Rio2C reúne Papatinho, Marcela Moreira, Gustavo Menéndez, Mariana Madjarof e Cris Falcão em debate sobre Brasil no mercado latino

O painel no Rio2C discutiu como o Brasil passou de vizinho isolado a peça central do mercado latino, com streaming, funk e autoestima.
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Nathália Pandeló
Marcela Moreira, diretora-geral da Warner Music Brasil, Mariana Madjarof, diretora da Access Mídia e da F/SIMAS, Papatinho, artista, produtor musical e fundador da Papatunes, e Gustavo Menéndez, presidente para América Latina e US Latin da Warner Chappell Music, com mediação de Cris Falcão, MD Artist and Label Strategy GM Latin no Rio2C (Crédito: Igor Ventura), Brasil
Marcela Moreira, diretora-geral da Warner Music Brasil, Mariana Madjarof, diretora da Access Mídia e da F/SIMAS, Papatinho, artista, produtor musical e fundador da Papatunes, e Gustavo Menéndez, presidente para América Latina e US Latin da Warner Chappell Music, com mediação de Cris Falcão, MD Artist and Label Strategy GM Latin no Rio2C (Crédito: Igor Ventura)

O mercado latino passou a olhar para o Brasil de outro jeito. No painel “Brasil: de Vizinho Isolado a Epicentro do Mercado Latino”, realizado no Rio2C, executivos e artistas discutiram como o país deixou de ser visto apenas como um mercado grande, porém à parte, para se tornar uma peça cada vez mais estratégica nas trocas musicais da América Latina.

A conversa reuniu Marcela Moreira, diretora-geral da Warner Music Brasil, Mariana Madjarof, diretora da Access Mídia e da F/SIMAS, Papatinho, artista, produtor musical e fundador da Papatunes, e Gustavo Menéndez, presidente para América Latina e US Latin da Warner Chappell Music, com mediação de Cris Falcão, MD Artist and Label Strategy GM Latin.

Do isolamento ao bloco brasileiro

Um dos pontos centrais do debate foi a forma como os brasileiros circulam em eventos internacionais. A ideia do “vizinho isolado” apareceu menos como falta de força e mais como um comportamento de mercado: o Brasil tem tamanho, repertório e consumo interno suficientes para se bastar, mas isso também pode limitar a integração com outros países latinos.

A discussão passou por feiras, festivais e eventos como SXSW, em Austin, onde a presença brasileira muitas vezes se concentra em espaços próprios, como a Casa São Paulo. A leitura feita no painel é que essas iniciativas têm valor, mas precisam vir acompanhadas de circulação real. Para vender música brasileira fora do país, não basta ir uma vez, aparecer em grupo e voltar para casa. É preciso investir tempo, criar relação e entender a lógica de cada mercado.

Cris Falcão lembrou que, em Miami, ouviu que “a gente anda em bloco”. A frase serviu como ponto de partida para uma autocrítica sobre a maneira brasileira de ocupar esses ambientes. Há união, mas também existe uma tendência de ficar entre os próprios brasileiros, enquanto artistas, produtores e executivos de outros países latinos constroem pontes com mais naturalidade.

Ao mesmo tempo, o painel tratou esse traço com cuidado. O Brasil não é isolado apenas por falta de estratégia. Ele também se tornou um ecossistema forte, com consumo interno alto, cenas diversas e uma cultura que se alimenta de si mesma. A questão, segundo os participantes, é transformar essa força em troca internacional, sem cair na velha síndrome de vira-lata nem no excesso de autossuficiência.

Streaming, autoestima e a nova vitrine brasileira

Papatinho, Brasil
Papatinho (Crédito: Igor Ventura)

O dado da IFPI, a Federação Internacional da Indústria Fonográfica, apareceu como pano de fundo da conversa: o Brasil chegou à oitava posição entre os maiores mercados de música gravada do mundo. Esse avanço muda a forma como gravadoras, editoras, marcas e artistas estrangeiros observam o país, especialmente em um momento em que o streaming tornou mais fácil medir consumo, testar repertórios e criar estratégias regionais.

Marcela Moreira destacou que o interesse pelo Brasil já pode ser percebido para além da música. Segundo ela, há mais estrangeiros morando, visitando e produzindo no país, além de marcas internacionais usando referências brasileiras em campanhas. A leitura é simples: a cultura brasileira virou desejo, e isso inclui música, moda, comida, festas, imagens e comportamento.

O painel também tocou em uma mudança de autoestima. Gustavo Menéndez, olhando de fora, foi citado como alguém que descreve o Brasil com admiração, o que levou os participantes a comentarem que talvez falte aos próprios brasileiros reconhecerem a dimensão do que o país produz. Para Mariana Madjarof, o Brasil tem cultura, moda, música e alimentação capazes de influenciar outras regiões, e não apenas de receber influência.

Essa virada não significa abandonar o diálogo com outros países latinos. Pelo contrário. Um dos caminhos apontados foi chegar com orgulho, mas também com humildade. O Brasil tem uma identidade única, mas México, Colômbia, Argentina, Porto Rico e outros mercados também têm cenas potentes. A integração depende dessa escuta, não só da tentativa de exportar repertório.

Funk, pagode e arrocha entram na conversa global

Quando o debate passou para os gêneros que poderiam apresentar melhor o Brasil ao público estrangeiro, arrocha, pagode, forró e funk ganharam destaque. O arrocha foi citado como um movimento forte e ainda pouco conhecido fora do país. O pagode apareceu pela capacidade de criar experiência coletiva, principalmente pela força do canto do público e das rodas ao vivo.

Papatinho levou a conversa para artistas e sonoridades que carregam o Brasil sem depender apenas dos estereótipos mais conhecidos. Ele citou João Gomes como um nome que representa o país “do jeito dele”, fora da ideia mais óbvia de samba ou funk. A fala ajuda a explicar como a internacionalização brasileira pode passar por cenas regionais, não só pelos gêneros que o exterior já associa ao país.

Na parte mais estratégica, o funk apareceu como possível equivalente brasileiro do dembow no reggaeton. Gustavo Menéndez lembrou que a música latina também viveu picos isolados antes de criar um movimento mais estável. O exemplo do reggaeton serviu para pensar como uma batida pode atravessar idiomas e virar base para colaborações em vários países.

Papatinho também contou bastidores de encontros internacionais ligados ao Black Eyed Peas e ao uso de inteligência artificial em um clipe com elementos visuais do Brasil. Para ele, há uma curiosidade real de artistas estrangeiros em “participar” um pouco do Brasil, seja pela música, pela estética ou pela energia dos shows.

“O Brasil é muito maneiro. O Brasil é mais exótico. Os caras querem participar, ser um pouco brasileiro de alguma forma”, resumiu.

No fechamento, a ideia que ficou foi menos a de uma “bola da vez” e mais a de uma presença constante. O desafio agora é sustentar essa atenção com estratégia, circulação internacional, parcerias e repertórios capazes de atravessar fronteiras sem perder o sotaque.

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