Papatinho pode ser um dos produtores musicais mais reconhecidos do Brasil, mas não foi por acaso que ganhou a alcunha de “The Numero Uno”. Do início como DJ e produtor da ConeCrewDiretoria até ocupar espaços globais, do videogame “FC 26” a músicas em filmes e encontros com artistas internacionais, a trajetória foi construída com anos de estrada, tentativas, relações de estúdio e muitas milhas de voo.
O momento atual mostra essa expansão de forma mais clara. O produtor assina, ao lado de Ajaxx, a produção de “Bad To The Bone”, faixa de Ruby com Papatinho presente na trilha de “Todo Mundo em Pânico 6”. Também se aproximou de will.i.am em um projeto ligado ao Black Eyed Peas inspirado no Brasil, com uma mescla de funk, samba e produção pop americana.
Falando exclusivamente ao Mundo da Música, Papatinho conta que sua chegada ao mercado internacional não nasceu de um convite repentino. Foi uma construção longa, iniciada quando ele ainda tentava entender como entrar nas salas de criação dos Estados Unidos. A resposta, diz ele, veio quando percebeu que o caminho não era parecer menos brasileiro, mas usar o Brasil como principal diferença.
O Brasil como passaporte para fora

A primeira tentativa de Papatinho foi seguir a cartilha americana. Ele queria fazer beats com a linguagem de Los Angeles, dentro da escola que formou parte de suas referências internacionais. Com o tempo, percebeu que isso o colocava em uma disputa desigual, porque ele chegava de fora tentando competir com quem já dominava aquele território.
“Eu comecei a viajar para lá ‘de maluco’ para tentar esse sonho americano desde 2014, 2015. Já tem mais de dez anos que eu viajo para lá. No início, eu fazia exatamente como eles fazem. Eu queria fazer um beat West Coast em Los Angeles, sendo do Brasil. Cheguei a conhecer alguns, a andar bastante, a bater na trave com algumas produções. Só que eu não tinha nada de especial”, reconhece.
A virada veio quando entendeu que sua força estava justamente no repertório brasileiro. Na entrevista, ele compara esse processo à trajetória de Luiz Gonzaga, que se tornou único quando assumiu a própria origem como marca artística.
“Fui percebendo que eu precisava levantar a minha bandeira. Tem uma história do Luiz Gonzaga: quando ele decidiu ser ele, passou a ser especial. Para mim foi uma coisa similar.”
A partir daí, Papatinho passou a tratar funk, samba, recortes vocais, percussões e texturas da música brasileira como ferramentas de criação. Não como ornamento, mas como vocabulário próprio.
O funk muda a conversa nos estúdios
Esse movimento ganhou outro peso com o crescimento do funk brasileiro no mercado global. Segundo dados do Spotify, o gênero teve alta de 36% em receitas globais em 2025, tornando-se o gênero mainstream que mais cresceu na plataforma. No mesmo ano, artistas brasileiros geraram aproximadamente R$ 2 bilhões apenas no Spotify, com alta de 24% em relação ao ano anterior.
Para Papatinho, esse interesse não surgiu de uma hora para outra. Antes de o funk ser procurado de forma mais direta, ele já testava formas de inserir elementos brasileiros nas sessões internacionais, ainda que em doses menores.
“Eu comecei aos poucos a colocar pitadas do que eu podia colocar do Brasil, nem falando de funk 100%. Às vezes era só uma levadinha que os caras viam como uma percussão, como uma intervenção. E aquilo já chamava atenção só por esse detalhe”, recorda.
Com o aquecimento do gênero, a curiosidade mudou de tamanho. Produtores e artistas estrangeiros passaram a perguntar como aquela sonoridade era feita, abrindo espaço para quem domina a linguagem por dentro.
“Passou um tempo e, com o aquecimento do funk no mundo, eles passaram a querer aquilo, a querer entender como aquilo é produzido. ‘Caraca, como é que tu faz isso?’ Isso me deixou muito bem relacionado, porque eu já era o cara que estava querendo fazer essa transição com uma coisa do Brasil.”
Cinema, games e novas rotas para a música brasileira

A fase internacional de Papatinho também passa pelo audiovisual. A presença em “Todo Mundo em Pânico 6” coloca seu trabalho dentro de uma franquia conhecida mundialmente e se soma a experiências em games, como “FC 26” e “Battlefield”. Para produtores brasileiros, esse caminho importa porque trilhas, jogos, filmes e campanhas podem levar uma música a públicos que talvez não chegassem por uma playlist.
Em 2025, veio o álbum “MPC (Música Popular Carioca)”, que levou Papatinho ao Latin Grammy. O trabalho marcou uma fase importante de sua carreira ao consolidar sua identidade sonora e ampliar seu reconhecimento internacional.
“Esse projeto me colocou numa trilha sonora de videogame, que era um sonho. Entrei no FC 26 com uma faixa do ‘MPC’ e isso acabou abrindo portas para Battlefield, que foi outra música de videogame em que eu entrei também. Foi muito bom ter tido essa atitude de não fazer só uma música pop chiclete. Eu fiz algo mais elaborado.”
Hoje, Papatinho diz sentir que os caminhos estão mais conectados. Depois de anos tentando entrar no mercado americano, ele já percebe outra dinâmica: chega aos Estados Unidos e os convites aparecem com mais naturalidade.
“Esses últimos dois, três anos nos Estados Unidos, trabalhando com esses caras, foram surreais. Tem sido muito importante para mim ter essas conexões e esse aval deles. Hoje está um pouco mais conectado. As pessoas sabem que eu existo lá. Eu pego um avião, paro em qualquer lugar dos Estados Unidos, posto que estou ali e já vêm pedidos de estúdio. Para mim, isso já é uma conquista”, comemora.
O próximo passo, segundo ele, é seguir viajando, criando pontes e lançando projetos próprios, sem abandonar a base que trouxe até aqui. A lição da gringa, para Papatinho, parece clara: o mercado internacional pode até abrir a porta pelo interesse no funk, mas o que sustenta a presença é saber transformar a música brasileira em linguagem de estúdio, repertório, conexão e negócio.
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