Novo estudo da Luminate aponta a nostalgia como motor do consumo musical em 2026

Dados da Luminate mostram como a nostalgia impulsiona músicas antigas no streaming e aproxima marcas de novos públicos.
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Nathália Pandeló
Relatório da Luminate analisa o impacto da nostalgia no consumo musical
Relatório da Luminate analisa o impacto da nostalgia no consumo musical (Crédito: Divulgação)

A nostalgia deixou de ser apenas uma sensação confortável ligada ao passado e passou a influenciar de forma cada vez mais direta o consumo de música. Segundo o relatório “Retro Revival”, divulgado pela Luminate em junho de 2026, o interesse por músicas antigas está moldando os hábitos de escuta, as decisões de compra e até as estratégias de marcas nos Estados Unidos.

O estudo parte de um fenômeno que ganhou força nas redes sociais: a ideia de que “2026 é o novo 2016”. A frase virou uma espécie de resumo do desejo de parte do público por referências de uma década atrás, mas os dados mostram que o movimento vai além da memória recente. Músicas dos anos 1990 e 2000, formatos físicos e trilhas de séries antigas também aparecem no centro desse retorno.

Para o mercado musical, o dado mais interessante é que a nostalgia não se limita ao público que viveu determinada época. A Luminate aponta que consumidores de 13 a 24 anos seguem ouvindo músicas lançadas antes de nascerem, enquanto faixas antigas voltam a crescer por causa de redes sociais, séries, filmes e novas formas de descoberta.

Jovens estão ouvindo músicas anteriores ao seu nascimento

Geração Z ouve música (Crédito RDNE Stock project)
Geração Z ouve música (Crédito: RDNE Stock project)

Um dos recortes mais fortes do relatório mostra que consumidores norte-americanos de 13 a 24 anos continuam engajados com músicas lançadas antes de nascerem. Entre esse público, a parcela que mais ouve músicas dos anos 1990 ou anteriores aparece acima da preferência por faixas dos anos 2020.

Isso ajuda a explicar por que músicas antigas conseguem voltar aos rankings sem depender apenas de relançamentos tradicionais. O catálogo passa a circular em ambientes onde a idade da música pesa menos do que seu uso cultural. Uma faixa pode reaparecer em um vídeo curto, em uma cena de série ou em uma trend e, a partir daí, ganhar uma nova vida entre ouvintes que não acompanharam seu lançamento original.

A Luminate também mostra que o interesse por músicas de décadas passadas cresceu em diferentes faixas etárias. Entre os Boomers (geração nascida aproximadamente entre 1946 e 1964), esse comportamento é mais previsível, já que se conecta a memórias vividas. O ponto novo é ver a Gen Z (nascidos entre 1997 e 2012) usando esse repertório como descoberta, e não apenas como herança familiar.

Esse comportamento cria uma mudança importante para artistas, gravadoras e editoras. O catálogo deixa de ser tratado apenas como arquivo e passa a funcionar como ativo vivo. Obras antigas podem voltar a gerar conversas, consumo e oportunidades comerciais quando encontram um novo contexto.

Anos 1990 e 2000 puxam o crescimento do catálogo

Stranger Things está na plataforma de licenciamento do Roblox
Stranger Things está na plataforma de licenciamento do Roblox (Crédito: Divulgação)

O relatório indica que músicas populares dos anos 1990 e 2000 estão crescendo mais rápido no streaming do que catálogos de outras décadas. Entre os 35 mil títulos mais consumidos lançados entre 1970 e 2015, faixas dos anos 1990 tiveram crescimento médio anual de 8% no áudio sob demanda, enquanto as dos anos 2000 cresceram 7%.

Esse avanço aparece ligado ao retorno da estética Y2K, termo usado para se referir ao visual, aos sons e aos códigos culturais da virada dos anos 1990 para os anos 2000. É aquela mistura de cultura pop, moda, internet inicial, videoclipes de TV e referências que hoje reaparecem em redes sociais, capas, figurinos e campanhas.

Entre as faixas antigas com maior crescimento em 2025, a Luminate cita “Headlock”, de Imogen Heap, “Let Down” e “Creep”, do Radiohead, “Iris”, do Goo Goo Dolls, “Breakin’ Dishes”, de Rihanna, e “Sparks”, do Coldplay. A lista mostra que o retorno não segue uma única lógica de gênero. Há rock alternativo, pop, R&B e faixas que se reconectaram com o público por caminhos diferentes.

A TV e o streaming de vídeo também entram nessa equação. O relatório aponta o caso de “Stranger Things”, da Netflix, que já havia impulsionado “Running Up That Hill”, de Kate Bush, e voltou a movimentar músicas de Prince, como “When Doves Cry” e “Purple Rain”, após a quinta temporada.

Mídia física volta como experiência de consumo

Motivação de compras por geração, segundo a Luminate, nostalgia
Motivação de compras por geração, segundo a Luminate

A nostalgia também aparece no retorno da mídia física. Segundo a Luminate, vinil, CD e até fita cassete voltaram a ter apelo entre consumidores, e a motivação nostálgica pesa na decisão de compra.

O dado chama atenção porque o consumo físico não concorre apenas com o streaming como meio de acesso à música. Ele funciona como objeto, lembrança, item de coleção e símbolo de pertencimento. Para parte do público jovem, comprar um CD ou um vinil não significa voltar ao passado vivido, mas experimentar uma estética que parece mais tátil e menos descartável.

Essa leitura ajuda a entender por que artistas atuais continuam investindo em edições físicas, capas especiais, versões coloridas e produtos de coleção. Em um ambiente dominado por plataformas digitais, o objeto físico vira um ponto de contato mais duradouro entre artista e fã.

Para o mercado brasileiro, essa tendência pode ser observada com cautela. O comportamento analisado pela Luminate é dos Estados Unidos, mas o Brasil também tem um público acostumado a transformar memória afetiva em consumo musical, de relançamentos a festas temáticas e turnês comemorativas.

Marcas tratam nostalgia como dado, não só como estética

Público em festival
Público em festival (Crédito: Wendy Wel)

A parte mais estratégica do relatório está na relação entre nostalgia e marcas. A Luminate defende que dados de consumo musical podem ajudar empresas a entender quais públicos respondem melhor a determinadas décadas, artistas e repertórios.

Isso muda a forma de pensar as campanhas. Em vez de usar uma música antiga apenas porque ela “parece familiar”, uma marca pode cruzar dados de escuta com intenção de compra, faixa etária, categoria de produto e afinidade com artistas. O relatório cita, por exemplo, diferenças entre ouvintes nostálgicos e não nostálgicos na consideração de compra de caixas de som Bluetooth.

A lógica também vale para parcerias com artistas. Segundo a Luminate, fãs de músicas dos anos 2010 aparecem mais propensos a considerar produtos endossados por artistas de quem gostam. Ou seja, nem toda nostalgia funciona do mesmo jeito. O repertório dos anos 1980 pode acionar um tipo de memória, enquanto o dos anos 2010 pode estar mais conectado a influência digital, fandom e consumo de marca.

Para gravadoras, selos e editoras, o estudo aponta uma oportunidade: entender melhor o ciclo de retorno das músicas antigas. O catálogo pode ganhar fôlego quando encontra uma cena de série, um influenciador, um meme ou uma campanha bem posicionada. A nostalgia, nesse caso, não é só saudade. É uma forma de reorganizar valor em torno de músicas que já existiam, mas voltam a disputar atenção em um mercado saturado de lançamentos.

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