NMPA anuncia acordos com Udio e KLAY após editoras musicais dos EUA chegarem a US$ 7,29 bilhões

A NMPA negocia licenças em meio à disputa sobre IA, royalties e valorização das composições no mercado musical.
Foto de Nathália Pandeló
Nathália Pandeló
NMPA, Udio e Klay assinam acordo
NMPA, Udio e Klay assinam acordo

A National Music Publishers’ Association (NMPA), associação que representa editoras musicais dos Estados Unidos, anunciou acordos com as plataformas de inteligência artificial Udio e KLAY em um momento de forte crescimento do setor. Segundo a entidade, as editoras musicais dos EUA chegaram a US$ 7,29 bilhões em receitas em 2025, contra US$ 2,17 bilhões em 2014.

Os anúncios foram feitos por David Israelite, presidente e CEO da NMPA, durante a reunião anual da associação, realizada em Nova York. O movimento coloca as editoras e os compositores no centro da conversa sobre IA na música, especialmente em um ponto que vem gerando disputa: a necessidade de licenciar não só as gravações, mas também as composições usadas no treinamento de modelos.

A discussão passa por uma diferença importante. A gravação é o fonograma, ou seja, aquela versão final que chega ao streaming. A composição é a obra por trás dela, com melodia, letra e estrutura. Para a NMPA, as duas partes precisam ser tratadas com o mesmo peso quando uma empresa de IA usa música para treinar seus sistemas.

O acordo com Udio mira um novo padrão para IA na música

Segundo Israelite, o acordo com a Udio é o primeiro licenciamento setorial da NMPA com uma grande empresa de IA musical. A entidade afirma que o contrato também estabelece um ponto central para o mercado: canções e gravações devem ter o mesmo valor no treinamento de modelos.

“Canções são tão importantes quanto gravações sonoras, se não mais, quando se trata de treinamento de IA”, resume o CEO.

Ele ecoa uma cobrança antiga das editoras musicais. Em muitas negociações sobre inteligência artificial, as gravadoras acabam ganhando mais visibilidade por controlarem os fonogramas. Mas, sem a composição, não existe repertório a ser interpretado, regravado, remixado ou usado como referência por ferramentas generativas.

Israelite descreveu a Udio como uma plataforma que permite ao público reimaginar música a partir de estilos de compositores e artistas. Segundo ele, a empresa aceitou que precisa de autorização de editoras e gravadoras para operar nesse modelo. Os membros da NMPA em situação regular poderão revisar e aderir ao acordo a partir de 15 de junho.

KLAY tenta chegar ao mercado com licenças antes do lançamento

O segundo anúncio envolve a KLAY, em um acordo de princípio que deve ser apresentado aos membros da NMPA durante o verão do hemisfério norte. A plataforma trabalha com um grande modelo musical treinado inteiramente com repertório licenciado, segundo a associação.

O ponto mais relevante é o momento da negociação. Diferentemente de empresas que lançaram produtos primeiro e passaram a discutir direitos depois, a KLAY busca entrar no mercado já com autorizações em mãos. Israelite destacou justamente esse movimento ao dizer que a empresa está garantindo licenças antes de lançar sua plataforma.

“Todos nós sabemos como isso é raro no nosso negócio, onde muitas vezes as pessoas pedem perdão em vez de permissão”, apontou.

A KLAY já havia assinado acordos com as três grandes companhias musicais em novembro de 2025. Com a NMPA, a empresa tenta cobrir também o lado das editoras, o que pode criar um modelo mais completo de autorização para serviços de IA musical.

Licenciamento e processos caminham juntos

Licenciamento de composições para empresas de IA, NMPA
Licenciamento de composições para empresas de IA

A NMPA deixou claro que os acordos com Udio e KLAY não significam uma trégua geral para empresas de IA. Israelite afirmou que a entidade pretende seguir licenciando companhias que aceitam negociar e, ao mesmo tempo, processar aquelas consideradas problemáticas.

“Litigar contra maus agentes de IA e licenciar bons parceiros de IA não está em conflito”, diferenciou.

Em junho de 2024, a RIAA processou a plataforma e a Suno em nome de Universal Music Group, Sony Music e Warner Music Group, acusando as empresas de violação massiva de direitos autorais. Desde então, a Udio passou por uma virada no mercado.

A plataforma fechou acordo com a Universal em outubro de 2025, com a Warner em novembro, com a Merlin em janeiro de 2026 e com a Kobalt em abril. A Sony ainda não chegou a um acordo com a Udio, e sua parte no processo segue em aberto. Com isso, a empresa virou uma espécie de teste para a indústria: saiu da posição de alvo judicial e passou a se tornar parceira licenciada de parte do mercado.

Receitas crescem, mas disputa com streaming continua

Durante a reunião anual, Danielle Aguirre, diretora jurídica e de operações da NMPA, informou que as editoras musicais dos Estados Unidos alcançaram US$ 7,29 bilhões em receitas em 2025. Ela também chamou atenção para o avanço desde 2014, quando esse valor era de US$ 2,17 bilhões.

O número mostra o crescimento econômico das composições na última década. O mercado editorial é a área que cuida dos direitos das obras, ou seja, daquilo que compositores e editoras recebem quando uma música é usada em streaming, rádio, vídeos, shows, sincronizações e outros formatos.

Ainda assim, a NMPA voltou a criticar os pacotes de música e audiolivros lançados por Spotify e Amazon Music. Sob o regime de licenciamento dos Estados Unidos, esses pacotes pagam uma taxa menor do que serviços dedicados apenas ao streaming musical. Segundo Aguirre, a mudança reduziu os pagamentos dessas empresas em cerca de 30%.

A entidade também citou estimativas do próprio Spotify, segundo as quais os pacotes teriam custado quase US$ 480 milhões a compositores e editoras desde 2024. O tema continua sendo um dos principais pontos de tensão entre a plataforma e o mercado editorial norte-americano.

IA também acende alerta sobre fraude em streaming

Israelite também afirmou que a IA está acelerando a fraude em streaming. Segundo ele, a Apple Music encontrou cerca de 2 bilhões de streams fraudulentos em 2025. O executivo ainda citou dados da Deezer, que reportou 60 mil faixas totalmente geradas por IA enviadas por dia em janeiro, número que chegou a 75 mil em abril.

Para a NMPA, a combinação entre música sintética em escala, contas falsas e manipulação de plataformas cria um risco que vai além da disputa por royalties. O CEO classificou a fraude em streaming como uma questão de segurança nacional, citando a possibilidade de uso desses mecanismos para lavagem de dinheiro por organizações criminosas.

A entidade anunciou ainda a primeira edição do AI Songs Summit, marcada para setembro em Nashville. O encontro deve reunir editoras, organizações de direitos autorais e grupos de compositores para discutir boas práticas contra fraude e uso malicioso de IA.

“As grandes músicas nunca serão produzidas em massa por máquinas. Estamos aqui para lutar pelo que torna a arte cheia de sentido: a inspiração humana autêntica.”

A mensagem da NMPA é de que a inteligência artificial pode entrar no negócio da música, desde que passe pela porta do licenciamento. Para editoras e compositores, a disputa agora é garantir que essa porta não seja menor do que a aberta para gravadoras.

Leia mais: