Berklee: 75% dos músicos sentem pressão para criar conteúdo; IA já é trilha em 32,7% dos vídeos nas redes

Estudo da Berklee College of Music mostra como conteúdo para redes sociais, IA e licenciamento mudaram a rotina de músicos e criadores em vídeo.
Foto de Nathália Pandeló
Nathália Pandeló
Relatório de Berklee sobre música, vídeo e IA
Capa de relatório de Berklee sobre música, vídeo e IA (Crédito: Divulgação)

O conteúdo para redes sociais já deixou de ser uma camada extra da carreira musical. Segundo o relatório “In Sync: Music and Video 2026”, publicado pela Berklee Emerging Artistic Technology Lab, da Berklee College of Music, com apoio da Adobe, 75,3% dos músicos entrevistados disseram ter sentido pressão para produzir vídeos junto com suas músicas nos últimos 12 meses.

A pesquisa de Berklee ouviu 1.003 pessoas nos Estados Unidos, entre criadores de vídeo, músicos, profissionais de marca, supervisores musicais e pessoas que atuam nas duas frentes. O estudo mostra uma mudança que já aparece na prática do mercado: quem faz música também precisa entender de vídeo, plataforma, algoritmo, licenciamento e inteligência artificial.

Esse movimento não quer dizer que a música perdeu valor. O ponto é outro. A música passou a circular em mais contextos, principalmente em vídeos curtos, campanhas, publicações de marca e conteúdos feitos por criadores. Para artistas, selos e editoras, isso cria oportunidades, mas também deixa mais visível um gargalo antigo: a dificuldade de transformar uso, alcance e interesse em receita.

O músico também virou criador de vídeo, afirma Berklee

Compositor 3, Udio, UCNA
Crédito: Cottobro Studio

Um dos dados mais fortes do levantamento é que 92,2% dos respondentes integram músicas próprias em seus vídeos de alguma forma. Isso pode acontecer quando o artista sobe um áudio em uma ferramenta de edição, cria um vídeo já pensado em torno de uma faixa ou usa a própria música nas bibliotecas de TikTok, Instagram e YouTube para facilitar a reutilização por outras pessoas.

Ou seja, cada lançamento passa a funcionar em duas frentes. A faixa continua sendo uma obra para streaming, shows e catálogo, mas também vira material para vídeos, cortes, bastidores, campanhas e publicações de fãs. O conteúdo para redes sociais não é só divulgação. Ele passa a ser uma parte da própria estratégia de circulação da música.

O relatório de Berklee também mostra que 75,8% dos criadores ligados à música lançam faixas pelo menos a cada poucos meses, enquanto 37,8% lançam mensalmente ou com frequência ainda maior. O problema é que apenas 12,8% se definem como artistas estabelecidos ou de legado, em estágios nos quais a música já representa uma fonte relevante ou principal de renda.

Esse contraste ajuda a explicar a pressão sobre artistas independentes e em desenvolvimento. O ritmo de lançamento aumentou, a demanda por vídeo cresceu e a monetização não acompanha no mesmo ritmo. O artista é estimulado a produzir mais música, mais conteúdo para redes sociais e mais formatos de entrega, mesmo quando a receita ainda depende de uma combinação incerta entre streaming, shows, marcas, licenciamento e oportunidades pontuais.

Algoritmo, IA e direitos mudam o valor da música

Redes sociais
Crédito: Los Muertos Crew

A escolha musical para vídeos também está cada vez mais ligada ao alcance. Segundo o estudo, 65,6% dos respondentes sempre ou frequentemente escolhem música com base no que está em alta, mesmo quando o som não é o encaixe criativo ideal para o conteúdo. Entre criadores de vídeo, esse índice sobe para 73,1%.

Outro dado mostra como essa lógica influencia o processo criativo: 83,7% dos entrevistados já escolheram uma música que está “bombando”, antes mesmo de criar o vídeo. Ou seja, muitas vezes o áudio vem antes da ideia visual. A música deixa de ser um acabamento e passa a funcionar como ponto de partida para o conteúdo.

A inteligência artificial entra nesse cenário como ferramenta de velocidade e substituição. O levantamento aponta que 47,9% usam música gerada por IA como fundo atrás de fala ou narração, enquanto 32,7% já usaram IA como trilha final em conteúdo publicado. Outros 29,7% usam IA para testar o clima antes de escolher uma faixa licenciada ou de biblioteca.

Mas a adoção não é total nem pacífica. Entre músicos, 21,3% evitam música gerada por IA por razões ligadas à qualidade, ética ou percepção do público. O dado mostra que a IA já está dentro do fluxo de produção, mas ainda convive com dúvidas sobre autoria, consentimento, remuneração e confiança.

O licenciamento aparece como o grande ponto de atrito. O relatório mostra que 86,6% dos respondentes enfrentam pelo menos uma barreira para usar músicas populares ou reconhecíveis em vídeos. As principais são custo, citado por 42,9%, complexidade para entender como licenciar legalmente, com 33,6%, confusão sobre regras de plataformas, com 32,9%, e medo de strike ou Content ID, com 32,3%.

Quando uma música famosa fica cara ou difícil demais, o mercado busca atalhos. Segundo a pesquisa, 26,1% recorrem a faixas parecidas em bibliotecas stock ou royalty-free, e 18,7% usam música gerada por IA com estilo semelhante. No total, 44,8% substituem a música original por uma alternativa parecida quando o licenciamento não cabe no projeto.

Os dados de Berklee dialogam diretamente com o mercado musical. Afinal, existe demanda por música em vídeo, mas o acesso legal ainda é caro, confuso e lento para boa parte dos criadores. Enquanto esse caminho não fica mais simples, a IA, as bibliotecas prontas e os sons em alta seguem ocupando espaço. O artista que entende conteúdo para redes sociais, prepara versões instrumentais, organiza metadados e aprende a apresentar sua música para licenciamento sai na frente em um mercado cada vez mais audiovisual.

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