na conversa com “Cheiro De Culpado (Ao Vivo)”, faixa que apareceu no Top 50 da Pro-Música e alcançou o Top 3 do Spotify Brasil. Para Júnior, o resultado mais visível não está apenas na posição da música, mas na resposta dos shows.
“Eu acho que os próprios shows falam muito. A gente tem chegado a lugares que até então não imaginava chegar, cidades diferentes, estados diferentes. E vemos não só ‘Cheiro De Culpado’, mas outras músicas também tendo um destaque muito grande, com a galera consumindo de fato o nosso trabalho. Os lugares cheios, os shows cheios, são uma das maiores respostas que a gente pode ter”, diz Júnior.
Pela visão da gravadora, esse novo momento também exige uma leitura mais cuidadosa sobre o estágio de cada artista. Leila Oliveira, presidente da Warner Music Brasil, cita a chegada de Brenno & Matheus ao casting da companhia como exemplo de uma dupla que já chega com comunidade, estrada e narrativa em construção.
“Brenno & Matheus chegam à Warner com uma trajetória construída de dentro para fora: identidade própria, misturando a tradição do sertanejo com as linguagens do agro e do movimento grave, uma comunidade de fãs genuína e uma estrada que percorre todas as regiões do país. Esse é o retrato do momento: os artistas chegam até nós em estágios muito diferentes de maturidade, alguns já com comunidade, narrativa e estrada em plena construção; outros no início, quando o olhar e a estrutura da gravadora fazem toda a diferença”, afirma.
Enquanto a visão das gravadoras ajuda a entender como esses artistas são posicionados e desenvolvidos no mercado, outro ponto essencial dessa engrenagem está na forma como as músicas circulam e geram valor ao longo do tempo. Para Bruna Campos, especialista em direitos autorais da UBC, o avanço de uma música nas plataformas precisa ser lido como parte de uma cadeia maior. A composição pode gerar receita em diferentes frentes e não apenas no ambiente digital.
“Muita gente acha que o dinheiro está apenas no streaming, mas normalmente ele é só uma das fontes de receita. Uma música que cresce pode começar a tocar em rádios, bares, restaurantes, festas, rodeios, casas de show e eventos, gerando execução pública. Pode ser regravada por outros artistas, licenciada para publicidade, novelas, filmes ou campanhas, além de impulsionar a agenda de shows do intérprete”, explica Bruna.
Identidade virou uma moeda mais valiosa

A ideia de renovação no sertanejo aparece menos como uma virada declarada e mais como uma pergunta em aberto: o que faz um artista ser reconhecido quando tantas vozes, duplas e repertórios disputam os mesmos espaços? Para Júnior, a resposta passa pela personalidade que cada dupla imprime ao repertório.
“Parece simples, mas acho que a verdade está na identidade, na personalidade. Quando você faz com amor, com dedicação, com verdade, a música flui. ‘Clone’ já era uma música diferente na época, com um papo positivo, uma música romântica que deu certo na nossa versão. ‘Cheiro De Culpado’ também tem uma história muito forte. A gente brinca que é uma fofoca de um minuto e meio contada, mas é uma música difícil, com uma história, e acabou caindo na graça das pessoas”, diz Júnior.
Cézar também relaciona identidade à escolha das músicas. Para ele, o repertório ajuda a mostrar o que cabe em cada artista e o que diferencia uma dupla da outra.
“As músicas que Júnior & Cézar gravam, ou gravariam, muitas outras duplas e artistas talvez não gravariam, e vice-versa. Então a música também ajuda muito a transformar a identidade de cada um. Isso define muito cada artista”, afirma Cézar.
Nesse contexto de mudanças e disputas por espaço, a forma como o gênero se organiza também passa por transformações. Leila Oliveira avalia que o ciclo atual do sertanejo não se organiza como ondas anteriores, a exemplo do sertanejo universitário e do feminejo. Para ela, o momento é formado por várias cenas que acontecem ao mesmo tempo.
“Na minha opinião, o que diferencia este ciclo é que os anteriores foram grandes ondas, o universitário, o feminejo, enquanto o atual é um mosaico de movimentos culturais simultâneos: o agro, o movimento grave, a nova cena de barzinho, e uma geração feminina que chega por caminhos completamente distintos”, diz a presidente da Warner.
Já Bruna Campos vê a falta de diferenciação como um dos fatores que ajudaram a desgastar parte da relação do público com o gênero nos últimos anos. Segundo ela, quando isso acontece, a percepção de repetição cresce.
“Quando muitos artistas passam a seguir exatamente a mesma fórmula, o público começa a sentir que está ouvindo sempre a mesma música, mesmo que não esteja. Isso dificulta a construção de uma identidade e reduz o espaço para quem realmente propõe algo diferente”, avalia Bruna.
Esse ponto também aparece na forma como as plataformas reorganizaram o ritmo de lançamentos. Para Bruna, a pressão por novidades constantes pode dificultar o trabalho mais longo em torno de uma faixa.
“As plataformas digitais propuseram uma produção em grande escala, exigindo dos artistas lançamentos a cada 15 dias ou um por mês. Não é possível que o artista consiga trabalhar a fundo o sucesso de uma faixa que logo será atropelada por outra. Isso causa muita ansiedade e insegurança sobre fazer ou não fazer o que o algoritmo manda”, completa.
Carreira, repertório e comunidade entram na mesma conta
Se o sertanejo segue ocupando rankings, a disputa atual parece estar na capacidade de transformar pico de atenção em carreira. Para Cézar, “Cheiro De Culpado” abriu novos caminhos para a dupla em diferentes frentes.
“Todos os dias chegam pedidos na agenda de estados novos, cidades novas onde a gente nunca se apresentou. Essa música está abrindo várias fronteiras na nossa carreira. E também nas redes sociais: depois que a gente lançou “Cheiro De Culpado”, acho que mais do que dobrou o nosso número de seguidores”, revela Cézar.
Na visão de Leila Oliveira, a Warner não olha para esses elementos de forma separada. Dados, presença digital, repertório e agenda ajudam a entender o momento de um artista, mas o ponto central está na coerência entre essas partes.
“Dados de streaming podem dizer onde o artista está, mas não até onde ele vai. Presença digital sem repertório é fogo de palha; repertório sem identidade é música de todo mundo, e de ninguém. O que buscamos é o artista que sabe quem é. Quando a identidade é verdadeira, o repertório conversa com a estrada, a estrada alimenta o digital e o digital vira comunidade”, afirma
Para Bruna Campos, essa construção também depende de encarar a composição como um patrimônio. No sertanejo, uma música pode circular em shows, rádios, festas, regravações e outros usos, desde que esteja bem administrada.
“É por isso que eu sempre digo que a composição é um patrimônio. Quando ela é bem administrada, uma única música pode gerar receitas diferentes ao mesmo tempo e continuar produzindo resultados muitos anos depois do lançamento”, diz.
A relação com o público aparece como outra peça importante dessa equação. Cézar vê nas redes sociais uma aproximação maior entre artista e fã, enquanto Júnior relaciona esse momento a uma busca por verdade na música, em tempos de inteligência artificial.
“O momento, até por conta das redes sociais, trouxe essa proximidade do público com o artista. Os projetos vêm com essa vertente de fazer as pessoas se sentirem num churrasco com o artista, quase dividindo o palco, ali na beira do palco pedindo música”, diz Cézar.
“A verdade voltou com força. A arte pela arte mesmo”, complementa Júnior.
Leila também defende que o sertanejo precisa ser visto para além da música em si, porque o gênero envolve território, pertencimento e modo de vida. Para ela, a construção de carreira exige tempo e desenvolvimento.
“Há um compromisso que está acima de qualquer contratação: nós construímos carreiras, não hits. Carreira se constrói com paciência, com desenvolvimento artístico e com a compreensão de que música e movimento cultural caminham juntos. O sertanejo é a prova viva disso: é um gênero que nunca foi só som; é a música e é modo de vida, é território, é pertencimento”, diz Leila Oliveira.
Bruna Campos acrescenta um novo fator ao debate: a inteligência artificial. Para ela, as ferramentas de IA tendem a replicar padrões já conhecidos, o que pode tornar a busca por assinatura própria ainda mais importante para a nova geração.
“As plataformas de IA estão replicando o que aprenderam com as músicas da última década. Quem for realmente inteligente vai compreender isso rápido e procurar se afastar ao máximo desse tipo de música repetida, para não se perder em meio a milhares de músicas lançadas diariamente e completamente parecidas”, afirma Bruna.
Independente de todos esses fatores, os hits continuam acontecendo e o sertanejo segue muito presente na escuta nacional. Mas a força dos números não elimina a disputa por diferenciação. Entre duplas, solistas, feats, gravadoras, compositores e novas cenas, a renovação do gênero vai muito além de uma constelação de nomes no topo. Ela depende, mais que tudo, da capacidade de criar repertório, identidade e comunidade em um mercado onde todo mundo tenta soar como sucesso ao mesmo tempo.
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